1.
Definição
O divertículo de Meckel, também conhecido como divertículo ileal, é
caracterizado como um divertículo verdadeiro, sendo uma anormalidade congênita,
descrita como a mais comum do sistema gastrointestinal. Um divertículo,
geralmente possui um formato parecido com um saco ou com uma bolsa que realiza
uma evaginação para fora de uma estrutura tubular. Por sua vez, um divertículo
verdadeiro é aquele que possui todas as camadas da estrutura a qual ele se
projeta.
Durante o desenvolvimento intraútero, ocorre o ligamento entre a parte
média do intestino e o saco vitelino, conhecido como ducto onfalomesentérico.
Se por volta da quinta ou sexta semana do desenvolvimento, esse ducto não
regredir é originado o divertículo de Meckel, possuindo todas as camadas do
intestino, a mucosa, submucosa e muscular. Ademais, em alguns casos, também
pode ser encontrado vestígios de tecidos ectópicos, no qual os principais são
tecidos gástricos e pancreáticos. Em sua constituição, o divertículo de Meckel é formado por um conduto
aberto na parte referente ao intestino e fechado acima do conduto aberto, continuando
até a cicatriz umbilical.
A localização desse divertículo é relativamente variável, sendo
encontrado na borda assimétrica do íleo, podendo variar de 40 a 180cm da
válvula ileocecal. Contudo, na grande maioria dos casos, a distância é por
volta de 90 a 100cm da válvula.
2.
Epidemiologia
As malformações que envolvem o sistema gastrointestinal respondem por
cerca de 6% do total de anormalidades congênitas. Como já foi relatado, o
divertículo de Meckel é a anormalidade congênita gastrointestinal mais comum,
podendo ser encontrada em 1% a 4% da população geral. A sua prevalência é maior
em pessoas do sexo masculino do que em mulheres.
É a causa mais comum de sangramentos no sistema gastrointestinal baixo
nas crianças e possui maior incidência em neonatos que possuem outras anomalias
congênitas, como a fenda palatina, pâncreas anular, atresia de esôfago e atresia
anorretal.
3.
Quadro clínico
A grande maioria dos pacientes com
divertículo de Meckel são assintomáticos, e apenas 3 a 4% manifestam algum tipo
de sintoma. Dos indivíduos que apresentam sintomatologia, a grande maioria
possui menos de 5 anos de idade.
Dentre as manifestações clínicas
mais comuns estão a hemorragia digestiva, obstrução intestinal, diverticulite,
apendicite aguda e perfuração. A manifestação mais prevalente é o sangramento
gastrointestinal, acontecendo em cerca de 50% dos casos em pacientes com menos
de 18 anos. Esse sangramento é ocasionado devido a presença de tecido ectópico,
principalmente a mucosa gástrica. Isso acontece porque a presença da mucosa
gástrica no divertículo é capaz de produzir e de liberar conteúdo ácido
gástrico, que ao entrar em contato com o tecido intestinal do íleo adjacente, causa
inicialmente, gastrite de caráter leve a moderado no tecido ectópico, que, se
não tratada, pode acabar evoluindo para ulceração do tecido intestinal,
causando o sangramento.
Por sua vez, no público jovem e
adulto, é comumente encontrado casos de obstrução intestinal, que pode possuir
diversas causas. As principais são: a formação de uma hérnia interna pelo
intestino delgado com o mesentério, por causa da permanência do conduto
fibrótico remanescente do conduto onfalomesentérico e a presença de volvos ou
estenoses decorrentes de processos de diverticulite crônica.
Em todas essas sintomatologias é
possível encontrar no paciente graus variados de distensão abdominal, não
eliminação de fezes e gases, vômitos contendo bile, dor abdominal que
normalmente é apresentada em cólica e de maneira progressiva, manifestando
grande sensibilidade na região umbilical.
4. Diagnóstico
O diagnóstico do
divertículo de Meckel é bastante difícil de ser realizado, tendo em vista que
essa anomalia congênita na grande maioria dos casos é manifestada de maneira
assintomática. Quando ocorre a manifestação de algum sintoma, normalmente é
variado e inespecífico. Assim, geralmente, esse problema é diagnosticado de
maneira incidental, por meio de exames ou processos cirúrgicos que são
realizados para investigar outras patologias. Contudo, existem alguns exames
que ajudam a chegar ao diagnóstico desta doença.
A radiografia de abdome é um exame
bastante realizado na prática médica atualmente, no entanto, possui pouca
especificidade. Mas, em casos de inflamação, pode auxiliar a observar sinais de
peritonite.
A ultrassonografia é classificada
como um bom método para descobrir possíveis complicações causadas pelo
divertículo de Meckel, principalmente quando acontece processos inflamatórios e
intussuscepção intestinal. Geralmente é indicada quando o paciente apresenta
sangramento retal e sintomatologia sugestiva de abdome inflamatório.
Atualmente, um dos melhores métodos
de diagnóstico do divertículo de Meckel é a cintilografia por tecnésio 99. Esse
exame é baseado na boa propriedade que o tecnésio 99 possui de realizar a
marcação da mucosa gástrica, sendo captado e secretado pelas células dessa
mucosa. A mucosa gástrica é um tecido ectópico que frequentemente é encontrado
nessa anormalidade congênita, principalmente em pacientes pediátricos.
A arteriografia também pode ser
utilizada, auxiliando a diagnosticar os principais pontos que ocorre
sangramento ou alguma anormalidade arterial, como a nutrição do divertículo por
algum vaso. Contudo, uma vez que é caracterizado como um procedimento invasivo,
só deve ser utilizada em casos selecionados.
A videolaparoscopia é um método
muito útil de grande eficácia, servindo para inspeção da cavidade abdominal,
podendo realizar também a solução do caso, realizando a diverticulectomia. No
entanto, a realização da videolaparoscopia só é indicada quando o paciente não
apresenta distensão intestinal.
5.
Tratamento
O tratamento para o
divertículo de Meckel é cirúrgico, podendo ser realizado cirurgia aberta ou
laparoscópica, dependendo das complicações, manifestações clínicas e
experiência do médico cirurgião, sendo realizada a diverticulectomia ou
ressecção ileal.
A diverticulectomia é realizada
quando não ocorre acometimento das alças intestinais. Esse procedimento é
indicado principalmente em casos que apresentam obstrução intestinal, onde o
divertículo pode causar complicações, como hérnias, volvos e intussuscepção,
diminuindo assim, as chances de recidiva.
Por sua vez, a ressecção ileal é
indicada em casos que são apresentados sangramento no divertículo,
diverticulite e tumores. A ressecção ileal deve ser realizada nesses casos
devido as grandes chances de acometimento das alças intestinais adjacentes à
mucosa gástrica ectópica.
Autor:
Allison Diego
Instagram: @allison_diego
O texto é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto.
Observação: material produzido durante vigência do Programa de colunistas Sanar junto com estudantes de medicina e ligas acadêmicas de todo Brasil. A iniciativa foi descontinuada em junho de 2022, mas a Sanar decidiu preservar todo o histórico e trabalho realizado por reconhecer o esforço empenhado pelos participantes e o valor do conteúdo produzido. Eventualmente, esses materiais podem passar por atualização.
Novidade: temos colunas sendo produzidas por Experts da Sanar, médicos conceituados em suas áreas de atuação e coordenadores da Sanar Pós.