Doença ulcerosa péptica: tudo o que você precisa saber para sua prática clínica!
A doença ulcerosa péptica (DUP) é uma condição na qual se desenvolvem úlceras abertas e dolorosas na mucosa que reveste o estômago ou o duodeno, a primeira parte do intestino delgado.
As úlceras pépticas podem ocorrer tanto no estômago (úlceras gástricas) quanto no duodeno (úlceras duodenais).
Quais as causas da doença ulcerosa péptica (DUP)?
As causas da doença ulcerosa péptica (DUP) são geralmente relacionadas a uma combinação de fatores, incluindo fatores genéticos, estilo de vida e a presença da bactéria Helicobacter pylori. As principais causas da DUP incluem:
- Infecção por Helicobacter pylori: a presença da bactéria Helicobacter pylori no revestimento do estômago é uma das principais causas da doença ulcerosa péptica. Essa bactéria pode enfraquecer a mucosa protetora do estômago, tornando-o mais suscetível a danos causados pelo ácido clorídrico produzido no órgão
- Uso de medicamentos anti-inflamatórios não esteroides (AINEs): o uso prolongado de medicamentos anti-inflamatórios não esteroides, como o ibuprofeno, aspirina, naproxeno, entre outros, pode irritar a mucosa gástrica e duodenal, contribuindo para o desenvolvimento de úlceras pépticas
- Produção excessiva de ácido clorídrico: algumas pessoas podem ter uma produção aumentada de ácido clorídrico no estômago, o que pode levar a um desequilíbrio na proteção da mucosa e aumentar o risco de úlceras
- Fatores de estilo de vida: o consumo excessivo de álcool e o tabagismo estão associados a um maior risco de desenvolver doença ulcerosa péptica
- Outros fatores: outros fatores que podem contribuir para o desenvolvimento da doença ulcerosa péptica incluem história familiar da doença, idade avançada, uso de corticosteroides e presença de outras doenças, como doenças pulmonares crônicas ou doenças hepáticas.
É importante destacar que a interação entre esses fatores pode variar de pessoa para pessoa. Além disso, muitos casos de doença ulcerosa péptica têm uma etiologia multifatorial, ou seja, mais de uma causa contribuindo para o desenvolvimento das úlceras.
Epidemiologia da doença ulcerosa péptica
É uma das doenças gastrointestinais mais custosas e prevalentes. A incidência nos EUA, por ano, é de 500.000 casos, aproximadamente 1,8%, e a incidência global é de cerca de 1 caso por 1.000 pessoas/ano.
Entretanto, apesar dos números altos, sua incidência vem diminuindo ao longo dos anos, devido a queda de colonização por H. pylori, principalmente em países desenvolvidos e aumento na disponibilidade de antissecretores gástricos potentes.
A admissão por complicações de úlcera péptica permanece a mesma e, aproximadamente, 9.000 indivíduos anualmente falecem por causa da doença.
As taxas de internação por úlcera gástrica são maiores que por úlceras duodenais, sendo altas as taxas de internação por hemorragia na área da lesão, graças ao aumento do uso de anti-inflamatórios não esteroidais (AINEs).
As gástricas, também, são mais prevalentes em idosos e em mulheres. O aumento em mulheres é desconhecido, mas provavelmente explicado pelo aumento do tabagismo neste grupo.
Fisiopatologia da doença ulcerosa péptica
A mucosa gástrica possui mecanismos de defesa:
- Muco: é um revestimento e funciona como barreira, sendo produzido pelas células foveolares. Os AINEs, por inibirem a produção da prostaglandina, resultam na redução dessa camada de muco protetora da mucosa gástrica
- Bicarbonato: um sal de pH básico que neutraliza a acidez e se localiza entre a mucosa e camada de muco
- Camada hidrofóbica: também serve como barreira e repele o contato da secreção gástrica com a mucosa
- Óxido Nítrico e prostaglandinas: são importantes mediadores para o aumento da vascularização da mucosa e submucosa, estimulando a regeneração da mucosa gástrica, bem como a secreção de muco e bicarbonato
- Fluxo sanguíneo: revitaliza o epitélio
Como contraponto, existem substâncias que agridem a mucosa ao diminuir a produção de bicarbonato e muco, tais como: sais biliares, AAS, álcool, nicotina.
Logo, apesar de não ser uma regra, a úlcera pode se formar por excesso de ácido clorídrico na secreção gástrica. Tratando-se do uso de AINEs, por exemplo, ocorre desproteção da mucosa como consequência da inibição da formação das prostaglandinas.
Aproximadamente 75% das úlceras gástricas e 90% das úlceras duodenais são causadas pelo H. pylori, que é um organismo gram negativo que reside no epitélio gástrico, especificamente na camada mucosa, que propicia proteção contra antibióticos e ácidos. Porém, boa parte dos pacientes infectados com tal bactéria não chega a apresentar alguma queixa específica ou a desenvolver doença ulcerosa.
