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Distonia cervical: o que é, sintomas e abordagens terapêuticas

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A distonia cervical, também chamada de torcicolo espasmódico ou simplesmente torcicolo, é uma das formas mais frequentes de distonia focal em adultos.

Esse distúrbio de movimento hipercinético caracteriza-se por diferentes níveis de alteração postural do pescoço, além de tremores e/ou dor na região cervical. Apesar de sua natureza geralmente benigna, a condição pode resultar em considerável incapacidade se não for tratada adequadamente. Além disso, é comum que a distonia cervical seja subdiagnosticada ou erroneamente identificada.

Epidemiologia e fatores de risco da distonia cervical

A distonia cervical é uma das formas mais comuns de distonia focal e a distonia de início na idade adulta mais frequentemente observada em algumas regiões do mundo. Estima-se que a sua prevalência seja entre 5 e 30 casos para cada 100.000 indivíduos.

Além disso, a distonia cervical ocorre cerca de duas vezes mais em mulheres do que em homens, embora as razões para essa diferença de gênero ainda não sejam totalmente compreendidas.

Ademais, a relação entre trauma de tecido mole e o desenvolvimento da distonia cervical idiopática permanece incerta.

Sinais e sintomas da distonia cervical

A distonia cervical geralmente surge na meia-idade, sendo mais comum entre 40 e 60 anos. Casos antes dos 40 anos são raros e podem indicar uma origem genética ou adquirida.

Seu início é gradual e pode envolver outras áreas além do pescoço, com cerca de 8% dos pacientes apresentando disseminação para outras partes do corpo, geralmente mãos.

A principal característica da distonia cervical é a postura anormal do pescoço, que desaparece durante o sono.

A classificação Col-Cap define diferentes padrões, como torcicolo (rotação), laterocollis (inclinação lateral), retrocollis (extensão para trás) e anterocollis (flexão para frente). Movimentos combinados são comuns, e uma avaliação precisa ajuda na escolha do tratamento com toxina botulínica.

Classificação Col-Cap. Fonte: UpToDate, 2025.

Cerca de 70% dos pacientes apresentam tremor, sendo mais frequente na cabeça e, ocasionalmente, nas mãos. Além disso, esse tremor pode ter um padrão espasmódico ou sinusoidal, dificultando a distinção de outras condições.

A dor no pescoço, por sua vez, é um sintoma muito comum, presente em 75% dos casos, e pode irradiar para os ombros e braços. Ademais, a dor na distonia cervical pode ter uma origem multifatorial, envolvendo tanto fatores periféricos, relacionados ao sistema músculo-esquelético, quanto aspectos centrais.

Outra característica da distonia cervical é o truque sensorial, uma manobra voluntária que reduz temporariamente os sintomas, como tocar o rosto ou aplicar contrapressão.

Por fim, embora a maioria dos casos seja isolada e esporádica, algumas síndromes associam-se à distonia cervical, como:

  • Síndrome de Meige;
  • Distonia Dopa-responsiva;
  • Distonia-parkinsonismo ligado ao X;
  • Mioclonia-distonia.

Diagnóstico da distonia cervical

A distonia cervical é um diagnóstico clínico a ser considerado em pacientes adultos que desenvolvem gradualmente uma postura anormal do pescoço, frequentemente acompanhada de dor e tremor cervical.

O exame neurológico é essencial para confirmar a condição, avaliando a postura anômala e características típicas da distonia, como truques sensoriais e tremores direcionais.

Histórico Clínico

A coleta do histórico do paciente é fundamental para excluir diagnósticos alternativos, identificar causas adquiridas e diferenciar a distonia cervical isolada, geralmente idiopática, de síndromes combinadas. Portanto, aspectos importantes da história incluem:

  • Idade de início – A distonia cervical geralmente ocorre entre 30 e 50 anos. Dessa forma, casos de início precoce sugerem etiologia genética.
  • Duração dos sintomas – O início insidioso é comum e o início agudo sugere outra etiologia. Fotos antigas e relatos familiares podem indicar uma evolução mais longa do que o paciente inicialmente percebeu.
  • Histórico familiar – A maioria dos casos de distonia é esporádica, mas casos familiares ocorrem, principalmente quando associados a síndromes distônicas combinadas.
  • Presença de outros movimentos anormais – A distonia cervical costuma ser isolada. Portanto, se houver bradicinesia, pode indicar uma síndrome parkinsoniana e, se houver mioclonia, pode sugerir mioclonia-distonia.
  • Truques sensoriais – Muitos pacientes apresentam alívio temporário da postura anormal ao tocar certas áreas do rosto ou do pescoço.
  • Exposição a medicamentos – O uso de bloqueadores dopaminérgicos, como antipsicóticos e metoclopramida, pode indicar distonia tardia.

