A prática do mergulho autônomo oferece experiências únicas, mas também traz riscos importantes quando não se respeitam os limites fisiológicos do corpo humano.
Entre esses riscos, a doença da descompressão (DCS), também conhecida como decompression sickness, é uma das complicações mais estudadas na medicina do mergulho. Ela surge quando gases dissolvidos nos tecidos, principalmente o nitrogênio, formam bolhas durante uma ascensão rápida ou inadequada. Essas bolhas podem provocar desde dores articulares até complicações neurológicas graves, dependendo da quantidade, do tamanho e da localização.
Fisiopatologia da doença da descompressão
Para compreender a doença da descompressão, é necessário entender como o corpo humano responde às mudanças de pressão. Durante um mergulho, a pressão ambiente aumenta em aproximadamente uma atmosfera a cada 10 metros de profundidade. Esse aumento altera a forma como os gases interagem com o organismo.
De acordo com a Lei de Henry, a quantidade de gás que se dissolve em um líquido é proporcional à pressão parcial desse gás. Isso significa que, em profundidades maiores, mais nitrogênio se dissolve no plasma e nos tecidos do mergulhador. Enquanto a pressão permanece constante, o corpo mantém o equilíbrio sem maiores problemas. No entanto, quando o mergulhador inicia a subida, a pressão ambiente diminui. Se a ascensão acontece de forma lenta e controlada, o nitrogênio retorna gradualmente aos pulmões e é eliminado pela respiração. Mas se o processo é rápido demais, os tecidos ficam supersaturados e o gás dissolvido forma bolhas.
Essas bolhas podem se formar tanto na circulação sanguínea quanto dentro dos tecidos. No sangue, elas funcionam como êmbolos, obstruindo pequenos vasos e reduzindo a perfusão de órgãos vitais. Nos tecidos, elas alteram o espaço intersticial, causam inflamação e comprometem a função celular. Além disso, as bolhas estimulam respostas imunológicas e inflamatórias, com ativação de plaquetas, liberação de citocinas e aumento da permeabilidade capilar. O resultado pode ser edema, hipóxia e até lesão tecidual irreversível.
Outro aspecto relevante é a possibilidade de bolhas venosas atravessarem para a circulação arterial por meio de comunicações cardíacas, como o forame oval patente. Quando isso ocorre, bolhas atingem o cérebro, a medula espinhal e o coração, provocando manifestações graves, semelhantes a acidentes vasculares ou infartos.
Fatores de risco
Embora qualquer mergulhador possa desenvolver doença da descompressão, alguns fatores aumentam significativamente o risco. Em primeiro lugar, a profundidade e o tempo de mergulho exercem influência direta, já que ambos determinam a quantidade de nitrogênio dissolvido nos tecidos. Quanto maior a exposição, maior a chance de formação de bolhas.
A velocidade de ascensão é outro elemento crítico. Subidas rápidas reduzem o tempo disponível para eliminação adequada dos gases. É por isso que tabelas de mergulho e computadores de mergulho estabelecem limites rígidos de velocidade e sugerem paradas de descompressão obrigatórias em mergulhos mais profundos.
Além desses fatores, a repetição de mergulhos em um curto intervalo de tempo eleva a probabilidade de doença, pois o organismo ainda não eliminou completamente o nitrogênio residual. Condições fisiológicas individuais também têm papel importante. Mergulhadores com sobrepeso, má hidratação, fadiga, idade avançada ou doenças cardiovasculares apresentam maior vulnerabilidade.
O ambiente em que o mergulho ocorre não pode ser ignorado. Águas frias aumentam a absorção de gases, enquanto esforços físicos intensos durante ou após o mergulho favorecem a migração e a formação de bolhas. Por fim, voos ou exposições a altitudes elevadas logo após o mergulho agravam o risco, porque a pressão ambiente continua a diminuir, potencializando a formação de bolhas.
Manifestações clínicas da doença da descompressão
A doença da descompressão pode se manifestar de diferentes formas, que variam em intensidade e gravidade. As apresentações clássicas foram historicamente divididas em dois tipos:
- DCS Tipo I, considerada mais leve, envolve principalmente pele, músculos e articulações. Os sintomas mais comuns são dores articulares, fadiga intensa, coceira e erupções cutâneas. Essas manifestações, embora desconfortáveis, raramente representam risco imediato à vida
- DCS Tipo II, muito mais grave, afeta o sistema nervoso central, o coração e os pulmões. Nesse caso, os sintomas incluem dormência, formigamento, fraqueza muscular, alterações de equilíbrio, confusão mental, vertigem, dificuldade respiratória e, em situações extremas, perda de consciência.
O tempo de início dos sintomas é variável. Muitos mergulhadores apresentam queixas nas primeiras horas após a subida, mas alguns só percebem problemas após 12 a 24 horas. Isso ocorre especialmente quando há exposição subsequente à altitude, como viagens aéreas.
Tratamento da doença da descompressão
O tratamento da doença da descompressão deve ser iniciado o mais rápido possível, pois o atraso aumenta o risco de sequelas permanentes. A primeira medida é administrar oxigênio a 100% por máscara, já que isso ajuda a reduzir o tamanho das bolhas e melhora a oxigenação dos tecidos.
Entretanto, a terapia definitiva é a oxigenoterapia hiperbárica. Nesse tratamento, o paciente é colocado em uma câmara hiperbárica, onde respira oxigênio puro sob pressão superior à atmosférica. Essa estratégia reduz o volume das bolhas de acordo com a Lei de Boyle e promove a eliminação acelerada do nitrogênio. Além disso, o oxigênio hiperbárico aumenta o gradiente de difusão, facilita a reparação tecidual e diminui a resposta inflamatória.
As tabelas de tratamento hiperbárico, como a Tabela 6 da Marinha dos Estados Unidos, orientam o tempo e a pressão utilizados. Em casos graves, múltiplas sessões podem ser necessárias.
Além da oxigenoterapia, medidas complementares incluem hidratação adequada, suporte hemodinâmico e monitoramento neurológico. Medicamentos como anticoagulantes e corticoides já foram estudados, mas não representam tratamento de primeira linha.
Prevenção
A melhor forma de lidar com a doença da descompressão é evitar que ela aconteça. A prevenção depende de planejamento cuidadoso e do cumprimento rigoroso das recomendações de mergulho seguro.
O primeiro passo é respeitar as tabelas de mergulho ou os algoritmos dos computadores de mergulho. Eles calculam o tempo máximo de fundo e indicam quando realizar paradas de descompressão, reduzindo a supersaturação dos tecidos.
A velocidade de ascensão deve ser lenta e controlada, geralmente não superior a 9 a 10 metros por minuto. Além disso, é altamente recomendado realizar uma parada de segurança entre 3 e 5 metros por cerca de 3 a 5 minutos, mesmo quando não obrigatória, pois isso oferece uma margem extra de segurança.
Outro aspecto fundamental é manter o corpo em boas condições antes e depois do mergulho. Hidratação adequada, alimentação balanceada, descanso e evitar consumo excessivo de álcool reduzem o risco de complicações. Planejar intervalos suficientes entre mergulhos sucessivos também é essencial.
Após o mergulho, recomenda-se aguardar pelo menos 12 a 24 horas antes de voar ou subir a altitudes elevadas. Esse intervalo permite que o organismo elimine o nitrogênio residual com segurança.
Por fim, mergulhadores com histórico de problemas cardíacos, pulmonares ou neurológicos devem passar por avaliação médica especializada antes de iniciar a prática.
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Referências bibliográficas
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