A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que 5,7 milhões de pessoas estejam infectadas pelo T. cruzi em todo o mundo, sendo que o Brasil apresentou uma das maiores frequências dessa doença nas últimas décadas — cerca de 1,1 milhão de indivíduos infectados.
A doença de Chagas é uma doença infecciosa sem cura causada por um protozoário parasita que recebeu o nome de Trypanosoma cruzi. Quem transmite o protozoário ao homem é um percevejo conhecido popularmente por barbeiro.
Este pequeno inseto costuma viver em ambientes escuros como depósitos, ninhos e frestas de casa de pau a pique, possui hábitos noturnos e geralmente transmitindo a doença através de suas fezes durante a noite.
História da doença
A história da doença de Chagas se inicia com uma tripla descoberta, no interior de Minas Gerais. Em abril de 1909, Carlos Chagas (1878-1934), pesquisador do Instituto Oswaldo Cruz (IOC), comunicou ao mundo científico a descoberta de uma nova doença humana. Seu agente causal (o protozoário que denominou de Trypanosoma cruzi, em homenagem ao mestre Oswaldo Cruz) e o inseto que o transmitia (triatomíneo conhecido como “barbeiro”) também haviam sido por ele identificados, ao final de 1908. O “feito” de Chagas, considerado único na história da medicina, constitui um marco decisivo na história da ciência e da saúde brasileiras.
Biologia do parasito
O protozoário causador da doença é unicelular e apresenta um único flagelo, uma mitocôndria grande e um cinetoplasto que é um compartimento presente na mitocôndria que contém o DNA. Durante seu ciclo de vida, o T. cruzi possui três formas distintas: amastigota que apresenta forma arredondada, onde o núcleo e o cinetoplasto não são observados com microscópios ópticos e não apresenta flagelos; epimastigota: apresenta tamanho variável com formato alongado e núcleo semi central, e é a forma encontrada no tubo digestivo do barbeiro; tripomastigota que apresenta formato alongado e fusiforme em forma de “c” ou “s”, sendo a forma infectante para os vertebrados.

Transmissão

Ele é transmitido aos seres humanos principalmente através do vetor que é conhecido como barbeiro (no Brasil, as espécies mais importantes são: Triatoma infestans e Triatoma brasiliensis), um inseto que possui hábitos noturnos, encontrados durante o dia, nas fendas das paredes de casas não rebocadas, casa de pau-a-pique e telhados de palha. Este inseto “morde” o vertebrado, e próximo ao local da mordida defeca e urina, onde, podem estar presentes as formas tripomastigotas, que é a forma infectante, e a infecção ocorre pela penetração do protozoário na pele do hospedeiro ou por mucosas, quando este coça o local que apresenta as fezes do vetor.
Os parasitas tripomastigotas penetram na pele e infectam as células do hospedeiro, onde transformam-se para a forma amastigota. Quando as células estão repletas de parasitos, eles novamente mudam para a forma tripomastigota. Por estarem com grande quantidade de parasitos, as células se rompem e os protozoários atingem a corrente sanguínea, indo para outros órgãos.
Nessa fase, se o hospedeiro for picado pelo barbeiro, os protozoários serão transmitidos ao inseto. No intestino do barbeiro, mudam sua forma para epimastigota, onde multiplicam-se e tornam-se novamente tripomastigotas, que infectam os vertebrados (seres humanos, macacos, gambás, tatus, roedores, preguiça, morcegos, além dos domésticos, cães, gatos, etc.). Além do vetor, o parasita pode ser transmitido também por transfusão sanguínea, transplante de órgãos, ingestão de alimentos e água contaminados com as fezes do barbeiro e de forma congênita, ou seja, da mãe para o feto.
Quando o parasita atinge a corrente sanguínea, pode levar ao desenvolvimento de uma doença conhecida como doença de Chagas, mal de Chagas e/ou chagasi. Quando adentra no organismo, ele se desenvolve principalmente em órgãos como o coração, esôfago, intestino, fígado e baço.