Exame Neurológico

Avalia-se pacientes com suspeita de distonia cervical quanto a distúrbios de movimento:

  • Posicionamento – O paciente deve estar sentado com pés apoiados, roupas ajustadas para exposição dos membros e braços em repouso.
  • Observação em repouso – O paciente deve fechar os olhos para avaliar a posição espontânea do pescoço e possíveis tremores.
  • Amplitude de movimento e tremor cervical – O paciente deve ser instruído a mover o pescoço em várias direções para identificar restrições de movimento e verificar o fenômeno da direcionalidade do tremor.
  • Movimentos ativos: Solicita-se ao paciente que realize movimentos rápidos dos membros e atividades motoras finas para observar se há piora da distonia (fenômeno de transbordamento).
  • Identificação de truques sensoriais – O paciente deve demonstrar se algum toque ou movimento reduz os sintomas.
  • Busca por outros sinais neurológicos – O exame deve identificar movimentos distônicos em outras partes do corpo e sinais de distúrbios associados, como parkinsonismo ou mioclonia.

Indicações para testes adicionais

Não há necessidade de exames de imagem cerebral ou da coluna para o diagnóstico de distonia cervical. Todavia, alguns exames são úteis apenas para excluir causas secundárias.

  • Neuroimagem – Considera-se a realização de ressonância magnética do cérebro e da coluna cervical em pacientes com achados neurológicos atípicos, dor intensa, cefaleia, náusea ou vertigem.
  • Exames laboratoriais – Recomenda-se a realização de testes para doença de Wilson em pacientes com menos de 50 anos, incluindo dosagem de ceruloplasmina e exame de lâmpada de fenda.
  • Teste genético – Pode ser útil em casos de distonia familiar, início precoce ou quando a distonia faz parte de uma síndrome de distúrbio do movimento.

Abordagens terapêuticas da distonia cervical

O tratamento da distonia cervical tem como objetivo melhorar o alinhamento do pescoço, reduzir a dor e minimizar complicações secundárias.

Critérios para tratamento

O tratamento é opcional e voltado para o alívio dos sintomas. Portanto, pacientes com manifestações leves podem optar por não tratar, a menos que o desalinhamento da cabeça cause desconforto estético. No entanto, aqueles com dor intensa ou movimentos exagerados que impactam suas atividades diárias geralmente necessitam de intervenção.

Tratamento de primeira linha

Para a maioria dos pacientes que necessitam de tratamento, recomenda-se a aplicação de toxina botulínica (BoNT) como primeira linha de manejo.

Os medicamentos orais apresentam eficácia limitada em doses toleráveis, enquanto a BoNT se mostra mais eficaz e melhor tolerada.

A administração da toxina botulínica deve ser feita por especialistas, considerando a postura do pescoço, anatomia muscular e objetivos terapêuticos (correção postural, alívio da dor, controle do tremor). Os benefícios costumam surgir em uma semana, atingem o pico em um mês e duram cerca de três meses, exceto no caso da daxibotulinumtoxinA, que pode ter um efeito mais prolongado. Para manutenção dos resultados, as injeções devem ser repetidas periodicamente, geralmente a cada três meses.

Ademais, como efeitos colaterais, a dor no local da injeção é comum, mas transitória. Pode ocorrer fraqueza excessiva nos músculos tratados, levando a queda da cabeça ou disfagia. Portanto, para reduzir esses riscos, evita-se doses excessivas nos músculos esternocleidomastoideos e extensores do pescoço.

Tratamento de segunda linha

Quando necessário, utiliza-se medicamentos orais como clonazepam, triexifenidil e baclofeno, sendo o clonazepam geralmente a primeira escolha. No entanto, esses fármacos podem causar sedação e confusão, com efeitos colaterais dose-dependentes.

Casos refratários

Para pacientes com distonia cervical grave e refratária ao tratamento convencional, a estimulação cerebral profunda (DBS) pode ser uma opção. O globo pálido interno (GPi) é o alvo cirúrgico mais utilizado, mas os núcleos subtalâmicos bilaterais (STN) também podem ser eficazes.

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A distonia cervical é um dos transtornos do movimento mais desafiadores da Neurologia. Identificar precocemente os sinais clínicos e escolher o tratamento ideal — que pode envolver toxina botulínica, reabilitação e até opções cirúrgicas — faz toda a diferença para a qualidade de vida do paciente.

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Sugestão de leitura recomendada

Referências

  • DEIK, A. Cervical dystonia: Etiology, clinical features, and diagnosis. UpToDate, 2025.
  • DEIK, A. Cervical dystonia: Treatment and prognosis. UpToDate, 2025.

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