Doenças gastrointestinais: tudo o que você precisa saber para sua prática clínica!
As doenças gastrointestinais atingem milhares de pessoas em todo o mundo. No Brasil tem sido observado aumento no número de novos casos, nos últimos anos.
Em boletim epidemiológico divulgado na última semana, o Ministério da Saúde apresentou um comparativo de mortalidade por doenças gastrointestinais no Brasil, de 2010 a 2018. De acordo com o levantamento, só em 2018 foram 156.480 óbitos, o que equivale a 11,9% de todas as mortes do ano.
O que são doenças gastrointestinais?
Doenças gastrointestinais são um conjunto de condições médicas que afetam o sistema digestivo, que é responsável por processar alimentos, absorver nutrientes e eliminar resíduos do corpo.
O sistema gastrointestinal inclui órgãos como:
- Esôfago
- Estômago
- Intestinos (delgado e grosso)
- Fígado
- Pâncreas
- Vesícula biliar
Essas doenças podem variar em gravidade, sintomas e tratamento, mas geralmente envolvem problemas no funcionamento ou na estrutura desses órgãos.
Quais as principais doenças gastrointestinais?
Alguns exemplos de doenças gastrointestinais incluem:
- Doença do refluxo gastroesofágico (DRGE)
- Síndrome do intestino irritável (SII)
- Doença Inflamatória Intestinal (DII)
- Doença Celíaca
- Pancreatite
- Câncer gastrointestinal
Essas são apenas algumas das muitas doenças gastrointestinais que podem afetar os diferentes órgãos do sistema digestivo. O diagnóstico e tratamento variam de acordo com a condição específica e podem envolver mudanças na dieta, medicamentos, procedimentos endoscópicos ou cirurgia, dependendo da gravidade e da causa subjacente da doença.
Doença do refluxo gastroesofágico
A Doença do Refluxo Gastroesofágico (DRGE) é uma condição na qual o conteúdo ácido do estômago volta para o esôfago, causando sintomas desconfortáveis.
A fisiopatologia da DRGE envolve uma disfunção na válvula entre o esôfago e o estômago, chamada de esfíncter esofágico inferior (EEI), que normalmente evita que o ácido do estômago retorne para o esôfago. Quando esse esfíncter não funciona corretamente, o ácido pode refluir, irritando o revestimento do esôfago e causando os sintomas característicos da doença.
Manifestações clínicas
Os principais sintomas incluem:
- Azia
- Sensação de queimação no peito após as refeições ou ao se curvar
- Regurgitação
A DRGE também pode causar dor no peito, que pode ser confundida com dor cardíaca, tosse crônica e rouquidão devido à irritação na garganta.
Como fazer o diagnóstico de DRGE?
O diagnóstico da DRGE envolve uma análise cuidadosa dos sintomas do paciente e pode incluir testes diagnósticos como:
- Endoscopia: que examina o esôfago e o estômago com uma câmera
- pHmetria esofágica: para medir a acidez ao longo do tempo
- Manometria esofágica para avaliar os movimentos e a pressão no esôfago.
Manejo do paciente com DRGE
O manejo da DRGE começa com mudanças no estilo de vida, como evitar refeições grandes e tardias, elevar a cabeceira da cama durante o sono, perder peso se necessário e evitar alimentos que possam desencadear os sintomas.
Medicamentos são frequentemente prescritos, incluindo antiácidos para alívio temporário, inibidores da bomba de prótons (IBP) para reduzir a produção de ácido a longo prazo, e antagonistas dos receptores H2, que também diminuem a produção de ácido, mas são menos potentes.
Síndrome do intestino irritável
A Síndrome do Intestino Irritável (SII) é uma condição gastrointestinal que afeta o funcionamento normal do intestino. A fisiopatologia da SII não é totalmente compreendida, mas envolve uma combinação de fatores, incluindo:
- Alterações na motilidade intestinal
- Sensibilidade visceral (percepção de estímulos dentro do intestino)
- Interações entre o sistema nervoso, o sistema imunológico e o microbioma intestinal.
Manifestações clínicas
Os sintomas variam, mas comumente incluem:
- Dor abdominal
- Inchaço
- Constipação e/ou diarreia.
Esses sintomas são frequentemente cíclicos, com períodos de agravamento e remissão.
Como fazer o diagnóstico da síndrome do intestino irritável?
O diagnóstico da SII é baseado nos sintomas característicos e na exclusão de outras doenças gastrointestinais.
Não há um teste único para confirmar a SII, mas exames médicos e testes podem ser usados para descartar outras condições.
Manejo do paciente
O manejo da SII envolve uma abordagem multidisciplinar, incluindo mudanças na dieta, estilo de vida e medicamentos. Algumas pessoas com SII acham útil identificar alimentos que desencadeiam os sintomas e ajustar sua dieta de acordo.
