Introdução
A doença do verme da Guiné é uma doença causada por um nematódeo conhecido como Dracunculus medinensis. Sua transmissão é intermediada por pequenos crustáceos, vetores da larva de Dracunculus, presentes em água contaminada, consumida pelo indivíduo. Menos comumente, pode ser carregada por peixes e outros animais, mas este método de contaminação não é tão relevante para humanos, e sim para cães. A doença no entanto, pode atrapalhar a funcionalidade do ser humano, em termos de desconforto, dor e incapacidade laboral, por semanas e até meses, afetando principalmente pessoas em comunidades rurais sem acesso a saneamento e água limpa. É rara por todo o mundo, porém, é relativamente frequente em comunidades de países africanos, onde já foi endêmica há algumas décadas, como na Etiópia, Chade, Mali e Angola. A doença está próxima de sua erradicação, com apenas 27 casos sendo reportados em 2020, em oposição aos 3.5 milhões de hospedeiros que costumava ter na década de 80.
Patogenia
A doença demora cerca de um ano após a contaminação para apresentar seus sintomas, começando com uma bolha dolorosa se formando, normalmente na porção distal do membro inferior. É comum que um verme saia da bolha. Muitas vezes, como forma de alívio para dor e queimação, a tendência do doente é inserir o membro dolorido em água, o que libera mais larvas do verme na água, perpetuando o ciclo da doença. Quando um outro indivíduo tomar a água, consumirá pulgas d’água carreadoras da doença, que serão mortas pelo ácido estomacal, liberando o verme no intestino para circular por todo o corpo, até emergir novamente por uma bolha na pele.
Manifestações clínicas
Antes da formação da bolha, a pessoa infectada pode apresentar uma gama de sintomas que apontam para a provável contaminação pelo verme. Febre, prurido, enjoo, vômito, nausea, astenia e diarreia são os principais. Quando a bolha aparecer, medirá entre 2 e 7 cm, e causará dores intensas, especialmente durante a efusão do verme. No geral, o verme sairá pela pele, mas pode acabar passando por locais ectópicos, como os olhos, pulmão, pericárdio e até no sistema nervoso. Esse tipo de manifestação é rara. Outros sintomas vão depender da localização do verme, como por exemplo, caso se desloque por articulações, pode acabar causando artrite.
Além disso, uma possibilidade é que o verme se calcifique, talvez antes mesmo de causar quaisquer sintomas. Neste caso, só será possível localizá-lo incidentalmente através de um exame de imagem, como uma tomografia computadorizada ou uma radiografia.
Prevenção
Em primeiro lugar, a ferramenta imprescindível para a futura (e muito provavelmente, próxima) erradicação da doença é a sua prevenção. Diferentemente de outras doenças infecciosas, essa verminose não possui uma vacina que auxilie em sua prevenção, e nem qualquer outro tipo de medicação profilática que possa evitar sua infecção ou aparecimento da doença, do momento da contaminação até a efusão do primeiro verme. Apesar disso, diversas estratégias têm sido empregadas, e bem sucedidas, em prevenir e erradicar a doença. Entre elas podemos incluir: controle e vigilância de cada caso em humanos e animais, prevenir a transmissão de cada verme com seu tratamento e limpeza da área afetada, evitar o consumo de água infectada por humanos e animais, enquanto há melhora do acesso a água potável e limpa para populações, seja por meio de filtração ou outro método e uso do vermicida temephos na água. Em suma, a prevenção inclui a promoção de mudança de hábitos e da educação em saúde.
Um obstáculo importante em relação à erradicação da doença foi a descoberta de que a transmissão por caninos era um possibilidade, visto que era pensado só ocorrer em seres humanos. Isso considerando que são os animais domésticos mais comuns por todo o mundo, e portanto poderiam indicar a facilidade de contaminação entre humanos que criassem os animais, caso a doença chegasse a se espalhar novamente. No entanto, os cães são hospedeiros alternativos do verme, não sua primeira opção. De qualquer maneira, a descoberta serviu para ratificar a importância da vigilância de animais doentes.
Tratamento
A verminose é tratada de forma relativamente simples, com o tratamento divido em dois pilares: extração do verme e cuidado com a ferida. O verme deve ser enrolado em algo como um palito, e a cada dia, alguns centímetros devem ser puxados para fora, lentamente, jamais removendo tudo de uma só vez. É importante lembrar que podem levar semanas, e até mesmo meses, para que a extração total seja realizada e o paciente obtenha resolução do quadro. O manejo da dor local deve ser feito com analgesia apropriada e coerente com a dor sentida pelo indivíduo. Caso o verme seja removido de maneira abrupta ou inadequada, ou até mesmo rompido, uma reação inflamatória pode tomar conta do local, se espalhando por toda a extensão do trato em que o verme previamente se encontrava.
Referências
- Greenaway, Chris. “Dracunculiasis (guinea worm disease).” CMAJ : Canadian Medical Association journal = journal de l’Association medicale canadienne vol. 170,4 (2004): 495-500.
- Organização Mundial da Saúde – https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/dracunculiasis-(guinea-worm-disease)
- Hopkins, Donald R et al. “Progress Toward Global Eradication of Dracunculiasis, January 2020-June 2021.” MMWR. Morbidity and mortality weekly report vol. 70,44 1527-1533. 5 Nov. 2021, doi:10.15585/mmwr.mm7044a1
- Roberts, Leslie. “Exclusive: Battle to wipe out debilitating Guinea worm parasite hits 10 year delay.” Nature vol. 574,7777 (2019): 157-158. doi:10.1038/d41586-019-02921-w
- Hopkins, D R. “Dracunculiasis: an eradicable scourge.” Epidemiologic reviews vol. 5 (1983): 208-19. doi:10.1093/oxfordjournals.epirev.a036259
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