A dispraxia, também conhecida como transtorno do desenvolvimento da coordenação (TDC), é uma condição neurológica que afeta a habilidade do indivíduo de planejar, organizar e executar movimentos voluntários. Embora frequentemente associada a atrasos motores em crianças, a dispraxia tem um impacto mais amplo, afetando não apenas a coordenação motora, mas também outras áreas do desenvolvimento neurológico, como linguagem, cognição e aspectos sociais. Identificar a dispraxia de forma precoce é crucial para um diagnóstico adequado, que possibilite uma abordagem terapêutica eficaz e melhore a qualidade de vida do paciente.
No contexto clínico, é essencial que os médicos saibam diferenciar a dispraxia de outras condições, como o Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), que compartilha alguns sintomas semelhantes, mas com causas e tratamentos distintos.
Definição clínica
Dispraxia é um transtorno do neurodesenvolvimento caracterizado pela dificuldade persistente de realizar movimentos coordenados e planejados. Esses movimentos involuntários afetam as atividades cotidianas, como:
- Uso de utensílios
- A escrita
- Participação em jogos e atividades físicas
- Além de dificultar a interação social.
A condição não pode ser explicada por outras causas, como deficiências intelectuais, distúrbios sensoriais ou problemas motores óbvios, como paralisia cerebral ou outras doenças neurológicas. A principal característica da dispraxia é a dificuldade em planejar, coordenar e executar movimentos precisos, que requerem integração de habilidades cognitivas e motoras.
Clinicamente, é importante distinguir a dispraxia de outras condições que apresentam sintomas semelhantes. A dispraxia não está relacionada a déficits motores brutos ou à falta de força, mas sim a um processamento ineficiente das informações motoras pelo cérebro. Em crianças, a dispraxia pode se manifestar com atraso no desenvolvimento motor, dificuldades em aprender a andar, correr, saltar e escrever de forma legível.
Tipos de dispraxia
Pode-se classificar a dispraxia de várias formas, dependendo dos aspectos afetados e da gravidade do transtorno. Os tipos mais comuns incluem:
Dispraxia motora ou do desenvolvimento
Este é o tipo mais comum de dispraxia, caracterizado por dificuldades em tarefas que exigem coordenação motora, como o uso de talheres, vestir-se ou escrever. A criança com esse tipo de dispraxia pode parecer desajeitada ou descoordenada em relação aos seus colegas, tendo dificuldades para realizar movimentos precisos. O atraso motor nessas crianças pode ser evidente desde os primeiros anos de vida.
Dispraxia verbal
A dispraxia verbal afeta a capacidade de coordenar os movimentos necessários para a fala. Ela está frequentemente associada à apraxia de fala, um transtorno em que os sinais cerebrais necessários para produzir sons claros e compreensíveis não são bem processados.
Como resultado, a pessoa pode apresentar dificuldades para pronunciar palavras corretamente, o que interfere em sua comunicação verbal.
Dispraxia ideomotora
Este tipo de dispraxia envolve dificuldades em executar movimentos, apesar de o paciente entender o que precisa ser feito. Em outras palavras, a criança pode compreender a instrução para realizar uma ação, mas não consegue executar o movimento de maneira coordenada.
Esse tipo é comum em tarefas motoras mais complexas, como atirar uma bola ou pegar um objeto de forma precisa.
Dispraxia de planejamento e sequenciamento
A dispraxia de planejamento e sequenciamento está relacionada a dificuldades em planejar e executar sequências de movimentos. Indivíduos com esse tipo de dispraxia têm dificuldade em dividir uma tarefa complexa em etapas menores e podem se perder no processo, dificultando a conclusão da tarefa de maneira eficiente.
Este tipo pode ser particularmente desafiador em contextos educacionais e no ambiente de trabalho.
Impacto no desenvolvimento neurológico
A dispraxia tem um impacto significativo no desenvolvimento neurológico, afetando áreas além da coordenação motora. A condição pode interferir na aquisição de habilidades sociais e cognitivas, bem como em aspectos emocionais. Dessa forma, indivíduos com dispraxia frequentemente enfrentam dificuldades na escola, devido à sua incapacidade de realizar tarefas como escrever ou desenhar com precisão. Isso pode levar a um baixo desempenho acadêmico, o que, por sua vez, pode afetar a autoestima da criança e aumentar o risco de distúrbios emocionais, como ansiedade e depressão.
Além disso, a dificuldade em realizar tarefas motoras também pode afetar a interação social. Crianças com dispraxia podem ser vistas como “desajeitadas” pelos colegas, o que pode resultar em isolamento social e dificuldades em se integrar a atividades em grupo, como esportes ou brincadeiras. Essa falta de habilidades sociais pode afetar negativamente o desenvolvimento emocional e o bem-estar geral do indivíduo.
Em termos de impacto cognitivo, estudos sugerem que a dispraxia pode estar associada a dificuldades em outras áreas do desenvolvimento, como a aprendizagem de leitura e escrita. As dificuldades de coordenação motora podem interferir na capacidade da criança de escrever de forma legível ou de realizar tarefas que exigem habilidades motoras finas, como usar uma tesoura ou amarrar os sapatos. Isso pode resultar em dificuldades acadêmicas persistentes, mesmo que o restante do desenvolvimento cognitivo esteja dentro dos parâmetros normais.
Diagnóstico e avaliação clínica
O diagnóstico da dispraxia é baseado em uma avaliação detalhada da história médica do paciente, observação clínica, e avaliações de habilidades motoras. Não há um único teste que diagnostique a dispraxia de forma conclusiva. No entanto, o médico pode usar uma combinação de questionários e testes padronizados para avaliar a coordenação motora e a capacidade de planejamento motor do indivíduo.
O diagnóstico precoce é fundamental para a implementação de estratégias de intervenção que ajudem a mitigar os impactos da condição. Deve-se alertar pais e educadores para os sinais de alerta da dispraxia, como dificuldades em tarefas motoras simples, atraso no desenvolvimento motor ou problemas de fala. A intervenção precoce pode ajudar a melhorar as habilidades motoras e reduzir os desafios comportamentais e acadêmicos associados à condição.
Tratamento e estratégias terapêuticas
O tratamento da dispraxia envolve uma abordagem multidisciplinar, com ênfase em terapia ocupacional, fisioterapia e, em alguns casos, terapia da fala. A terapia ocupacional é frequentemente a pedra angular do tratamento, pois visa melhorar as habilidades motoras finas e a coordenação motora. Os terapeutas ocupacionais podem trabalhar com o paciente para desenvolver habilidades essenciais para a vida diária, como escrever, se vestir e usar utensílios.
Além disso, a terapia cognitivo-comportamental pode ser útil para lidar com as dificuldades emocionais associadas à dispraxia, como baixa autoestima e ansiedade. Para os pacientes com dispraxia verbal, a terapia da fala é essencial para melhorar a articulação e a comunicação verbal. Em alguns casos, o uso de dispositivos de assistência, como tablets ou computadores para escrever, pode ajudar a compensar as dificuldades motoras.
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Referências bibliográficas
- Souza, S. B. et al. (2020). A dispraxia no contexto escolar: identificação e impacto no desempenho acadêmico. Revista Brasileira de Educação Especial, 26(3), 563-572. https://www.scielo.br/j/rbee/a/jPsxGN4xz7cNMxZCSzCbQ4M/?format=pdf&lang=pt
- Almeida, P. R., & Costa, J. L. (2021). A importância da intervenção precoce na dispraxia: uma análise crítica. Movimenta: Revista de Psicologia e Educação, 15(2), 34-47. https://www.revista.ueg.br/index.php/movimenta/article/view/8050
