Distúrbios da puberdade: aprenda como diagnosticar essas doenças na sua prática clínica!
A puberdade é caracterizada com o período de transição entre a infância e a vida adulta. Nessa fase, há o aparecimento de características sexuais secundárias, aceleração do crescimento linear e maturação gonadal (ovários no sexo feminino e testículos no sexo masculino).
Nas meninas, o primeiro sinal de puberdade é a telarca. Já nos meninos, é possível notar o aumento do volume dos testículos. Todas essas mudanças observadas são resultado da aquisição da função reprodutiva e das modificações psicológicas em ambos os sexos.
Como é o desenvolvimento da puberdade normal?
Para que o médico possa analisar os distúrbios puberais, é importante conhecer a cronologia normal dos eventos puberais. Para isso, considera-se que a puberdade é caracterizada pelos seguintes eventos:
Crescimento esquelético linear
Nessa fase, há uma fase de crescimento rápido, com aceleração e posterior desaceleração, até o término do processo de crescimento. Esse estirão puberal pode chegar a valores de 10-12 cm/ano no sexo masculino e, no sexo feminino, de 8-10 cm/ano.
Durante esse período, o estirão puberal não ocorre de maneira uniforme. No geral, ele é realizado na seguinte ordem:
- Pés e mãos
- Pernas e membros superiores
Com isso, o adolescente fica com o corpo com um aspecto desproporcional, que só volta a ter uma característica após o crescimento do tronco, que é o responsável pela estatura final do indivíduo.
Alteração da forma e composição corporal
Logo no início da puberdade ocorre um depósito de gordura nas meninas, principalmente na região das mamas e dos quadris, caracterizando o aspecto do corpo feminino. Já nos homens, há um crescimento do diâmetro biacromial (entre ombros), conferindo relação biacromial/bi-ilíaco elevada, característica associada ao desenvolvimento muscular na região da cintura escapular, o que define a forma masculina.
Nas meninas, a idade da menarca representa o início da desaceleração do crescimento que ocorre no final do estirão puberal. Para os meninos, o pico de crescimento coincide com a fase adiantada do desenvolvimento dos genitais e pilosidade pubiana, momento em que também ocorre o desenvolvimento de massa magra e muscular.
Desenvolvimento dos órgãos e sistemas
Todos os órgãos e sistemas se desenvolvem durante a puberdade, sobretudo os sistemas cardiocirculatório e respiratório. As únicas exceções para esse crescimento é do:
- Tecido linfóide: que apresenta involução progressiva a partir da adolescência
- Tecido nervoso: que já tem praticamente todo o seu crescimento já estabelecido
O aumento da capacidade física observado na puberdade é mais marcante no sexo masculino, sendo resultado do desenvolvimento do sistema cardiorrespiratório, das alterações hematológicas (aumento da eritropoiese), do aumento da massa muscular e da resistência física.
Distúrbios da puberdade: retardo
O retardo puberal é definido como a ausência dos sinais do início da puberdade em idade cronológica superior a 2 ou 2,5 desvios padrões da média populacional (tradicionalmente, 14 anos em meninos e 13 anos em meninas), que são:
- Aumento testicular em meninos
- Desenvolvimento mamário em meninas
Para a gênese de processo estão envolvidos fatores genéticos e ambientais, incluindo fatores nutricionais e disruptores endócrinos. Contudo, a causa mais comum, sobretudo no sexo masculino, é o retardo constitucional de crescimento e puberdade (RCCP).
Quais as principais causas de atraso na puberdade?
Dentre as principais causas de atraso na puberdade, é possível citar alguns, são eles:
Hipogonadismo primário
O hipogonadismo primário é caracterizado por baixos níveis de esteróides gonadais com altas concentrações séricas de LH e FSH. Esses fatores indicam uma falência gonadal primária e uma ausência de retroalimentação negativa exercida pelos esteróides sexuais.
Esses fatores podem ser causados por uma série de doenças gonadais, incluindo:
- Síndrome de Turner ou síndrome de Klinefelter
- Lesão gonadal por quimioterapia
- Radioterapia
- Lesão auto-imune ou pós-infecciosa
- Criptorquidia ou distúrbios da biossíntese de testosterona
Dentre essas causas, a síndrome de Turner é a causa mais frequente de hipogonadismo no sexo feminino. Essa doença poderá causar algumas alterações como baixa estatura, pescoço curto e alado, implantação baixa da linha do cabelo, palato em ogiva, pterígio, cúbito valgo, hipertelorismo mamário, linfedema (ao nascimento), anormalidades renais e cardíacas.
Hipogonadismo secundário
Esse grupo de doenças está relacionado a um comprometimento hipotalâmico ou hipofisário, que resulta na deficiência das gonadotrofinas circulantes.
Pode ser causado por:
- Defeitos genéticos: que alteram o desenvolvimento hipotalâmico
- Adquirido: após lesão craniana inflamatória, tumoral ou traumática.
O hipogonadismo secundário é caracterizado pela secreção deficiente do hormônio liberador de gonadotrofinas (GnRH), que leva à diminuição da secreção de LH e FSH da hipófise anterior. Como consequência, há uma secreção inadequada de esteroides gonadais. Essa categoria às vezes é chamada de hipogonadismo “central”.
Puberdade precoce
É caracterizada como precoce a puberdade que surge antes dos 8 anos em meninas e dos 9 anos em meninos. É causada pelo aumento antecipado dos hormônios sexuais no sangue, seja por exposição à algum hormônio (medicamentos) ou porque suas glândulas (pituitária, ovários nas meninas e testículos nos meninos), passaram a produzir, por algum motivo, esses hormônios sexuais de forma precoce.
Quando nenhuma causa é identificada, diz-se que a puberdade precoce é idiopática. As principais consequências da puberdade precoce são:
- Transtornos psicológicos e de comportamento
- Maior risco de abuso sexual
- Baixa estatura quando adulto
- Maior risco de obesidade, HAS, DM2
Como diagnosticar distúrbios da puberdade?
Na fase da puberdade, todas as meninas devem ser cuidadosamente avaliadas quanto aos aspectos associados à síndrome de Turner. Caso não haja nenhuma evidência de doença subjacente, a triagem laboratorial geral é apropriada, mas não essencial.
Pacientes com puberdade ausente, paralisada ou muito atrasada devem ser submetidos a uma determinação da idade óssea e a testes laboratoriais adicionais.
Nesse contexto, crianças com puberdade tardia devem ser avaliadas quanto à possibilidade de:
- Distúrbios nutricionais
- Doença celíaca
- Doenças crônicas ocultas que podem afetar a secreção hipotalâmica de GnRH
Para isso, alguns testes podem ser realizados, são eles:
- Hemograma
- VHS
- Ureia
- Creatinina
- Enzimas hepáticas (ALT, AST)
- Marcadores sorológicos de doença celíaca.
Referência bibliográfica
- Lourenço, B. Queiroz, LB. Crescimento e desenvolvimento puberal na adolescência. Rev Med (São Paulo). 2010 abr.-jun.;89(2):70-5.
- BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Portaria Conjunta no 3, de 8 de junho de 2017. Aprova o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Puberdade Precoce Central. Diário Oficial da União, Brasília, DF.


