Dor e e analgesia: tudo o que você precisa saber para sua prática médica!
Dominar os conceitos de dor e analgesia é fundamental para estudantes de medicina e profissionais formados desta área. Isso porque ao compreender a fisiopatologia da dor, como realizar uma avaliação abrangente e aplicar uma abordagem terapêutica adequada o médico consegue oferecer um atendimento mais qualificado aos pacientes.
O objetivo deste conteúdo é oferecer um resumo com as principais informações sobre este tema.
Definição de dor
Dor é uma experiência “sensorial e emocional” desagradável associada a um dano efetivo ou potencial dos tecidos. Ela deve sempre ser considerada a partir do autorrelato daquela pessoa que refere estar sentindo a dor, sendo fundamental acreditar no paciente para poder ajudá-lo.
É importante notar que há uma peculiaridade na abordagem da dor que diz respeito ao seu teor individual e subjetivo. Por vezes, isso pode dificultar a avaliação da mesma, sobretudo em pacientes em que o autorrelato fica prejudicado por diversos motivos.
Um exemplo são os pacientes internados em uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI), onde o estado crítico destes pacientes acaba interferindo na sua capacidade de autorrelatar sua dor.
Fisiopatologia da dor
As classificações incluem:
- nociceptiva (causada por estímulos nocivos),
- neuropática (lesão ou disfunção do sistema nervoso),
- inflamatória (associada a processos inflamatórios) e
- mista (combinação de diferentes tipos).
De modo geral, é importante caracterizar melhor a dor quando este sintoma é informado pelo paciente como forma de buscar compreender sua etiologia, bem como direcionar melhor o tratamento. Dores agudas podem ser abordadas de uma maneira e dor crônica costuma precisar de outras estratégias analgésicas.
Como diferençar a dor nociceptiva e neuropática?
Dor nociceptiva
A dor nociceptiva ocorre em decorrência da estimulação química/física de terminações nervosas que estão normais, ou seja, as vias para condução do estímulo estão preservadas.
Dor somática
Essa dor pode ser somática quando ocorre no sistema osteomuscular, pele ou mucosas. Neste caso, localiza-se facilmente o estímulo doloroso, de modo que a mesma irá responder bem a analgésicos comuns e opioides.
Dor nociceptiva visceral
A dor nociceptiva que é visceral costuma ser uma dor referida e mal localizada, geralmente abrangendo uma região e associada a manifestações autonômicas como náuseas, vômitos, palidez, etc.
Algumas dessas dores viscerais irão responder bem a analgésicos. Porém, outras, como a dor em cólica, podem responder bem a antiespasmódicos.
Dor neuropática
A dor neuropática é decorrente de uma lesão das vias do sistema nervoso periférico (nervo, plexo ou raiz nervosa) ou central (medula ou encéfalo).
Com isso, esta dor se irradia pelo território do nervo lesado. Ela pode ser percebida superficial ou profundamente (o paciente pode referir parestesias, queimação, hiperalgesia ou até mesmo alodinia quando a dor decorre de um estímulo não nocivo).
A dor neuropática costuma responder melhor ao tratamento com medicações coadjuvantes.
Vale ressaltar que alguns pacientes apresentarão componentes tanto da dor neuropática quanto da dor nociceptiva.
Avaliação da dor: quais são os métodos?
A avaliação da dor é fundamental para o cuidado eficiente dos pacientes em diversas situações clínicas.
Essa avaliação é o que permite o alívio adequado do desconforto do paciente, a identificar possíveis complicações subjacentes e a monitorar a resposta ao tratamento.
Existem métodos padronizados de avaliação, como escalas de dor e questionários. Eles são usados juntamente com uma anamnese detalhada e um exame físico completo.
Escalas da dor
As escalas da dor, como a Escala Numérica da Dor (END) e a Escala Visual Analógica (EVA), estão entre os métodos mais comuns.
A END requer que o paciente atribua uma pontuação numérica à sua dor em uma escala de 0 a 10.
Já a EVA utiliza uma linha horizontal ou vertical, onde o paciente marca sua dor em um ponto entre duas extremidades que representam ausência e máxima intensidade de dor, respectivamente.
Questionários
É possível utilizar questionários de avaliação da dor e instrumentos para avaliação subjetiva. Esses artifícios podem fornecer informações adicionais sobre a natureza e o impacto da dor na vida do paciente.
Esse método pode incluir questionários de impacto da dor e avaliações de incapacidade funcional relacionada à dor.
Anamnese detalhada e exame físico
Durante a anamnese, o profissional precisa explorar detalhes sobre a origem, intensidade, duração e características da dor. Isso pode envolver perguntas específicas sobre:
- início da dor,
- fatores desencadeantes ou exacerbadores,
- padrão de distribuição da dor e
- quaisquer sintomas associados, como náuseas, vômitos ou alterações sensoriais.
