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Diretriz de Transtorno da Ansiedade Social: Diagnóstico Diferencial | Ligas

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O transtorno da ansiedade social (TAS) apresenta características clínicas que podem se assemelhar em diferentes aspectos a outros transtornos psiquiátricos, tornando o diagnóstico diferencial muitas vezes um desafio na prática clínica.

O que permitirá um diagnóstico de pessoa socialmente ansiosa, é o grau de prejuízo que apresenta em função da ansiedade, as crenças que tem sobre sua eficácia social e em quantas outras esferas de sua vida têm essa dificuldade.

Sintomas presentes no TAS, como isolamento social, também estão presentes em outros transtornos, como a depressão. As preocupações recorrentes do TAS (conteúdo de adequação social) podem ocorrer em outros transtornos psiquiátricos, como o transtorno da ansiedade generalizada. E ainda, é possível que o paciente com TAS experimente um ataque de pânico em situação de intensa exposição social.

Fisiopatologia

Segundo Braga et. al os sistemas cerebrais de defesa, constituído por estruturas nervosas, longitudinalmente organizadas, formado pela amígdala, hipotálamo medial e matéria cinzenta periaquedutal e o sistema de inibição comportamental estão inter-relacionados à ansiedade. A amígdala possui conexões nervosas com o neocórtex, com estruturas límbicas, funcionando como interface sensório-emocional entre elas, avaliando e classificando o tipo e grau do estímulo.

O resultado desse estímulo é, então, transmitido ao hipotálamo medial e à matéria periaquedutal. A matéria cinzenta periaquedutal seleciona e organiza reações comportamentais e fisiológicas da defesa, visto que esta deve ser apropriada ao resultado do estímulo. O hipotálamo medial regula o funcionamento da hipófise que, por meio da secreção do hormônio adrenocorticotrópico estimula as glândulas suprarrenais a secretar glicocorticoides, como o cortisol, norepinefrina e epinefrina.

A ativação do sistema de inibição comportamental a estímulos condicionados a frustração, punição, ameaças, provoca a inibição dos movimentos de qualquer animal. Quando o estímulo atual é compatível com o esperado, então o sistema permanece no modo de “checagem”, não havendo o controle comportamental pelo sistema de inibição comportamental, se o estímulo atual não é compatível com o esperado, o sistema de inibição comportamental opera no modo de “controle”, gerando a inibição comportamental, acompanhada do aumento de atenção ao meio e da vigilância em direção aos estímulos potencialmente perigosos.

Os neurotransmissores que participam da modulação e regulação do sistema defensivo são a noradrenalina, epinefrina, dopamina, serotonina, ácido gama-aminobutírico (GABA) e peptídeos que atuam como fator de liberação de corticotropina. A noradrenalina é implicada na defesa da ansiedade e quando em baixas doses há uma regulação noradrenérgica deficitária. A serotonina possui um papel tanto inibitório quanto estimulatório, quando os sistemas cerebrais de defesa são estimulados por sinais de perigo através da amígdala, há a ativação de neurônios serotoninérgicos.

O GABA exerce função inibitória sobre os neurônios serotoninérgicos cuja função é controlar o sistema nervoso central garantindo seu funcionamento moderado, e os benzodiazepínicos atuam de maneira a potencializar a ação dos neurotransmissores. O sistema endócrino é grande influenciador em todos os processos supracitados.

Abordagem inicial

O transtorno de ansiedade social (TAS), também conhecido como fobia socialé o transtorno de ansiedade mais comum e o terceiro transtorno psiquiátrico mais frequente, com curso crônico, sem remissões, sendo frequentemente associado com importante prejuízo funcional e comprometimento psicossocial. Os pacientes com TAS apresentam altas taxas de comorbidade psiquiátrica e importante limitação das suas atividades de interação social que, por sua vez, ocasionam diversos prejuízos pessoais e elevada utilização de serviços de saúde. A TAS tipicamente inicia-se na infância ou na adolescência e, em termos de intensidade, pode ser considerado leve, moderado ou grave. Apenas 4% a 5,6% dos pacientes com TAS são corretamente identificados. Este subdiagnóstico ocorre apesar do TAS ser muito incapacitante, causar prejuízo do desempenho e sofrimento significativos.

