Doença do soro-like: você sabe identificá-la?| Colunistas

  • abril 19, 2021
  • 6 min read
[addtoany]
Doença do soro-like: você sabe identificá-la?| Colunistas

A doença do soro-like (DSL) é uma entidade rara, mas importante de ser identificada e entendida para evitar o uso exagerado de antibióticos ou a associação de outros medicamentos. É uma reação de hipersensibilidade do tipo III, autolimitada, associada à administração de alguns fármacos rotineiros, acontece mais frequentemente em crianças, e seu diagnóstico é essencialmente clínico.

Entenda o porquê do nome “doença do soro-like”

Antigamente muitas doenças bacterianas eram tratadas com soro de cavalo, a exemplo da difteria. Introduzia-se antígenos da difteria no cavalo, filtrava-se o soro do animal e injetava-se o soro repleto de anticorpos numa pessoa acometida com a difteria. Observaram, então, que muitas dessas pessoas tratadas com soroterapia começaram a ter lesões de pele e dores articulares, ambas associadas com as vezes em que recebiam o soro – reações típicas de hipersensibilidade ao soro do cavalo, pois as repetidas administrações culminavam na formação de imunocomplexos (devido ao excesso de antígeno e anticorpo) nos vasos, resultando na inflamação e lesão tecidual. Os sintomas não tinham a ver com a difteria, que era a doença de base, mas sim com as proteínas do soro. Assim, a doença do soro, que foi descrita pela primeira vez em humanos em 1905, por Pirquet e Schick, é uma reação sistêmica que ocorre após a administração de soro heterólogo, habitualmente de origem animal1.

Atualmente pouco se usa o soro como tratamento por tempo prolongado, no entanto, essa reação pode acontecer com alguns medicamentos e resultar numa outra entidade, clinicamente semelhante, que é a doença do soro-like.

Reação de hipersensibilidade do tipo III

Antes de conhecer mais sobre a DSL, revisar como acontece a reação de hipersensibilidade do tipo III ou reação por imunocomplexos ajuda a compreender a fisiopatologia por trás. Essa reação é tardia e resulta da deposição de imunocomplexos (IC) solúveis de Ag-Ac (antígeno-anticorpo) circulantes em vasos ou tecido. Esses IC ativam o sistema complemento e ocasiona a migração de células polimorfonucleares, além da liberação de enzimas proteolíticas lisossômicas e fatores de permeabilidade em tecidos, produzindo uma inflamação aguda nos locais onde os IC foram depositados. No caso da DSL, o organismo produz anticorpos contra as moléculas dos antibióticos (antígenos) no sangue; estes em excesso formam imunocomplexos que, uma vez depositados no interior dos vasos e em diversos tecidos, causam reações similares a doença do soro e, possivelmente, seja um dos mecanismos envolvidos inclusive na febre induzida por droga2.

Legenda: Reação de Hipersensibilidade do tipo III. Fonte: https://veteriamarpdfs.wordpress.com/hipersensibilidades-i-ii-iii-iv/

Confira as demais reações de hipersensibilidade aqui.

Drogas relacionadas à DSL

No quadro abaixo estão apresentadas as principais drogas que já foram associadas à DSL1.

PenicilinaAmoxicilina
CefazolinaCefaclor
CefuroximaCeftriaxona
MeropenemSulfonamidas
MacrolídeosFluoxetina
OmalizumabClopidogrel

Manifestações clínicas da DSL

As manifestações mais comuns são febre, artralgia/artrite, erupções cutâneas, urticária, linfadenopatia e edema, que tipicamente surgem cerca de uma a três semanas após a última administração da droga.

Não existem alterações laboratoriais características da doença. O hemograma é frequentemente normal ou, por vezes, revela leucocitose ou leucopenia transitórias. A velocidade de sedimentação (VHS) pode estar normal, elevada ou diminuída. Na maioria dos casos, não é possível detectar IC e a IgE específica para o medicamento é negativa. O exame sumário de urina não apresenta alterações, as enzimas hepáticas (AST e ALT) estão, habitualmente, dentro dos valores de referência, assim como os índices de função renal1.

O diagnóstico é essencialmente clínico, identificando a relação temporal entre o uso dos medicamentos e o aparecimento dos sintomas.

Diagnósticos diferenciais

Patologias que cursem com febre, lesões cutâneas e acometimento articular1:

  • Infecções virais: parvovírus B19, rubéola e mononucleose infeciosa;
  • Doença de Lyme;
  • Endocardite bacteriana;
  • Doença de Kawasaki;
  • Púrpura de Henoch-Schönlein;
  • Artrite idiopática juvenil;
  • Lúpus eritematoso sistêmico;
  • Vasculite urticariforme;

Caso de DSL

Sexo feminino, 4 anos, 25 kg. QP: “febre e lesão vermelha em pele, há 3 dias”. Criança há 3 dias apresentou febre de 38,5°C, com surgimento de placa hiperemiada em região MMII, não pruriginosa. Ao exame físico foi encontrado adenomegalia e artralgia no joelho esquerdo, porém sem sinais de inflamação na articulação. Genitora refere uso prévio por 10 dias de amoxicilina para tratamento de faringoamigdalite com término 4 dias antes do aparecimento dos sintomas.

  • É importante sempre se atentar aos casos de crianças que, após o tratamento com certos medicamentos, como os descritos anteriormente, começaram a apresentar sintomas de vasculite (artralgia, lesões de pele). No caso acima, pensar que ainda se trata da infecção ou reinfecção bacteriana e prescrever um medicamento ainda mais forte seria um erro, já que os sintomas decorreram do próprio uso do medicamento, caracterizando, assim, a doença de soro-like.

Tratamento

Deve-se suspender o medicamento associado e, caso necessário, utilizar anti-histamínico e sintomáticos para diminuir os sintomas ou corticoterapia sistêmica em casos graves. A hospitalização geralmente não é necessária, somente em casos de sintomatologia incapacitante – acometimento articular com consequente dificuldade de marcha.

O prognóstico é excelente, com evolução para a cura e desaparecimento dos sintomas, sem sequelas, em dias a semanas.

Autor: Maria Layane Cerqueira

Instagram: @layaneoc


O texto é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto.

Observação: material produzido durante vigência do Programa de colunistas Sanar junto com estudantes de medicina e ligas acadêmicas de todo Brasil. A iniciativa foi descontinuada em junho de 2022, mas a Sanar decidiu preservar todo o histórico e trabalho realizado por reconhecer o esforço empenhado pelos participantes e o valor do conteúdo produzido. Eventualmente, esses materiais podem passar por atualização.

Novidade: temos colunas sendo produzidas por Experts da Sanar, médicos conceituados em suas áreas de atuação e coordenadores da Sanar Pós.


Referências:

  1. BARREIRA, Patrícia; GOMES, Eva. Doença do soro-like associada à administração de fármacos em idade pediátrica. Rev Port Imunoalergologia, Lisboa,  v. 21, n. 4, p. 267-275,  2013.   Disponível em . Acessado em 20 de março de 2021.
  2. ENSINA, L. Felipe et al. Reações de hipersensibilidade a medicamentos – Guia prático de Alergia e Imunologia. Rev. bras. alerg. Imunopatol, vol. 32, n. 2, 2009. Disponível em < http://www.sbai.org.br/revistas/Vol322/ART%202-09%20-%20GP%20-%20Rea%C3%A7%C3%B5es%20de%20Hipersensibilidade%20a%20Medicamentos%20-%20parte%20I.pdf> Acessado em 20 de março de 2021

📚💻 Não perca o ritmo!

Preencha o formulário e libere o acesso ao banco de questões 🚀