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Doença de kienböck: como reconhecer e tratar a necrose do semilunar

Profissional de saúde avaliando articulação do membro superior durante exame físico, etapa importante na investigação clínica da Doença de Kienböck.

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A doença de Kienböck corresponde à osteonecrose avascular do osso semilunar e representa uma condição desafiadora na prática ortopédica e da cirurgia da mão. Embora relativamente incomum, essa patologia provoca impacto funcional significativo quando não reconhecida precocemente. Além disso, a evolução progressiva pode culminar em colapso carpal, artrose secundária e limitação importante das atividades diárias.

Historicamente descrita no início do século XX, a doença de Kienböck permanece, até hoje, como um tema de interesse clínico e científico, sobretudo devido à sua fisiopatologia multifatorial e às diferentes opções terapêuticas disponíveis. Portanto, o conhecimento aprofundado dos mecanismos envolvidos, dos sinais clínicos iniciais e das estratégias de tratamento torna-se essencial para médicos que atuam no manejo de afecções do punho.

Anatomia funcional e importância do semilunar

O osso semilunar ocupa posição central na fileira proximal do carpo e desempenha papel fundamental na biomecânica do punho. Ele participa diretamente da transmissão de carga entre o rádio distal e os ossos da fileira distal, além de contribuir para a estabilidade e mobilidade articular.

Do ponto de vista vascular, o semilunar apresenta irrigação relativamente limitada e variável. Em muitos indivíduos, apenas um ou dois ramos arteriais penetram o osso, o que reduz as possibilidades de circulação colateral. Dessa forma, qualquer alteração hemodinâmica, compressiva ou traumática pode comprometer a perfusão óssea. Consequentemente, o semilunar torna-se particularmente vulnerável à necrose avascular.

Além disso, a relação anatômica entre o semilunar, o rádio distal e a ulna influencia diretamente a distribuição das forças mecânicas. Assim, variações como a ulna negativa aumentam a sobrecarga sobre o semilunar, favorecendo o desenvolvimento da doença.

Epidemiologia e fatores de risco

A doença de Kienböck afeta principalmente adultos jovens, com maior prevalência entre homens na terceira e quarta décadas de vida. No entanto, a condição pode ocorrer em ambos os sexos e em diferentes faixas etárias, embora com menor frequência.

Diversos fatores de risco contribuem para o surgimento da osteonecrose do semilunar. Entre eles, destacam-se:

  • Ulna negativa, que aumenta a carga axial transmitida ao semilunar
  • Variações anatômicas do osso, como formato e orientação articular
  • Atividades ocupacionais com esforço repetitivo do punho
  • Trauma prévio, mesmo de baixa energia
  • Alterações vasculares congênitas ou adquiridas
  • Condições sistêmicas associadas a distúrbios de coagulação ou microcirculação

Portanto, a doença resulta da interação entre fatores mecânicos e vasculares. Assim, nenhum fator isolado explica completamente sua etiologia, o que reforça seu caráter multifatorial.

Fisiopatologia

A fisiopatologia da doença de Kienböck envolve a interrupção do suprimento sanguíneo do semilunar, levando à isquemia óssea. Inicialmente, ocorre edema medular e sofrimento celular. Em seguida, a falta de oxigenação provoca necrose dos osteócitos, comprometendo a resistência estrutural do osso.

Com a progressão da doença, o semilunar perde sua capacidade de suportar carga, o que leva a microfraturas, colapso progressivo e deformidade. Como consequência, ocorre alteração da cinemática carpal, com sobrecarga dos ossos adjacentes e degeneração articular secundária.

Além disso, a falha estrutural do semilunar pode desencadear instabilidade carpal, principalmente do tipo colapso dorsal intercalado segmentar. Dessa forma, o processo patológico não permanece restrito ao osso acometido, mas compromete todo o complexo do punho.

Manifestações clínicas doença de kienböck

Clinicamente, a doença de Kienböck apresenta início insidioso. Na maioria dos casos, o paciente relata dor progressiva no dorso do punho, frequentemente associada a atividades que exigem carga ou movimentos repetitivos. Além disso, o desconforto pode surgir mesmo na ausência de trauma significativo.