Além disto, o correto diagnóstico implicaria em indicar um tratamento específico. Os fatores relacionados com o subdiagnóstico incluem: (i) o mascaramento pelas frequentes comorbidades; (ii) a falha dos médicos em reconhecer o TAS; (iii) a vergonha dos pacientes de falar de seu problema e, (iv) o desconhecimento por parte dos mesmos de que o desconforto intenso e o embaraço vivenciado em condições sociais é um transtorno psiquiátrico, com terapêutica efetiva em muitos casos.

Diagnóstico do Transtorno de Ansiedade Social (TAS)

Atualmente, os sistemas de diagnóstico e classificação em psiquiatria em uso são a CID-10 e o DSM-IV. Eles operacionalizaram o diagnóstico de TAS facilitando seu reconhecimento, confiabilidade e a comunicação entre profissionais. Destaca-se, entretanto, que o diagnóstico definitivo de um transtorno mental ou de comportamento, qualquer que seja ele, só pode ser feito com base em uma anamnese psiquiátrica cuidadosa.

Critérios para o diagnóstico de transtorno de ansiedade social ou fobia social segundo a CID-10:

  • Medo de escrutínio pelas outras pessoas que leva à evitação de situação social. As fobias mais pervasivas são frequentemente associadas com baixa autoestima e medo de ser criticado.
  • Os pacientes podem apresentar uma queixa de rubor facial, tremor nas mãos, náuseas, ou urgência urinária, algumas vezes se convencendo de que uma destas manifestações secundárias de sua ansiedade é o problema primário.
  • Os sintomas podem progredir para ataques de pânico.

Critérios para o diagnóstico de transtorno de ansiedade social segundo o DSM-IV:

  • Medo acentuado e persistente de situações sociais ou de desempenho (como falar ou comer em público), onde o indivíduo é exposto a pessoas estranhas ou ao possível escrutínio por outras pessoas.
  • A exposição à situação social temida provoca ansiedade.
  • A pessoa reconhece que o medo é excessivo ou irracional.
  • Estas situações sociais e de desempenho temidas são evitadas ou suportadas com intensa ansiedade e sofrimento.
  • Os sintomas causam sofrimento significativo ou prejuízo no desempenho social/ocupacional, não se devem aos efeitos fisiológicos diretos de uma substância (p. ex., droga de abuso ou de Parkinson) e não são mais bem explicados por outro transtorno mental, como, por exemplo, transtorno de pânico ou dismórfico corporal.
  • Em indivíduos com menos que 18 anos, a duração tem que ser de, no mínimo, seis meses.

Classificação quanto à gravidade

É importante fazer a distinção entre os subtipos de TAS, pois esta discriminação pode fornecer informações quanto à gravidade, incapacidade e prejuízos inerentes ao TAS, os quais são maiores no subtipo generalizado. Igualmente, sugere-se que esta diferenciação possa determinar diferentes abordagens medicamentosas e/ou psicoterápicas.

A presença de prejuízos funcionais ou de incapacidades é comumente referida, nos estudos sobre o TAS, como uma forma de manifestação dos prejuízos associados ao transtorno. Alguns estudos, ao referirem os prejuízos funcionais, o fazem caracterizando o impacto do transtorno nas atividades habituais do dia a dia. A Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde (CIF), de maneira similar, apresenta incapacidade como um termo genérico para caracterizar deficiências, limitações de atividades e restrições de participação em diferentes domínios, englobando a interação entre o indivíduo e seus fatores contextuais.

Para as pessoas com TAS, os prejuízos funcionais se configuram como um ponto central de suas dificuldades, sendo necessário o reconhecimento dos indicadores que os caracterizam, de modo a instrumentar o planejamento e a aplicação de práticas de saúde. Dado o impacto das dificuldades vivenciadas na vida cotidiana para os portadores do TAS, em geral pessoas jovens, em etapa de importantes aquisições escolares e profissionais, considera-se como relevantes intervenções de saúde mental que tenham a finalidade de minimizar tais prejuízos.