Mecanismos das lesões por H. pylori
Existem três possíveis mecanismos responsáveis pela lesão ocasionada pelo H.pylori:
- O H. pylori produz toxinas que lesam a mucosa, como urease, que converte ureia em bicarbonato e amônia. Por ser uma potente produtora de urease, tal processo auxilia, inclusive, no diagnóstico
- Resposta imune na mucosa, gerando inflamação local crônica e atração de fatores quimiotáticos
- A quantidade de gastrina aumenta e gera aumento da secreção gástrica, por redução da produção da somatostatina. Com isso, ocorre aumento da produção de ácido clorídrico no antro esofágico, mecanismo responsável por muitos casos de úlcera péptica duodenal.
O H. pylori possui apresentação crônica e, caso o paciente seja infectado pela bactéria, poderá permanecer com ela por toda a vida, sendo raros os casos em que há remissão espontânea.
O que é a úlcera gástrica?
As úlceras gástricas são feridas ou lesões que se formam na camada mais interna do estômago, conhecida como mucosa gástrica. Essas úlceras são uma forma de doença ulcerosa péptica (DUP) e podem causar desconforto e sintomas dolorosos.
As úlceras gástricas geralmente resultam de um desequilíbrio entre os fatores que protegem a mucosa gástrica e aqueles que a danificam.
Quais os principais sintomas das úlceras gástricas?
Os sintomas das úlceras gástricas podem variar de pessoa para pessoa, mas os mais comuns incluem:
- Dor abdominal: geralmente localizada na região do estômago e pode variar em intensidade. Pode ser descrita como uma queimação ou sensação de fome
- Azia: sensação de queimação ou desconforto que pode se irradiar para a garganta
- Náuseas e vômitos: podem ocorrer em alguns casos, especialmente se a úlcera estiver associada a outros problemas digestivos
- Perda de peso inexplicada: em casos mais graves, a doença pode levar a uma perda de peso involuntária
O que são úlceras duodenais?
As úlceras duodenais são lesões que se formam na mucosa do duodeno, que é a primeira parte do intestino delgado. Assim como as úlceras gástricas, as úlceras duodenais são uma forma de doença ulcerosa péptica (DUP).
O duodeno é uma parte crucial do sistema digestivo, onde ocorre a digestão inicial dos alimentos. Ele recebe o quimo (mistura de alimentos parcialmente digeridos e sucos digestivos do estômago) e libera enzimas digestivas e bicarbonato de sódio para neutralizar o ácido proveniente do estômago.
Manifestações clínicas das úlceras duodenais
Os sintomas das úlceras duodenais podem ser semelhantes aos das úlceras gástricas e incluem:
- Dor abdominal: a dor geralmente ocorre na região superior do abdômen, logo abaixo do esterno, e pode ser descrita como uma sensação de queimação ou desconforto
- Azia: sensação de queimação ou desconforto que pode subir pelo peito
- Náuseas e vômitos: podem ocorrer em alguns casos
- Sensação de saciedade precoce: algumas pessoas podem sentir-se satisfeitas rapidamente após as refeições devido à dor ou desconforto associado às úlceras
Tratamento da doença ulcerosa péptica
O tratamento da doença ulcerosa péptica (DUP) visa reduzir a produção de ácido no estômago. Além de eliminar a infecção por Helicobacter pylori (se presente) e promover a cicatrização das úlceras existentes.
O tratamento geralmente envolve uma combinação de medicamentos e mudanças no estilo de vida.
Medicamentos para redução da acidez
Medicamentos como:
- Omeprazol
- Esomeprazol
- Pantoprazol
- Lansoprazol
- Rabeprazol
reduzem significativamente a produção de ácido no estômago, ajudando a cicatrizar as úlceras e prevenir a recorrência.
Já os bloqueadores de histamina H2, que são medicamentos como ranitidina, cimetidina e famotidina também reduzem a produção de ácido no estômago, mas em menor grau do que os IBPs.
Antibióticos
Se a infecção por Helicobacter pylori for diagnosticada, o tratamento padrão inclui a combinação de antibióticos, como claritromicina, amoxicilina, metronidazol ou tetraciclina. Esse medicamento é usado juntamente com um IBP ou bloqueador de histamina H2. A erradicação da bactéria é fundamental para prevenir a recorrência de úlceras e reduzir o risco de complicações.
Medicamentos citoprotetores
O Sucralfato é um medicamento que forma uma espécie de “curativo” protetor na mucosa gástrica e duodenal. Esse medicamento ajuda a proteger as úlceras e facilitar a cicatrização.
Mudanças no estilo de vida
Algumas da principais medidas são:
- Evitar o uso excessivo de medicamentos anti-inflamatórios não esteroides (AINEs), como ibuprofeno e aspirina
- Reduzir o consumo de álcool e evitar fumar, pois ambos podem agravar a condição
- Adotar uma dieta equilibrada, evitando alimentos irritantes e excessivamente condimentados
- Gerenciar o estresse, pois o estresse pode agravar os sintomas
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Referência bibliográfica
- Fauci, A. et al. (2011). Harrison Manual de Medicina. Porto Alegre RS, AMGH Editora, p.834.
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