“Quando nada mais pudermos fazer por alguém, é preciso que nós saibamos estar ao seu lado.”
Danielle Hons.
Introdução:
Os cuidados paliativos, segundo a Organização Mundial da Saúde, OMS(2007), tem como objetivo norteador a “Promoção da qualidade de vida dos pacientes e seus familiares, a partir da avaliação precoce, controle de sintomas, físicos, sociais, emocionais e espirituais, que sejam desagradáveis, no contexto de doenças que ameaçam a continuidade da vida,”
Paliativo, vem do latim pallium que significa, subjetivamente, amparar o outro. Na idade média, o palio era o manto usado pelos cavaleiros, durante as cruzadas, para proteger-se, ao longo de sua jornada, de intempéries como chuvas e ventos.
Nos cuidados paliativos a equipe multiprofissional de saúde está para o paciente assim como o palio estava para os cavaleiros, uma vez que esses profissionais são responsáveis por auxiliar o enfermo nesse momento delicado, buscando amenizar a dor física, a dor psicológica e questões sociais e espirituais do paciente e de sua família.
Inicialmente, os cuidados paliativos foram pensados e projetados para atenderem pacientes com processos neoplásicos avançados, sem expectativas de melhoras e que necessitavam de uma rede de apoio nesse final de vida, foi daí que surgiu o hospice moderno, idealizado pela mãe do paliativismo, a médica, enfermeira e assistente social Cicely Saunders.
Muitas pessoas, devido à falta de informações sobre o tema, confundem os cuidados paliativos com a omissão de cuidados, pois associam que um paciente em cuidados paliativos já está no “fim de linha” e nada mais vai ser feito para esse.
Atualmente, a equipe de cuidados paliativos age a partir de uma abordagem integral que visa a atender todas as necessidades do paciente e muitas vezes, os cuidados paliativos ocorrem concomitantemente ao tratamento tradicional para a enfermidade do paciente.
Os cuidados paliativos podem ser estabelecidos e iniciados em qualquer fase da enfermidade, sendo que sua efetividade é diretamente proporcional ao início precoce do manejo.
Princípios do Cuidado Paliativo:
Os cuidados paliativos são regidos por princípios norteadores estabelecidos para que o paciente e sua família sejam abordados holisticamente, tendo acesso ao melhor manejo que se possa ter.
Esses princípios são são:
Fonte: Integralidade do Cuidado: da Promoção ao Cuidado Paliativo. Cuidado Paliativo Oncológico – Biblioteca Virtual em Saúde MS.
Formação da Equipe de Cuidado Paliativos:
A equipe especializada em cuidados paliativos deve ser composta por um médico ou enfermeiro com formação em cuidados paliativos, um psicólogo, um fisioterapeuta e um assistente social. Segundo Gusso (2021) “Uma equipe com cuidados paliativos incorporados deve ter os membros com formação específica em cuidados paliativos. O serviço deve possuir todos os fármacos considerados essenciais para as equipes e apoio todos os dias da semana, 7 horas diárias.”
Contudo, na atenção básica, muitas vezes o manejo de pacientes paliativos vai ser realizado apenas pelo médico de família, podendo ter apoio dos Agentes Comunitários de Saúde (ACS), enfermeiro e/ou técnico de enfermagem e em grande parto dos casos esse manejo vai ocorrer em ambiente domiciliar, fora do consultório médico, devido às restrições de locomoção dos pacientes. Sendo necessário, portanto, muitas adaptações da equipe da APS, para realizar o acompanhamento mais adequado para cada paciente paliativo de determinado território.
Cuidados paliativos e legislação:
Atualmente os cuidados paliativos estão consolidados no Sistema Único de Saúde (SUS) graças a regulamentação estabelecida na constituição federal, os principais marcos são:
- Portaria N° 19, 03 de janeiro de 2002 – Institui no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS) o Programa Nacional de Assistência à Dor e Cuidados Paliativos.
- Portaria N° 1319, 23 de julho de 2002 – Criou no âmbito do SUS os Centros de Referência em Tratamento da Dor Crônico
- PLS 524/09 – Dispõe do direito das pessoas em fase terminal de doença.
- Resolução nº 41, de 31 de outubro de 2018 Dispõe sobre as diretrizes para a organização dos cuidados paliativos, à luz dos cuidados continuados integrados, no âmbito Sistema Único de Saúde (SUS).
Manejo da dor:
Atualmente, a dor é considerada o 5º sinal vital, junto aos 4 clássicos: a temperatura corporal, a frequência respiratória, a pressão arterial e a frequência cardíaca.
Pacientes em cuidados paliativos, principalmente aqueles oncológicos, podem referir dor em até 90% dos casos, e essa dor quando se não for devidamente acompanhada e corretamente tratada, se torna uma fonte de sofrimento crônica para aquela pessoa. Portanto, para esse manejo a Organização Mundial da Saúde, criou uma escada de como realizar o tratamento da dor, por meio do uso da Escala Visual Analogica (EVA), o paciente classifica sua dor de 0 a 10 e a partir disso, segundo os degraus da escada, obtém-se o tratamento mais adequado. Veja a seguir:
- Um paciente com dor 0, apresenta bem estar e não necessita medicações.
- Um paciente com dor fraca, 1 a 3 na EVA, necessita uso de medicações para o alívio daquele sintoma, inicia-se com um analgesico não opioide (paracetamol ou dipirona), associado ou não a um Anti inflamatório não esteroidal (AINEs).
- Um paciente com dor moderada, 4 a 7 na EVA, deve fazer o uso de um opioide fraco(Tramadol ou Codeína), associado a um analgesico não opiode e se necessário um AINEs.
- Um paciente com dor forte, deve utilizar um opióide forte (Morfina, Fentanil ou Metadona), associado a um analgesico não opióide e se preciso um AINEs.
É válido ressaltar que, em todos os degraus da escada, se necessário deve-se fazer uso terapia adjuvante: A partir de:
- Técnicas, dentre elas a radioterapia, a imunoterapia, a quimioterapia e a hormonioterapia.
- Fármacos como os antidepressivos(amitriptilina, duloxetina, venlafaxina) ou anticonvulsivantes (pregabalina e gabapentina).
Ademais, pacientes que fazem uso de opioides necessitam, devido ao efeito colateral da medicação, fazer uso de laxantes e antiemeticos, dentre eles os mais recomendados são os laxativos irritativos (bisacodil) e o antiemético Ondansetrona.
“Assistir a Morte em paz de um ser humano, faz-nos recordar uma estrela cadente, uma de milhões de luzes num vasto céu, que brilha durante um curto instante, para se extinguir para sempre na noite sem fim.”
Kübler-Ross.
O texto é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto.
Observação: material produzido durante vigência do Programa de colunistas Sanar junto com estudantes de medicina e ligas acadêmicas de todo Brasil. A iniciativa foi descontinuada em junho de 2022, mas a Sanar decidiu preservar todo o histórico e trabalho realizado por reconhecer o esforço empenhado pelos participantes e o valor do conteúdo produzido. Eventualmente, esses materiais podem passar por atualização.
Novidade: temos colunas sendo produzidas por Experts da Sanar, médicos conceituados em suas áreas de atuação e coordenadores da Sanar Pós.
Referências:
1) Gusso G, Lopes JMC, Dias LC. Tratado de Medicina de Família e Comunidade: Princípios, Formação e Prática. (2nd edição).
2) Manual de Cuidados Paliativos Versão Final – https://antigo.saude.gov.br/images/pdf/2020/September/17/Manual-CuidadosPaliativos-vers–o-final.pdf