Todos nós conhecemos os efeitos devastadores que as guerras mundiais trouxeram para humanidade. No entanto, não há como negar que durante esse período a medicina evoluiu exponencialmente. Torna-se surpreendente identificar potenciais benefícios para os homens na forma de subprodutos positivos derivados de uma situação de caos.
Histórico
Desde a antiguidade, Hipócrates – o pai da medicina moderna já apregoava que para aprender medicina era preciso ir para guerra. Embora não seja uma atividade isenta de riscos, ao longo dos séculos, continuou sendo dessa maneira que emergiram algumas descobertas científicas em diversas áreas do conhecimento e, em especial, na ciência médica.
Até o início do século 20, as guerras matavam sobretudo por complicações nos ferimentos. Nessa época, os procedimentos cirúrgicos eram limitados e suas dificuldades eram associadas a presença de diversas doenças (malária, tifo, cólera, varíola). Portanto, morria-se mais pelas doenças do que em decorrência de causas diretamente associadas aos ferimentos de batalha.
Com a chegada da 1ª Guerra Mundial esse cenário se modificou. O desenvolvimento de novas alternativas para o diagnóstico e tratamento, a chegada dos antibióticos e a realização de cirurgias mais complexas que passaram a ser conduzidas com maior segurança e conforto sob efeito de anestesia. Além da melhoria das condições sanitárias e da prevenção de muitas doenças graças às vacinas, os armamentos passaram a ser mais importantes nas mortes da guerra.
Choque hemorrágico
Por definição o choque hemorrágico é um tipo de choque hipovolêmico. Essa é uma condição clínica que resulta da eventual perda de mais de 20% do volume sanguíneo. Isso torna difícil o coração bombear quantidade suficiente de sangue para o corpo.
1ª Guerra Mundial
Foi na primeira guerra em que se conseguiu tratar de forma mais efetiva o choque hemorrágico. Nessa época, essa condição levava o soldado com um ferimento hemorrágico grave a evoluir inexoravelmente para a morte. Ao final da guerra, já era possível impedir que um soldado ferido morresse pelo sangramento, através da administração de soros por via endovenosa.
No entanto, a reversão transitória do choque hemorrágico com a correção apenas da pressão arterial não era garantia de sobrevivência. Em muitos casos era preciso transfundir sangue, para corrigir a deficiência no transporte de oxigênio para os tecidos corporais.
Guerra Civil Espanhola (1936-1939)
Nesse período a comunidade científica já apregoava que a transfusão era indispensável frente às grandes hemorragias. No entanto, a logística para realização delas em pleno campo de batalha era extremamente complexa. Foi durante a Guerra Civil da Espanha, que se deu o passo determinante para superar essa barreira, com a implantação de postos avançados de transfusão e estímulo à doação – inclusive entre os civis.
Guerra da Coreia
Uma vez instalado, o choque hemorrágico não corrigido prontamente provoca um grande prejuízo ao funcionamento de diversos órgãos e tecidos, dentre eles, os rins. Assim surgia a necessidade de tratar a insuficiência renal aguda, responsável por matar os soldados feridos que haviam, inicialmente, sobrevivido ao choque.
A Guerra da Coréia, no início da década de 50, permitiu a realização das primeiras hemodiálises num cenário de batalha, como forma de substituir temporariamente o mau funcionamento renal.
Guerra do Vietnã
Durante as décadas de 60 e 70, a principal colaboração médica militar o tratamento da insuficiência respiratória aguda pós-trauma que, na época, ficou conhecida como pulmão de choque, e atualmente é chamada por Síndrome do Desconforto Respiratório Agudo (SDRA).
Legados da Guerra
Uma das principais contribuições oferecidas pela medicina de guerra foi o desenvolvimento do sistema de triagem médica. Essa classificação vigora até os dias de hoje na emergência, conhecida como protocolos de avaliação de risco (em que os pacientes são classificados por cores).
Esse sistema teve início, de forma mais sistematizada, graças ao trabalho de Dominique-Jean Larrey, o famoso cirurgião-chefe dos exércitos de Napoleão Bonaparte. Ele foi o primeiro a se preocupar em oferecer a possibilidade concreta de resgatar os soldados feridos do campo de batalha. Até então, a maioria das vítimas era abandonada à própria sorte. Surgiam, assim, as primeiras ambulâncias
Em um contexto moderno, os conflitos da Guerra do Iraque (2003-2011) trouxeram avanços em relação à medicina de emergência. Essa circunstância advém do entendimento da “hora de ouro”, que dentro do trauma consiste no tempo hábil necessário para intervenção médica a fim de reduzir as chances de mortalidade em pacientes com grave comprometimento físico.
O gin, a medicina e a guerra
Sim, o gin – e o resto dos destilados, têm origens medicinais, embora hoje isso nos pareça estranho. O álcool fermentado é conhecido desde a Antiguidade e a maceração de ervas e vegetais para melhorar o seu sabor também, mas só foi na Idade Média que os árabes sistematizaram o estudo de destilação e aperfeiçoaram alambiques rudimentares.
Mas origem do gin vem da Holanda. No século XVII (1650), o médico e professor, Francisco de la Boie, conhecido como Sylvius, pesquisava um remédio diurético que amenizasse problemas renais. Para isso juntou o zimbro ao destilado de cereais e fez o que mais tarde seria conhecido como gin.
O tal “remédio” agradou mais que o esperado. Saboroso e barato logo se tornou um bom amigo dos soldados ingleses que lutavam pela Europa na guerra dos 30 anos para espantar o frio. Os combatentes voltaram para casa levando consigo a nova bebida, que perdura até os dias atuais.
Conclusão
Apesar do progresso na medicina, vale ressaltar que as guerras produzem um déficit, tanto pela perda de milhares de vidas humanas, como pelos danos catastróficos por elas causadas em toda a sociedade. Diante desse cenário, espera-se que a ciência continue sua evolução sem qualquer vínculo com conflitos, pautando-se na busca pela defesa dos direitos individuais universais.
O texto é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto.
Observação: material produzido durante vigência do Programa de colunistas Sanar junto com estudantes de medicina e ligas acadêmicas de todo Brasil. A iniciativa foi descontinuada em junho de 2022, mas a Sanar decidiu preservar todo o histórico e trabalho realizado por reconhecer o esforço empenhado pelos participantes e o valor do conteúdo produzido. Eventualmente, esses materiais podem passar por atualização.
Novidade: temos colunas sendo produzidas por Experts da Sanar, médicos conceituados em suas áreas de atuação e coordenadores da Sanar Pós.
Referências:
- BRITO, Northon O. R. REPERCUSSÕES E AVANÇOS NA MEDICINA DURANTE GUERRAS: UMA VISÃO MÉDICA E CIENTÍFICA. Edição Vol. 8, N. 6, 23 de Abril de 2021. Disponível em: https://repositorio.usp.br/directbitstream/018a39a1-5351-4046-87d5-31a028d0518e/3035325.pdf.
- Mar Calpena. O gim deveria estar nos livros de história. Disponível em: https://www.google.com.br/amp/s/brasil.elpais.com/brasil/2015/11/26/cultura/1448551815_234325.html%3foutputType=amp.
- ORLANDO, José Maria. História da Medicina – o outro lado das guerras. Disponível em: https://www.cremesp.org.br/?siteAcao=Revista&id=892.