A Doença de Peyronie é uma condição adquirida caracterizada por uma fibrose localizada na túnica albugínea do pênis, resultando em deformidade peniana, presença de nódulos, dor e, em alguns casos, disfunção erétil. O nome homenageia François Gigot de la Peyronie, cirurgião do rei Luis XIV, que descreveu diversos casos de tecido cicatricial na extensão do pêmis em um tratado sobre falha ejaculatória.
Essa condição pode ter um impacto significativo na qualidade de vida dos pacientes, afetando tanto a saúde física quanto o bem-estar psicológico. A evolução da doença e o tratamento variam conforme a fase em que se encontra: aguda ou crônica. A doença de Peyronie pode se resolver espontaneamente na minoria dos casos não tratados, mas em sua maioria se torna uma doença estável.
O manejo inclui opções farmacológicas oral ou intralesional, terapias físicas e intervenções cirúrgicas, sendo essencial uma abordagem personalizada para otimizar os resultados e melhorar a qualidade de vida do paciente.
Epidemiologia
Essa condição apresenta uma prevalência que pode variar entre 3% a 9% dos homens, sendo particularmente comum em indivíduos com mais de 50 anos, embora possa ocorrer em faixa etárias mais jovens.
Estudos indicam que a prevalência da Doença de Peyronie é maior do que se pensava anteriormente, possivelmente devido ao aumento da conscientização e ao uso de inibidores da fosfodiesterase tipo 5 para disfunção erétil. Contudo, a verdadeira prevalência da DP pode ser subestimada devido a resistência entre os homens de buscar atendimento médico e relatar a condição.
Etiologia e patogênese da Doença de Peyronie
A etiologia da Doença de Peyronie é ainda desconhecida, mas provavelmente é multifatorial, com componentes genéticos, traumáticos e inflamatórios. A teoria mais aceita é que o trauma peniano repetitivo, como durante a atividade sexual, gera microlesões na túnica albugínea, a camada fibrosa que recobre o corpo cavernoso do pênis.
A Doença de Peyronie é caracterizada pela presença de uma placa fibrosa que contém um excesso de colágeno, uma estrutura anormal de fibras elásticas reduzidas e fragmentadas. Além disso, há a proliferação fibroblástica, modificando a anatomia natural do pênis.
Essa placa cria áreas de inelasticidade que podem afetar a função erétil. Essas formações são compostas por tecido fibroso e apresentam áreas calcificadas ou até se ossificar completamente. Acredita-se que o desenvolvimento da DP esteja associado a traumas repetidos de baixa intensidade no pênis, geralmente ocorrendo durante relações sexuais, mas que passam despercebidos.
A DP é considerada uma alteração localizada no processo de cicatrização. Em pessoas predispostas, o trauma pode causar pequenos sangramentos na túnica albugínea, que levam à deposição de fibrina e ao acúmulo de células inflamatórias.
Esse processo, por sua vez, desencadeia a superexpressão de proteínas da matriz extracelular, influenciada pela alta concentração local de citocinas e fatores de crescimento. Portanto, a deposição excessiva de fibrina, como resposta à lesão vascular em nível microscópico e à elevação do fator de crescimento transformador beta-1, promovem a formação das placas fibrosas em uma ou mais áreas do pênis.
Fatores de Risco
Diversos fatores aumentam a predisposição para o desenvolvimento da Doença de Peyronie:
- Predisposição genética: Homens com histórico familiar de Doença de Peyronie ou contratura de Dupuytren têm maior risco, principalmente no que diz respeito à degradação do colágeno, ossificação e diferenciação de miofibroblastos
- Distúrbios do tecido conjuntivo: Muitos pacientes com Doença de Peyronie também apresentam condições como contratura de Dupuytren
- Idade avançada: A elasticidade tecidual diminui com a idade, aumentando a susceptibilidade.
- Disfunção erétil: Homens com disfunção erétil subjacente e têm maior probabilidade de desenvolver a condição. Ainda, a disfunção erétil está associada a pacientes com hipertensão, hiperlipidemia, diabetes e/ou tabagistas.
Estágios da Doença de Peyronie
Em cada fase da Doença de Peyronie, os sintomas podem variar, incluindo dor, curvatura e disfunção erétil. A condição é geralmente dividida em duas fases:
Fase aguda:
Nesta fase inicial, o paciente sente dor durante as ereções, causadas pela inflamação do tecido. Além disso, ccorre a formação da placa e o início da curvatura, que se estabiliza em cerca de 6 a 18 meses. Assim, esse estágio é caracterizado pela atividade inflamatória intensa e é quando o tratamento conservador é mais efetivo para impedir a progressão da fibrose.
Fase Crônica
Após a fase aguda, a doença entra em um estágio crônico, com a estabilização da curvatura e da dor. As placas tornam-se mais rígidas e os sintomas residuais incluem curvatura peniana persistente, disfunção erétil e possível encurtamento peniano.
Manifestação dos sintomas da Doença de Peyronie
Os principais sintomas incluem:
- Dor peniana: A dor é intensa principalmente durante a fase aguda e quando há ereção, diminuindo ou desaparecendo na fase crônica, geralmente dentro de 12 a 24 meses após o início da doença.
- Deformidade peniana: Pode ocorrer de formas variadas, como: curvatura, recuo, surgimento de placas ou nódulos palpáveis que variam de extensão, estreitamento da ampulheta, encurtamento peniano.
- Curvatura severa: Uma das queixas mais comuns, a curvatura impede ou dificulta o ato sexual com penetração.