Já o exame físico vai ajudar a detectar possíveis causas subjacentes. Isso pode incluir avaliação de sinais vitais, inspeção visual de áreas dolorosas, palpação para identificar áreas de sensibilidade aumentada, testes de amplitude de movimento e avaliação de função neurológica.
Em casos de pacientes incapazes de se comunicar verbalmente, é preciso observar cuidadosamente os sinais comportamentais e fisiológicos.
A dor no contexto da terapia intensiva
A dor é um sintoma comum no contexto de terapia intensiva. Uma média de 50% dos pacientes relatam ter sentido dor em algum momento durante o internamento e 15-30% referem que tal dor foi de grande intensidade.
Vale ressaltar que inúmeros motivos podem levar o paciente crítico a sentir dor. Repouso excessivo e procedimentos (retirada de drenos, inserção de cateteres e aspiração traqueal) são alguns deles.

Abordagem terapêutica da dor: uma visão abrangente da analgesia
A abordagem terapêutica abrangente é essencial para garantir o alívio eficaz do desconforto do paciente e melhorar sua qualidade de vida.
Pode-se utilizar a analgesia para tratar diversos tipos de dor, desde dores agudas, como as decorrentes de uma lesão ou cirurgia, até dores crônicas, que persistem ao longo do tempo.
O objetivo da analgesia é aliviar o desconforto do paciente. Também melhorar sua qualidade de vida, permitindo que ele se mova, descanse e realize atividades diárias com mais conforto e funcionalidade.
Existem diferentes tipos de analgesia, cada uma com seus próprios mecanismos de ação e indicações específicas. Essas incluem:
- analgesia sistêmica, que envolve o uso de medicamentos que afetam todo o corpo, como analgésicos orais ou injetáveis; e
- analgesia local, que é direcionada para uma área específica do corpo. Geralmente, ela é por meio de técnicas de bloqueio de nervos ou aplicação tópica de medicamentos.
Princípios básicos de analgesia
A base para uma abordagem eficaz no tratamento da dor é a compreensão dos princípios fundamentais da analgesia. Isso inclui a adoção de uma abordagem multimodal, que envolve a combinação de diferentes modalidades de tratamento para maximizar o alívio da dor com o mínimo de efeitos colaterais.
Além disso, a titulação adequada da medicação é crucial, adaptando a dose e o tipo de analgésico com base na causa e na intensidade da dor de cada paciente.
Vale ainda ressaltar que diversas vezes a dor é subdiagnosticada e, consequentemente, subtratada. Por isso, é importante que a dor seja avaliada rotineiramente, prevenida e tratada.
Também é importante que os profissionais de saúde saibam bem as doses eficazes e tempo de ação dos medicamentos para melhorar tratar este sintoma.
Informação complementar: a analgesia pode ser realizada até mesmo antes daqueles procedimentos que se prevê que o paciente irá sentir dor (analgesia preemptiva). Dessa forma, evita-se que o mesmo passe por esta experiência desagradável durante o procedimento.
Modalidades farmacológicas de analgesia
Há diversas modalidades farmacológicas de analgesia disponíveis no tratamento da dor. Isso inclui analgésicos não opioides, como paracetamol e AINEs, frequentemente usados para o tratamento da dor leve a moderada.
Para dor mais intensa, pode-se prescrever os opioides, como a morfina e o tramadol, prescritos com cautela, devido ao risco de dependência e efeitos colaterais.
Além disso, há os adjuvantes, como antidepressivos e anticonvulsivantes, usados em combinação com analgésicos tradicionais para potencializar o alívio da dor.
Em alguns casos, é possível ainda recorrer as técnicas de bloqueio de dor, como bloqueios nervosos. O foco nesses casos será proporcionar alívio localizado da dor.
Dor e Analgesia: cuidados na abordagem do paciente
Ao prescrever analgésicos, precisa-se considerar questões relacionadas à segurança do paciente. Avaliar os riscos de dependência, identificar efeitos colaterais potenciais e ter contexto da possibilidade de interações medicamentosas.
Prezando pela segurança e eficiência no cuidado com o paciente, é fundamental o monitoramento regular. Com isso, será possível, se necessário, fazer ajustes na terapia analgésica.
Dor e analgesia: importância da abordagem multidisciplinar
A aplicação prática dos conceitos de analgesia é muito relevante na prática médica, que pode incluir:
- manejo da dor pós-operatória,
- tratamento da dor em pacientes com doenças crônicas,
- prestação de cuidados paliativos, e
- resposta a emergências médicas.
Independente do cenário, tenha em mente que o sucesso no cuidado do paciente estará atrelado a uma abordagem multidisciplinar.
A colaboração com outros profissionais de saúde, como fisioterapeutas e enfermeiros, é importante para oferecer um cuidado abrangente e personalizado no manejo da dor.

Sugestão de conteúdo complementar sobre Dor e Analgesia
Esses artigos também podem ser do seu interesse: