A bexiga urinária é um órgão oco que compõe o aparelho urinário juntamente com os dois rins, os dois ureteres e a uretra. Constituída por três camadas, mucosa, submucosa e muscular, a bexiga tem a função de armazenar e eliminar a urina. Quando na idade adulta, sua capacidade varia entre 600 e 800 mL.
As fibras musculares lisas desse órgão encontram-se entremeadas por fibras colágenas e elásticas derivadas do músculo detrusor da bexiga, responsável pela manutenção da arquitetura fisiológica vesical e cujas propriedades viscoelásticas permitem o enchimento vesical sem aumento da pressão sobre o órgão.
Os divertículos vesicais ocorrem quando há evaginações saculares externas da camada mucosa e submucosa entre as fibras do músculo detrusor, o que é favorecido por áreas de fraqueza congênitas ou adquiridas. Apesar de raros, os divertículos da bexiga são frequentemente pequenos e assintomáticos, não exigindo tratamento. Contudo, alguns podem causar dor pélvica, hematúria, infecção do trato urinário, dificuldades no esvaziamento vesical e formação de cálculos urinários. A parede do divertículo pode ainda sofrer metaplasia, a qual pode evoluir para um carcinoma e afetar órgãos adjacentes.
Palavras-Chave: divertículo vesical; divertículos da bexiga; divertículo vesical tratamento.
Epidemiologia
Os divertículos vesicais são condições raras com distribuição entre as populações adulta e pediátrica. Entretanto, sem incidência bem elucidada em razão da ausência de sintomas na maioria dos casos. Sabe-se que a idade do paciente tende a influenciar as características histopatológicas dos divertículos, com maior risco de malignidade em pacientes mais velhos.
Classificação
Divertículos Congênitos
Mais prevalentes na população infantil do que na adulta e diagnosticados em crianças do sexo masculino abaixo dos 10 anos. São solitários e, na maioria dos casos, originam-se próximos à junção uretrovesical e do trígono vesical. Sua causa é desconhecida e o risco de malignização é menor em comparação aos adquiridos. Assintomáticos na maioria dos pacientes, os divertículos congênitos podem favorecer a estase urinária e, consequentemente, infecção do trato urinário. O conteúdo interno pode ser líquido, cálculo ou tumor.
Divertículos Adquiridos
Mais comuns em homens e maiores de 60 anos de idade. Possuem relação com lesões obstrutivas do trato urinário baixo, pois nessa faixa etária há aumento de patologias como a Hiperplasia Prostática Benigna (HPB). Frequentemente múltiplos, originam-se do aumento da pressão intravesical que gera hipertrofia da musculatura vesical, como ocorre em certos casos na obstrução infravesical pela HPB. O quadro clínico apresenta-se com resistência ao débito urinário devido a obstáculos mecânicos funcionais, sensação de esvaziamento incompleto e aumento de urina residual.
Diagnóstico
O método diagnóstico mais utilizado nos casos de divertículos da bexiga é a cistografia retrógrada, exame de imagem preferencial à ultrassonografia, à cistoscopia e à tomografia computadorizada. Ainda que a maioria dos pacientes sejam assintomáticos, infecções repetidas do trato urinário, hematúria ou distúrbios do esvaziamento da bexiga podem sugerir a presença de um divertículo vesical.
Ao ultrassom, os divertículos geralmente aparecem como estruturas redondas ou anecóicas que surgem da base da bexiga ou próximas ao orifício uretérico. A estase do conteúdo do divertículo pode alterar sua ecogenicidade fazendo com que esse possa ser confundido com outras lesões.
Relato de Caso
Paciente com 37 anos de idade do sexo masculino, fumante de 20 maços de cigarro por ano, apresentou-se na emergência com febre e hematúria e irritação do trato urinário baixo.
A tomografia computadorizada de abdome e pelve revelou uma bexiga distendida com paredes espessadas e irregulares com a presença de um divertículo medindo 4 x 4 x 3 cm na parede posterior esquerda (Figura 1).

Fonte: ZAHR, Rawad Abou, et al, 2018.
Tratamento
Em razão da grande maioria dos divertículos vesicais serem pequenos e assintomáticos, o tratamento é necessário aos pacientes que desenvolvem complicações e problemas relacionados. Nesses casos, os pacientes são submetidos a biópsia e ressecção transuretral ou ressecção cirúrgica do divertículo para posterior avaliação e tratamento.
Os divertículos adquiridos possuem ponto de conexão com a bexiga estreito de modo a estar mais suscetível à irritação da mucosa, infecção e formação de cálculos em decorrência da estase do conteúdo em seu interior. Ademais, esses fatores são predisponentes para o surgimento de metaplasia da parede diverticular, o que pode originar neoplasias dentro do divertículo.
Divertículos grandes, se sintomáticos, devem ser retirados por diverticulectomia aberta ou laparoscópica. Outras indicações para cirurgia são infecção urinária persistente ou recorrente, presença de cálculo ou tumor no divertículo, fístula vesicocutânea, sintomas do trato urinário inferior e sintomas de micção ou refluxo vesico-ureteral resultante do divertículo ou obstrução ureteral.
As opções cirúrgicas incluem cistoscópico transuretral ou tratamento cirúrgico aberto por via extravesical ou intravesical ou transvesical ou combinada ou diverticulectomia sem câmara de ar por via laparoscópica ou transabdominal.
Conclusão
Os divertículos vesicais são condições raras com distribuição ainda pouco conhecida. Apesar de a maior parte não causar sintomas, em alguns casos podem haver complicações e condições clínicas associadas que geram sintomas e aumentam a morbidade dos pacientes acometidos. A classificação se baseia na origem e nas repercussões de cada tipo. Os exames de imagem auxiliam o médico no diagnóstico, e o tratamento, apesar de geralmente não ser prescindível, é realizado de forma cirúrgica.
O texto é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto.
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Referências
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