Outros sinais e sintomas incluem:

  • Dor localizada na região central ou dorsal do punho
  • Redução progressiva da força de preensão
  • Diminuição da amplitude de movimento, principalmente em extensão
  • Sensibilidade à palpação sobre o semilunar
  • Rigidez articular, especialmente em estágios avançados

Embora o exame físico inicial possa ser pouco específico, a persistência dos sintomas deve sempre levantar a suspeita diagnóstica, sobretudo em pacientes jovens e ativos.

Diagnóstico

O diagnóstico da doença de Kienböck exige correlação clínica e radiológica. Inicialmente, a radiografia simples do punho pode não demonstrar alterações evidentes. No entanto, à medida que a doença evolui, surgem sinais como esclerose do semilunar, fragmentação e colapso ósseo.

Fonte: S Bhimji MD.

A ressonância magnética desempenha papel central no diagnóstico precoce. Esse exame permite identificar edema medular, áreas de necrose e comprometimento vascular antes do colapso estrutural. Portanto, a ressonância constitui o método de escolha para avaliação inicial em casos suspeitos com radiografias normais.

A tomografia computadorizada, por sua vez, auxilia na avaliação do grau de colapso, fragmentação e alinhamento carpal, sendo especialmente útil no planejamento cirúrgico.

Classificação da doença de kienböck

A classificação de Lichtman é amplamente utilizada para estadiar a doença de Kienböck e orientar a conduta terapêutica. Ela divide a doença em quatro estágios principais:

  • Estágio I: alterações apenas na ressonância magnética, com radiografias normais
  • Estágio II: esclerose do semilunar sem colapso
  • Estágio IIIA: colapso do semilunar sem instabilidade carpal
  • Estágio IIIB: colapso associado à instabilidade carpal
  • Estágio IV: artrose radiocárpica e intercarpal

Assim, o estadiamento correto permite selecionar a estratégia terapêutica mais adequada para cada paciente.

Tratamento conservador

O tratamento conservador possui papel limitado e, geralmente, restringe-se aos estágios iniciais da doença. As opções incluem:

  • Imobilização do punho
  • Analgesia e anti-inflamatórios
  • Modificação de atividades
  • Fisioterapia após controle da dor.

No entanto, embora essas medidas aliviem os sintomas, elas não interrompem, de forma consistente, a progressão da necrose. Portanto, o tratamento conservador serve principalmente como abordagem temporária ou em pacientes com baixa demanda funcional.

Tratamento cirúrgico

O tratamento cirúrgico representa a principal estratégia terapêutica na maioria dos casos, especialmente nos estágios intermediários e avançados. A escolha do procedimento depende do estágio da doença, da anatomia do punho e do perfil funcional do paciente.

Entre as opções cirúrgicas, destacam-se:

Procedimentos de revascularização

Indicados principalmente nos estágios iniciais, esses procedimentos visam restaurar o suprimento sanguíneo do semilunar por meio de enxertos ósseos vascularizados. Dessa forma, busca-se preservar o osso e retardar sua progressão.

Procedimentos de descarga mecânica

Incluem osteotomias do rádio ou da ulna, com o objetivo de redistribuir as forças sobre o punho. Essas técnicas reduzem a carga axial no semilunar e, consequentemente, diminuem a progressão da necrose.

Procedimentos de resgate

Nos estágios avançados, quando ocorre colapso significativo ou artrose, tornam-se necessárias cirurgias de salvamento, como carpectomia proximal, artrodese parcial ou artrodese total do punho. Embora essas abordagens limitem a mobilidade, elas oferecem alívio da dor e melhora funcional.

Prognóstico da doença de kienböck

O prognóstico da doença de Kienböck depende fortemente do diagnóstico precoce e da intervenção adequada. Quando identificada nos estágios iniciais, a doença apresenta melhores resultados funcionais e maior preservação articular. Por outro lado, o diagnóstico tardio frequentemente culmina em procedimentos de salvamento e limitação permanente do movimento do punho.

Referências bibliográficas

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