Além disso, estratégias para reduzir o estresse, como exercícios e técnicas de relaxamento, podem ajudar a controlar os sintomas. Embora a SII não tenha cura, muitas pessoas conseguem gerenciar os sintomas de forma eficaz com mudanças no estilo de vida e tratamentos. É importante trabalhar em colaboração com o paciente para desenvolver um plano de manejo personalizado que aborde seus sintomas específicos e melhore sua qualidade de vida.
Doença inflamatória intestinal
A Doença Inflamatória Intestinal (DII) é um termo que engloba condições crônicas caracterizadas pela inflamação persistente do trato gastrointestinal. As duas principais formas de DII são a doença de Crohn e a colite ulcerativa, ambas afetando diferentes partes do sistema digestivo e com sintomas variados.
A doença de Crohn pode afetar qualquer parte do trato gastrointestinal, desde a boca até o ânus. Os sintomas podem incluir:
- Dor abdominal intensa
- Diarreia
- Perda de peso
- Fadiga
- Deficiências nutricionais
A inflamação pode penetrar profundamente nas camadas do tecido intestinal, levando a complicações como estreitamento do intestino (estenoses) e formações anormais (fístulas).
A colite ulcerativa é geralmente restrita ao cólon e ao reto. Ela causa inflamação e úlceras na mucosa do cólon, resultando em sintomas como:
- Diarreia frequentemente com sangue
- Dor abdominal
- Urgência para evacuar.
A fisiopatologia da DII é complexa e envolve interações entre fatores genéticos, ambiente, microbioma intestinal e sistema imunológico. É considerada uma doença autoimune, onde o sistema imunológico ataca erroneamente as células saudáveis do trato gastrointestinal, levando à inflamação crônica.
Como fazer o diagnóstico da doença inflamatória intestinal?
O diagnóstico da Doença Inflamatória Intestinal (DII), que inclui a doença de Crohn e a colite ulcerativa, é um processo abrangente que requer uma combinação de informações clínicas, exames de imagem, testes laboratoriais e avaliações médicas.
O médico começará por coletar informações detalhadas sobre os sintomas do paciente, como dor abdominal, diarreia, sangramento retal, perda de peso, fadiga e outros sintomas relacionados ao trato gastrointestinal. Um histórico médico completo também ajuda a identificar fatores de risco e possíveis causas subjacentes.
Vários testes laboratoriais podem ser realizados para auxiliar no diagnóstico da DII:
- Exames de sangue: podem mostrar sinais de inflamação, como níveis elevados de proteína C reativa (PCR) e taxa de sedimentação de eritrócitos (VHS)
- Exames de fezes: podem detectar sangue oculto nas fezes e ajudar a descartar infecções gastrointestinais
Além disso, durante a colonoscopia ou endoscopia, o médico pode realizar biópsias, coletando pequenas amostras de tecido para análise microscópica. Isso ajuda a confirmar o diagnóstico e diferenciar entre a doença de Crohn e a colite ulcerativa.
Manejo do paciente
É essencial que o paciente com DII seja acompanhado por um gastroenterologista ou médico especializado em DII. O acompanhamento regular permite monitorar a progressão da doença, ajustar o tratamento conforme necessário e identificar complicações.
O tratamento medicamentoso depende da gravidade e extensão da DII. Os medicamentos frequentemente prescritos incluem:
- Anti-inflamatórios: podem ajudar a controlar a inflamação. Exemplos incluem a mesalamina.
- Corticosteroides: usados para controlar surtos agudos de inflamação, mas seu uso prolongado é evitado devido a efeitos colaterais.
- Imunossupressores: podem reduzir a atividade do sistema imunológico, ajudando a controlar a inflamação.
- Terapias biológicas: medicamentos que bloqueiam moléculas específicas envolvidas na inflamação.
- Terapias direcionadas: novos medicamentos em desenvolvimento que têm como alvo alérgenos específicos.
Doença gastrointestinal: doença celíaca
A doença celíaca é uma condição autoimune crônica em que o consumo de glúten desencadeia uma reação imunológica prejudicial ao revestimento do intestino delgado. O glúten é uma proteína encontrada no trigo, cevada e centeio. Essa doença afeta a capacidade do corpo de absorver nutrientes essenciais, levando a danos na mucosa do intestino delgado e potencialmente causando uma variedade de sintomas e complicações.
Quando uma pessoa com predisposição genética à doença celíaca consome glúten, ocorre uma reação imunológica anormal. O sistema imunológico reconhece erroneamente o glúten como uma ameaça e desencadeia a produção de anticorpos, especialmente o anticorpo antitransglutaminase tissular (tTG) e o anticorpo antideaminase de gliadina (AGA). Esses anticorpos atacam as células do revestimento do intestino delgado, causando inflamação e danos nas vilosidades intestinais.