- Disfunção Erétil: Presente em 20 a 50% dos pacientes, que relatam dificuldade em manter uma ereção rígida devido à deformidade que impede o coito, pênis instável (fibrose cavernosa ou comprometimento vascular), ansiedade de desempenho (psicológica) ou ereções prejudicadas devido à disfunção veno-oclusiva.
Diagnóstico da doença de Peyronie
Para diagnosticar a Doença de Peyronie, analisa-se a história clínica do paciente e realiza um exame físico peniano. A presença dos sintomas clássicos geralmente permite um diagnóstico preliminar da condição. Bem como: nódulos/placas penianas, curvatura e/ou dor.
Além disso, é deve-se investigar fatores associados, como contraturas de Dupuytren, doenças vasculares, traumas e infecções genitourinárias. A consulta deve incluir também uma avaliação do estado psicológico do paciente e de seu parceiro. Bem como o encaminhamento para o urologista se há suspeita da condição.
Exame físico:
- Avaliação do comprimeiro
- Tamanho da placa: Placas dorsais são mais comuns e palpáveis.
- Forma e tamanho da curvatura
- Solicitar fotos caseiras do pênis ereto para documentar a deformidade ou realizar farmacoereção no consultório
Se o diagnóstico não for claro, o ultrassom é o método de imagem preferido, por ser sensível, acessível e capaz de identificar calcificações e alterações de tecidos. Assim, a ultrassonografia duplex colorida é recomendada para avaliar o estado vascular quando há possibilidade de cirurgia reconstrutiva.
Tratamento da Doença de Peyronie
Urologistas são responsáveis por receber e tratar pacientes diagnosticados com a Doença de Peyronie. Assim, o tratamento depende do estágio e da gravidade dos sintomas, sendo que as opções incluem terapias conservadoras e cirúrgicas.
Doença em fase aguda
Tratamento medicamentoso
O tratamento medicamentoso é mais efetivo na fase aguda, onde busca reduzir a inflamação, dor e a progressão da placa, com consequente curvatura peniana.
- Pentoxifilina: Utilizado para estabilizar a doença, sendo um inibidor inespecífico da fosfodiesterase que diminui a fibrose mediada pelo fator de crescimento transformador beta-1, previne a deposição de colágeno tipo I e reduz a calcificação.
- Injeções de Colagenase: Utilizado após falha da pentoxifinila, na persistência de dor ou deformidade após três meses. A colagenase clostridium histolyticum é uma enzima que degrada o colágeno e reduz a curvatura do pênis.
Doença estável/crônica: Ausência de dor e não progressão da deformidade
Curvatura peniana < 30º
- Estes pacientes permanecem em observação e as causas adjacentes como a disfunção erétil devem ser tratadas. Bem como, se os sintomas evoluirem, o manejo deve incluir as opções a seguir:
Curvatura peniana > 30º
Terapia medicamentosa intralesional
- Injeções de Colagenase clostridium histolyticum: Único tratamento intralesional aprovado pela Food and Drug Administration dos EUA.
- Verapamil: Acredita-se que a injeção intraplaca de verapamil atue sobre o metabolismo dos fibroblastos, aumentando a atividade da colagenase e diminuindo a produção de colágeno, e consequentemente da placa.
Terapia física
A terapia física utiliza dispositivos de tração com o objetivo de alongar o tecido e reduzir a curvatura. Contudo, é geralmente associada com a terapia medicamentosa e terapia de injeção intralesional.
- Dispositivos de Tração Peniana: Promovem o alongamento gradual do pênis, resultando em uma redução da curvatura e ganho de comprimento.
- Exercícios de Alongamento Manual: Realizados sob orientação médica, esses exercícios ajudam a aumentar a flexibilidade do tecido.
Doença grave ou refratária
Tratamento Cirúrgico
A cirurgia é recomendada para pacientes cuja Doença de Peyronie persiste por mais de 12 meses e que apresentam deformidade peniana, prejudicando a função sexual. É essencial aguardar até que a doença esteja estável por, no mínimo, três meses antes de realizar o procedimento, já que a fase ativa pode comprometer os resultados cirúrgicos.
- Plicatura Peniana: Técnica indicada para curvaturas moderadas, onde o tecido saudável é encurtado para corrigir a curvatura, embora resultem em perda de comprimento devido ao encurtamento da túnica albugínea do lado mais longo.
- Enxerto: Utilizada em pacientes com curvatura grave (>60º), pênis curto ou placa extensa essa técnica envolve a incisão da placa e o uso de enxerto para restaurar o comprimento do pênis.
- Prótese Peniana: Indicada para pacientes com disfunção erétil grave subjacente. O implante protético corrige a curvatura e proporciona ereção, sendo uma opção definitiva para casos complexos.
Abordagem multidisciplinar e impacto psicológico
Devido ao impacto na autoestima e na qualidade de vida, a abordagem multidisciplinar é essencial no manejo da Doença de Peyronie. Assim, o suporte psicoterapêutico ajuda a lidar com a ansiedade, depressão e problemas de autoestima, frequentemente relatados pelos pacientes. Bem como, a fisioterapia pode contribuir para a recuperação do tecido e a adesão aos dispositivos de tração.
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Referências bibliográficas
- William O Brant, et al. Doença de Peyronie: Diagnóstico e tratamento médico. UpToDate, 2024.
- William O Brant, et al. Tratamento cirúrgico da doença de Peyronie. UpToDate, 2024.
- Gholami SS, et al. Peyronie’s disease: a review. J Urol. 2003;169(4):1234.
