A dissecção aguda de aorta é uma doença com alta mortalidade em que ocorrem lesão e separação das camadas média e íntima do vaso, acarretando em surgimento de um falso lúmen por onde o fluxo sanguíneo passa, propagando ainda mais a injúria.
No trajeto da dissecção, ramos arteriais importantes podem ser acometidos, como coronárias, carótidas e renais e, dessa forma, é considerada uma emergência cardiovascular.
Sintomatologia
O principal sintoma dessa patologia é a dor torácica lancinante, de início súbito e de forte intensidade, muitas vezes descrita como “rasgante ou cortante”. Dependendo do local acometido pela dissecção, o paciente pode apresentar irradiação da dor para dorso (região interescapular) e abdômen, além de náuseas, sudorese profusa, dispneia e quadro hipertensivo associados.
Fatores predisponentes
Alguns fatores podem lesionar a parede da artéria, predispondo à dissecção aguda de aorta, entre eles:
- aterosclerose
- hipertensão
- tabagismo
- arteriopatias inflamatórias
- cirurgia cardíaca prévia
- trauma torácico.
Ademais, defeitos estruturais também ajudam no surgimento dessa patologia, dos quais: valva aórtica bicúspide, síndrome de Marfan, síndrome de Ehlers-Danlos, coarctação e aneurisma da aorta.
Classificação de DeBakey
Michael Ellis DeBakey, nascido em 7 de setembro de 1908, foi um cirurgião cardiovascular estadunidense que introduziu a cirurgia para tratamento da dissecção da aorta na década de 1950.
Em 1982, o norte-americano propôs uma divisão em três categorias (tipos DeBakey I, II III), que classifica essa patologia de acordo com o local envolvido pela dissecção. Os tipos são (Figura 1):
- I (70% dos casos): origina-se na aorta ascendente e se estende por toda a aorta;
- II (5% dos casos): limitada à aorta ascendente;
- III (25% dos casos): origina-se distal à artéria subclávia esquerda envolvendo a aorta descendente. Pode, ainda, se subdividir em IIIa, quando limitada à aorta descendente, e em IIIb quando é toracoabdominal.

Diagnóstico
O diagnóstico precoce da dissecção aguda de aorta é de alta importância, pois, além de refletir em um tratamento imediato, a conduta médica depende da extensão e do seguimento acometido. A história clínica, o exame físico e os exames complementares, por fim, são essenciais para o diagnóstico e para a decisão terapêutica.
Exame físico
No exame físico e clínico dos portadores de dissecção aguda de aorta, podemos encontrar assimetria de pulso radial, diferença de pressão arterial de um membro para outro, sopro de insuficiência aórtica e sinais e sintomas de tamponamento cardíaco, choque, insuficiência cardíaca congestiva e acidente vascular encefálico. Os quatro últimos denotam complicação dessa doença.
Exames complementares
Diante dessa patologia, podemos utilizar diversos exames de imagem para o diagnóstico, solicitando-os a depender do acesso e da rapidez com que sejam realizados.
O raio X de tórax, em até 50% dos casos, mostra aumento mediastinal.
O ecocardiograma transesofágico e a angiotomografia de aorta são de rápida realização e apresentam elevada sensibilidade e especificidade para identificar e classificar a dissecção da aorta, sendo que o primeiro é mais acessível, permite avaliar a valva aórtica e a presença de derrame pericárdico.
A ressonância nuclear magnética também pode ser solicitada por ter alta acurácia, porém tem acesso limitado e não é um exame prático nos casos de instabilidade hemodinâmica.
Tratamento
O tratamento da dissecção aguda de aorta depende do tipo e extensão da lesão e pela presença de complicações associadas. O tratamento clínico tem como meta o controle da pressão arterial, da freqüência cardíaca e da dor, feitos com vasodilatadores, betabloqueador e opioides, respectivamente, pois, regulando esses sinais vitais, evita-se a progressão da dissecção, sendo mais comumente indicado para o DeBakey tipo III sem complicações.
Tratamento cirúrgico tem como objetivos deter a progressão proximal e distal da dissecção, retirar o local da lesão vascular e ressecar a aorta no local da ruptura. Essa conduta é direcionada para casos classificados como DeBakey I e II e para o tipo III nos casos de complicações.
Conclusão
Diante disso, observa-se que a dissecção aguda de aorta é uma emergência cardiovascular pelo seu alto índice de mortalidade.
É uma patologia que sempre devemos alocar no nosso hall de diagnósticos para pacientes que recebemos na emergência ou até mesmo no ambulatório com queixa de dor torácica súbita, de forte intensidade e lancinante, com histórico de hipertensão arterial sistêmica não controlada ou de defeitos estruturais, como síndrome de Marfan e coarctação de aorta.
Em tal caso, devemos realizar um exame físico bem detalhado, atentando-nos para as alterações descritas, como assimetria de pulso radial, e, além disso, solicitar exames de imagens.
Por fim, a simples suspeita através da história clínica, aliada a um exame físico direcionado, e a rapidez e disponibilidade de um exame de imagem corroboram para um diagnóstico precoce e, consequentemente, para terapêutica imediata, evitando complicações graves e o mais temido: o óbito do nosso paciente.
- Autora: Bruna Carolyne Venancio Lima
- Instagram: @brunavenancio7
Referências:
- DIAS, Ricardo Ribeiro; STOLF, Noedir Antônio Groppo. Doenças da Aorta Torácica. In: MARTINS, Mílton de Arruda et al. Clínica Médica. São Paulo: Manole, 2015. Cap. 20. p. 260-272.
- LIRA, Anne Louyse Andrade et al. DISSECÇÃO DE AORTA: UM CASO DE SUCESSO NA MEDICINA. Revista Interdisciplinar em Saúde, Cajazeiras, v. 6, n. 5, p. 199-212, dez. 2019. Disponível em: https://www.interdisciplinaremsaude.com.br/Volume_27/Trabalho_15.pdf. Acesso em: 03 nov. 2020.
- ROSTIROLA, Laís Sette. DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL DA DISSECÇÃO DE AORTA COMO CAUSA DE DOR TORÁCICA AGUDA: SÍNTESE DE EVIDÊNCIAS CLÍNICAS. International Journal Of Health Management. Bragança Paulista, p. 1-8. 2019.
- SAADI, Eduardo Keller; MURAD, Henrique. Dissecção da aorta. In: SOCIEDADE BRASILEIRA DE CARDIOLOGIA (Brasil). Cirurgia Cardiovascular. Clínica Saadi, 2020. Cap. 06. p. 1-13. Disponível em: https://clinicasaadi.com.br/wp-content/uploads/2018/12/Dissecc%CC%A7a%CC%83o-da-aorta-SBC-2010-.pdf. Acesso em: 03 nov. 2020.
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