INTRODUÇÃO
O sistema gastrointestinal é um conjunto dos órgãos mais complexos do organismo humano, tanto anatômica como funcionalmente. Sua formação envolve os três folhetos embrionários (endoderma, mesoderma e ectoderma), além de uma interação com microrganismos que colonizam seu interior. Sua função pode ser simplificada em 4 principais: digestão, absorção, motilidade e eliminação de toxinas.
Nos recém-nascidos, a compreensão de seu funcionamento é de extrema importância, uma vez o bebê ao nascer transiciona de uma alimentação predominantemente parenteral via cordão umbilical para uma alimentação via oral em um sistema digestivo ainda imaturo. Esses fatores explicam a alta prevalência de doenças gastrointestinais, sobretudo em prematuros, como a ocorrência de intolerâncias alimentares, refluxo gastroesofágico, dentre outras.
Portanto, o objetivo deste artigo é trazer aspectos gerais acerca das principais doenças gastrointestinais que acometem os recém-nascidos.
ENTEROCOLITE NECROTIZANTE
Definição e fisiopatologia: A Enterocolite Necrotizante (ECN) é caracterizada por graus variados de necrose de coagulação na parede intestinal. Atinge, sobretudo, o íleo terminal, colo ascendente e colo transverso em sua parte proximal, que são áreas importantes do suprimento arterial mesentérico superior.
Em sua fisiopatologia há uma tríade: (1) Isquemia intestinal, (2) Nutrição enteral e (3) presença de microrganismos patogênicos. Em bebês prematuros também está envolvida a imaturidade do trato gastrointestinal com aumento de permeabilidade e atividade anormal de enzimas, alteração de autorregulação sanguínea e do sistema imune. Apesar de eventualmente serem isolados microorganismos patogênicos, o papel destes parece não ser isoladamente o principal fator predisponente para sua ocorrência.
Sintomas: Distensão abdominal, aumento de resíduos gástricos, presença de vômitos biliosos, queda no estado geral, toxemia, sangue nas fezes (muitas vezes oculto), flegmão periumbilical. Em graus mais avançados pode evoluir para hipo ou hipertermia, letargia, apneia, bradicardia, coagulação intravascular disseminada (CIVD), hipotensão, distúrbios hidroeletrolíticos. Pode também se complicar com peritonite, perfuração intestinal e choque séptico.
Diagnóstico: Na radiografia simples pode ser observada a distensão de alças, pneumatose intestinal (Gás Hidrogênio produzido pelas bactérias) e pneumoportograma (gás na circulação porta).
Tratamento: É prescrita alimentação parenteral, com jejum por 7 a 14 dias, associada a descompressão com sonda nasogástrica. É também utilizada reposição hídrica sempre acompanhada de monitorização de débito urinário, perfusão débito cardíaco e de potenciais distúrbios hidroeletrolíticos. Antibioticoterapia também é recomendada, com boa cobertura para gram negativos, gram positivos e anaeróbios. Avaliação da cirurgia pediátrica é necessária, com acompanhamento radiológico entre 6 a 12 horas durante a fase aguda. Em caso de perfuração de alças, a laparotomia com ressecção das partes necróticas é indicada.
Fonte: https://drpixel.fcm.unicamp.br/sites/fcm.unicamp.br.drpixel/files/pneumatose_intestinal_0.jpg
DOENÇA DE HIRSCHSPRUNG (MEGACÓLON CONGÊNITO)
Definição e fisiopatologia: É caracterizada pela ausência de inervação (plexos de auerbach e meissner) em um segmento intestinal, em proporções variáveis. Afeta principalmente indivíduos do sexo masculino e pode estar associada a síndromes genéticas e outras má formações.
Sintomas: Ela se manifesta com constipação intestinal e não eliminação de mecônio após 48h de vida, distensão abdominal e acúmulo de gás nas alças.
Diagnóstico: Pode ser realizada manometria anorretal, e biópsia, com a visualização de ausência de células ganglionares na porção acometida. Ao enema opaco é visto uma redução de calibre no segmento com agangliônico seguido de uma distensão no segmento normal, conforme a imagem 02.
Fonte: https://drpixel.fcm.unicamp.br/conteudo/megacolon-congenito-ou-doenca-de-hirschsprung
Tratamento: É cirúrgico, com ressecção do segmento aganglônico, com religação dos segmentos normais.
ESTENOSE HIPERTRÓFICA DE PILORO
Definição e fisiopatologia: É caracterizada por uma hipertrofia da musculatura pilórica, com estreitamento e prolongamento do canal pilórico. Em sua fisiopatologia já foram relatadas deficiências na síntese de óxido nítrico, hipergastrinemia, acidificação do pH gástrico e alcalose hiperclorêmica.
Sintomas: Vômitos não biliosos em jato, hiperperistalse gástrica (ondas de Kussmaul), distensão em andar superior do abdome, oliva pilórica palpável, emagrecimento e apetite aumentado, desidratação.
Diagnóstico: Pode ser realizado mediante radiografias simples e pela USG de abdome, com presença de imagem em alvo na região pilórica (anel hipoecoico do músculo hipertrofiado em torno da mucosa).
Tratamento: Inicialmente é feita a correção dos potenciais distúrbios hidroeletrolíticos e estabilização clínica e o tratamento definitivo é cirúrgico, mediante piloromiotomia a Fredet Hamstedt.
ÍLEO MECONIAL
Definição e fisiopatologia: É causadora de uma obstrução intestinal em recém-nascidos e está comumente relacionada à ocorrência da fibrose cística (80-90%). É relacionado também ao uso de sulfato de magnésio como tratamento para pré-eclâmpsia. O mecônio normalmente endurecido é o causador da obstrução associado às secreções gastrointestinais viscosas e aderidas à mucosa intestinal.
Sintomas: Não eliminação de mecônio nas primeiras 48h de vida, distensão abdominal, vômitos biliosos. Pode ocorrer ainda a presença de volvo intestinal, perfuração de alças e ascite logo ao nascimento.
Diagnóstico: Pode ser feito com uso de radiografia simples, testes rastreio de fibrose cística e pela USG obstétrica (dilatação intestinal, polidrâmnio).
Tratamento: Pode ser realizado mediante enemas com contraste diluído e acetilcisteína por fluoroscopia. A laparotomia pode ser necessária ajo o enema não repare a obstrução.
Felipe Vanderley Nogueira – Estudante de Medicina
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REFERÊNCIAS
- COCHRAN, Willliam J. Distúrbios gastrointestinais em neonatos e bebês – íleo Meconial. Manual MSD, março de 2020. Acesso em 22/08/2021.
- COCHRAN, Willliam J. Distúrbios gastrointestinais em neonatos e bebês – Estenose Hipertrófica de Piloro. Manual MSD, março de 2020. Acesso em 22/08/2021.
- MORAIS, Mauro Batista. Sinais e sintomas digestivos associados com o desenvolvimento do trato digestivo. Jornal de Pediatria, v. 3, suppl. 1, 2016.
- OLIVEIRA, Nelson Diniz; MIYOSHI, Milton Harumi. Avanços em Enterocolite necrotizante. Jornal de Pediatria, v. 81, suppl. 1, 2005.