As vilosidades intestinais são estruturas semelhantes a dedos que aumentam a superfície de absorção do intestino delgado. Com a progressão da doença celíaca, essas vilosidades podem encolher e ficar achatadas, resultando em uma superfície de absorção reduzida. Isso leva à má absorção de nutrientes essenciais, como vitaminas, minerais e outros nutrientes importantes.
Manifestações clínicas
A inflamação e o dano às vilosidades podem causar uma variedade de sintomas e complicações, incluindo:
- Diarreia crônica ou constipação
- Perda de peso
- Fadiga
- Inchaço abdominal
- Anemia devido à má absorção de ferro e ácido fólico
- Fraqueza óssea devido à má absorção de cálcio e vitamina D
- Problemas de pele, como dermatite herpetiforme
- Dificuldades no crescimento e desenvolvimento em crianças
Manejo do paciente com doença celíaca
O manejo de um paciente com Doença Celíaca envolve uma abordagem holística que combina mudanças na dieta, acompanhamento médico regular e educação sobre a condição.
O componente central do manejo da Doença Celíaca é a adesão rigorosa a uma dieta sem glúten. Isso significa evitar alimentos que contenham trigo, cevada, centeio e seus derivados. Muitos alimentos processados podem conter glúten oculto, portanto, a leitura cuidadosa dos rótulos é essencial.
Além de evitar alimentos com glúten, é essencial evitar a contaminação cruzada em casa e em restaurantes. Isso inclui usar utensílios de cozinha separados, evitar compartilhar torradeiras e ter cuidado com alimentos preparados em superfícies contaminadas.
Se a doença celíaca for diagnosticada em crianças, o acompanhamento pediátrico regular é crucial para garantir o crescimento e desenvolvimento adequados.
Pancreatite
A pancreatite é uma condição que envolve a inflamação do pâncreas, um órgão localizado atrás do estômago e que desempenha um papel importante na digestão e regulação dos níveis de açúcar no sangue.
A pancreatite pode ser aguda, de início súbito e geralmente de curta duração, ou crônica, caracterizada por inflamação persistente e danos progressivos ao pâncreas ao longo do tempo.
Sintomas da pancreatite aguda
Os sintomas são:
- Dor abdominal intensa e repentina, frequentemente na região superior do abdômen, que pode se estender para as costas.
- Dor que piora após comer, especialmente alimentos ricos em gordura, e pode ser aliviada quando o paciente se inclina para a frente.
- Náuseas e vômitos
- Inchaço abdominal
- Febre
- Batimentos cardíacos rápidos
Sintomas da pancreatite crônica
Na pancreatite crônica os principais sintomas são:
- Dor abdominal recorrente ou constante, muitas vezes mais leve do que na pancreatite aguda, mas que pode se intensificar ao longo do tempo
- Perda de peso não intencional
- Diarreia
- Fezes volumosas e gordurosas, devido à má absorção de nutrientes
- Diabetes, uma vez que o pâncreas também regula os níveis de açúcar no sangue
É importante notar que a pancreatite aguda é uma condição grave que requer atenção médica imediata.
A pancreatite crônica, por sua vez, pode ser o resultado de danos cumulativos ao pâncreas, muitas vezes causados pelo consumo excessivo e prolongado de álcool, bem como outras causas como doenças genéticas ou obstruções nos ductos pancreáticos.
Diagnostico e tratamento
O diagnóstico da pancreatite é feito com base nos sintomas, exames de sangue, exames de imagem como ultrassonografia, tomografia computadorizada e ressonância magnética. Além de exames que avaliam a função pancreática e os níveis de enzimas pancreáticas no sangue.
O tratamento depende da gravidade e da causa subjacente da pancreatite e pode incluir internação hospitalar, hidratação, jejum temporário, medicamentos para alívio da dor e intervenções cirúrgicas em casos mais graves.
Câncer gastrointestinal
O câncer gastrointestinal refere-se a um grupo de cânceres que se originam em diferentes partes do trato gastrointestinal, que inclui o esôfago, estômago, fígado, vesícula biliar, pâncreas, intestino delgado, cólon e reto.
Cada tipo de câncer gastrointestinal tem características distintas, sintomas variados e necessidades de tratamento específicas. Leia mais sobre essas doenças:
- Câncer de estômago: tipos, sintomas e tratamento!
- Câncer de intestino: sintomas, diagnóstico, tratamento e prevenção
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Referência bibliográfica
- HARRISON, Tinsley Randolph (Ed.) et al. Harrison medicina interna. 18.ed. Rio de Janeiro: McGraw-Hill, 2013.
- CECIL, Russell Lafayette; GOLDMAN, Lee; AUSIELLO, D. A. Cecil: tratado de medicina interna. 23.ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2009.
Sugestão de leitura complementar
- Câncer colorretal: prevenção, rastreamento e tratamento | Colunistas
- Resumo de anatomia dos intestinos delgado e grosso
- Resumo de Neoplasias: epidemiologia, fisiopatologia, classificação, metástase