Sintomas
A doença possui ainda dois estágios: agudo e crônica. No estágio agudo, a pessoa contaminada pode não apresentar nenhum sintoma, porém pode aparecer: fadiga, dor de cabeça, diarreia, febre, nódulos e inchaço na pálpebra e aumento do fígado e do baço.
Já o estágio crônico é subdividido em crônico indeterminado, que pode durar décadas e resultar em cardiomegalia e hepatoesplenomegalia, e fase crônica sintomática onde pode aparecer problemas digestivos, dor para engolir, dores abdominais, arritmias cardíacas e insuficiência cardíaca, sendo que os últimos podem levar a morte súbita.
Diagnóstico e Tratamento
O diagnóstico é feito através de exames principalmente sorológico, hemocultura, Elisa, “western blot”, etc. Muitas pessoas, no entanto nem mesmo sabem que possuem a doença, porque, como são raros os sintomas, o parasita apenas se desenvolve, e por isso assim que diagnosticado deve-se iniciar imediatamente o tratamento. Não há cura para doença, mas os principais fármacos para conduta terapêutica são:
- Nifurtimox (Lampit): parcialmente efetivo na fase aguda e inativo na fase crônica, este medicamento só é encontrado nos EUA e Canadá;
- Benznidazol (Rochagan): parcialmente efetivo na fase aguda; inativo na fase crônica.
Profilaxia
Por mais que seja transmitido por um inseto, há formas para preveni-la: uso de inseticidas para combater o vetor, lavar bem os alimentos em água corrente, cuidados com a casa, utilização de telas em portas e janelas, utilização de repelentes e mosquiteiros ajudam a manter o barbeiro longe, além de identificação de gestantes chagásicas para a assistência neonatal e cuidados com as transfusões de sangue e cirurgias para o transplante de órgãos.
Chagas no Pará
O estado do Pará é uma das regiões mais afetadas pelo Trypanosoma cruzi, cerca de 80% dos casos no país são encontrados lá. Esse fato está relacionado, entre outros fatores, ao desmatamento e ocupações de áreas ambientalmente frágeis, o que reduz as fontes naturais de alimentação e abrigo dos triatomíneos, que passam a se alimentar de animais domésticos e, eventualmente, do próprio homem. Esta forma expressiva, geralmente está relacionada ao consumo de alimentos contaminados pelo patógeno, como caldo de cana, açaí e palmito de babaçu, entre outros.
Casos confirmados de doença de Chagas por sexo no período de 2007 a 2017
| Ano 1° sintoma (s) | Masculino | Feminino | Total por ano |
| 2007 | 51 | 63 | 114 |
| 2008 | 41 | 34 | 75 |
| 2009 | 96 | 102 | 198 |
| 2010 | 44 | 35 | 79 |
| 2011 | 61 | 59 | 120 |
| 2012 | 91 | 85 | 176 |
| 2013 | 78 | 52 | 130 |
| 2014 | 92 | 73 | 165 |
| 2015 | 135 | 106 | 241 |
| 2016 | 176 | 145 | 321 |
| 2017 | 153 | 130 | 283 |
| Total | 1.018 | 884 | 1.902 |
Conclusão
Conclui-se, então, que a doença de Chagas é demasiadamente importante e mais séria do que muitos imaginam, pois, além de ser uma doença silenciosa, não tem cura e leva à morte dos portadores. Há de se enfatizar que o estado do Pará é o campeão de casos no país, por ser um habitat do hospedeiro e por conta das más condições de moradias da população, porém salientamos que a falta de higiene, desmatamento e falta de recursos também corroboram para os altos índices no estado da região Norte do Brasil.
O texto é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto.
Observação: material produzido durante vigência do Programa de colunistas Sanar junto com estudantes de medicina e ligas acadêmicas de todo Brasil. A iniciativa foi descontinuada em junho de 2022, mas a Sanar decidiu preservar todo o histórico e trabalho realizado por reconhecer o esforço empenhado pelos participantes e o valor do conteúdo produzido. Eventualmente, esses materiais podem passar por atualização.
Novidade: temos colunas sendo produzidas por Experts da Sanar, médicos conceituados em suas áreas de atuação e coordenadores da Sanar Pós.
Referências Bibliográficas
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