Doutor(a), meu filho está ‘ficando para trás’! Como avaliar a curva de crescimento na pediatria. | Colunistas
Dentre os temores parentais, o crescimento adequado do(a) filho(a) é um dos mais frequentes no consultório pediátrico. Não é incomum os pais compararem a altura e peso da criança com a dos irmãos, amiguinhos da escola ou mesmo a partir de relatos de parentes e amigos. O que você, recém-formado ou acadêmico de medicina, precisa saber para avaliar o desenvolvimento da maturação biológica da criança é: quais são as taxas de referência de desenvolvimento e como identificar, a partir da curva de crescimento, desvios da normalidade.
O infante deve ser monitorado desde a vida intrauterina, a taxa de desenvolvimento do bebê sinaliza se ele está saudável ou se há alguma patologia em curso, bem como se há todos os recursos maternos necessários para ele atingir seu potencial. Após o nascimento, e até a idade de 19 anos, peso, estatura e perímetro cefálico serão mensurados no acompanhamento da puericultura/pediatria e os resultados serão, posteriormente, avaliados na curva de crescimento que compara os três determinantes coletados da criança, com uma amostra mundial.
Há diversas influências que determinam o crescimento infantil, dentre elas: se a criança é um maturador rápido ou lento, ou seja, se ela tem o ritmo de crescimento elevado ou baixo; se possui hipertireoidismo ou hipotireoidismo, desnutrição, obesidade ou outras doenças crônicas que podem levar ao atraso ou ao adiantamento da maturação biológica, ou da idade óssea, e, por conseguinte, do crescimento.
RN até os 2 anos de vida
Os primeiros anos de vida da criança representam sua maior taxa de crescimento, com velocidade maior que a fase púbere. No caso do infante estar abaixo ou acima dos escores limítrofes, deve-se avaliar fatores ambientais e genéticos que podem estar influenciando sua condição.
Altura
Espera-se que a criança cresça 15 cm nos primeiros 6 meses de vida, 10 cm no segundo semestre e 10 cm no segundo ano, totalizando 35 centímetros nos dois primeiros anos.
Peso
Considera-se normal que na primeira semana o recém-nascido tenha uma perda de até 10% do seu peso, porém, a recuperação deve ocorrer até o 15° dia de vida. O ganho de peso deve compreender, no 1° trimestre, 25 a 30g por dia; no 2° trimestre, 20 a 25g por dia; no 3° trimestre, 15 a 20g por dia; e no 4° trimestre, 10 a 15g por dia. Dessa forma, entre os primeiros 4 a 6 meses de vida, a criança dobra seu peso de nascimento, aos 12 meses triplica e, aos 2 anos, quadriplica seu peso ao nascer.
Perímetro cefálico
O encéfalo do recém-nascido ainda está em crescimento, bem como as suturas dos ossos do crânio ainda estão se calcificando, desse modo, acompanhar o perímetro pode nos indicar se há prejuízo no desenvolvimento do encéfalo ou outras comorbidades, como hidrocefalia ou microcefalia, no caso de medidas acima ou abaixo de dois desvios-padrão (< -2 ou > +2 escores “z”). A mensuração do perímetro cefálico deve ser realizada com uma fita métrica sobre a crista supra-orbital e o occipício, evitando as orelhas. No 1° trimestre, o perímetro cefálico deve aumentar 5 cm; no 2° trimestre, 4 cm; no 3° trimestre, 2 cm; e no 4° trimestre, 1 cm, totalizando em um ano 12 cm.
Pré-escolar
Para crianças com pais particularmente muito altos ou baixos, existe a chance de diagnosticar exageradamente distúrbios de crescimento, para isso, deve levar em consideração a estatura alvo parental, que pode ser mensura pelas equações abaixo, de acordo com o gênero biológico da criança:
Menina: Estatura mãe + (estatura pai – 13) + 9
2
Menino: Estatura pai + (estatura mãe + 13) + 10
2
Peso
Nessa fase, a criança tem aumento de, em média, 2 kg ao ano.
Estatura
O pré-escolar cresce, em média, de 7 a 9 centímetros ao ano.
Escolar
Peso
Nessa faixa etária é esperado que o escolar aumente sua massa corporal de 2,5 a 3,5 kg ao ano.
Estatura
Espera-se que a criança tenha um aumento de, aproximadamente, 6 cm ao ano.
Adolescente
O adolescente pode crescer em taxas diferentes, de acordo com o início do estirão puberal. O aumento do peso é secundário ao aumento da altura, e a altura pode sofrer aumento de 10 cm ao ano, se o indivíduo estiver passando pelo estirão.
É considerada baixa estatura para idade e sexo quando a criança se encontra abaixo de -2 DP ou abaixo do percentil 3 de uma população referência. Velocidade de crescimento baixa é, geralmente, patológica, e devem ser investigadas alterações primárias do crescimento, como osteocondrodisplasias e alterações cromossômicas, ou, ainda, alterações secundárias do crescimento como doenças renais, cardíacas, gastrointestinais, respiratórias, hematológicas e endócrinas. Investigar, também, se há baixa estatura de acordo com a estatura familiar, indicada pela fórmula do canal familiar associada à idade óssea normal, puberdade e estirão em idade cronológica usual.
O texto é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto.
Observação: material produzido durante vigência do Programa de colunistas Sanar junto com estudantes de medicina e ligas acadêmicas de todo Brasil. A iniciativa foi descontinuada em junho de 2022, mas a Sanar decidiu preservar todo o histórico e trabalho realizado por reconhecer o esforço empenhado pelos participantes e o valor do conteúdo produzido. Eventualmente, esses materiais podem passar por atualização.
Novidade: temos colunas sendo produzidas por Experts da Sanar, médicos conceituados em suas áreas de atuação e coordenadores da Sanar Pós.
Referências
KLIEGMAN, Robert M. et al (org.). Tratado de Pediatria. 18. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2009.
CAMPOS JÚNIOR, Dioclécio et al (org.). Tratado de Pediatria: sociedade brasileira de pediatria. 3. ed. Barueri: Manole, 2014.