Diagnósticos diferenciais

1. Timidez e TAS:

A timidez em situações sociais que envolvam pessoas estranhas é uma ocorrência relativamente comum e não deve ser diagnosticada como TAS, a menos que a ansiedade ou a evitação tragam prejuízos clinicamente significativos ou sofrimento acentuado.

2. Transtorno de personalidade evitativo e TAS:

Embora ambos os transtornos sejam marcados por inibição social, sentimentos de inadequação e hipersensibilidade a avaliações negativas, o Transtorno de Personalidade Evitativo ou Esquiva necessariamente envolve um padrão de funcionamento persistente, inflexível e de longa duração presente em uma variedade de contextos. Indivíduos com Transtorno de Personalidade Evitativo evitam atividades profissionais e escolares que envolvam contato interpessoal significativo, por medo de críticas ou rejeição. Há relutância em envolver-se com pessoas, a menos que tenham certeza de sua estima. Eles podem apresentar um limiar acentuadamente baixo para detecção de críticas e evitarem novas situações interpessoais, em virtude de sentimentos de inadequação e inferioridade. Essas pessoas tendem a exagerar os possíveis perigos de situações comuns, de modo que um estilo de vida limitado pode decorrer de sua necessidade de certeza e segurança

3. Depressão e TAS:

A depressão é um transtorno do humor caracterizado por humor deprimido e anedonia. Além disso, o indivíduo pode apresentar: sensação de inutilidade ou culpa excessiva; dificuldade de concentração; habilidade frequentemente diminuída para pensar; fadiga ou perda de energia; insônia ou hipersônia praticamente diárias; problemas psicomotores; agitação ou retardo psicomotor; perda ou ganho significativo de peso; sentimentos de culpa ou desvalorização de si; ideias recorrentes de morte ou suicídio. Os sintomas devem estar presentes por pelo menos duas semanas.

O TAS e a depressão estão inseridos em classes de transtornos diferentes, porém algumas características presentes nos dois transtornos às vezes tornam difícil sua diferenciação. Por exemplo, o isolamento social e a esquiva de situações podem ocorrer nos dois transtornos, e o que os diferenciará é a razão subjacente pela qual isso está ocorrendo. No TAS, esta ocorrerá por medo da avaliação externa, da ineficácia social, envolvendo extrema ansiedade; já na depressão está associado ao humor deprimido e à falta de prazer em socializar-se. Além disso, a ansiedade antecipatória, presente no TAS, frente às situações sociais, não é característica da depressão.

4. Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG) e TAS:

O TAS e o TAG são prevalentes, crônicos e disfuncionais, que muitas vezes ocorrem de forma comórbida. Enquanto o TAS é caracterizado pela presença do medo de ser embaraçado e humilhado em situações sociais e pela evitação dessas situações, o TAG é caracterizado por preocupações excessivas sobre situações de vida corriqueiras, acompanhadas de tensão, apreensão e temor pelo pior. Além disso, os indivíduos acometidos de TAG apresentam muitas manifestações somáticas. Enquanto o TAG responde a todos os antidepressivos tricíclicos e à buspirona, não há resposta satisfatória ao TAS com essas medicações.

5. Transtorno do pânico e TAS:

O diagnóstico diferencial entre TAS e transtorno de pânico nem sempre é uma tarefa fácil, principalmente quando ataques de pânico estão presentes em virtude da situação social temida. De modo geral, comparando-se com pacientes com transtorno do pânico, os indivíduos com TAS têm início do transtorno mais precoce, uma tendência maior a não se casarem, maiores níveis de esquiva de situações sociais e de avaliação negativa do medo. As preocupações em errar e dúvidas sobre a ação em público são mais comuns no TAS que no transtorno de pânico com agorafobia.

Alguns estudos evidenciam que os ataques de pânico no TAS se diferenciam por estarem mais associados a sintomas como ruborização e tensão motora e os pacientes raramente têm sensação eminente de morte, enquanto os sintomas típicos de um ataque de ansiedade associados ao pânico são dificuldade de respiração, tontura, palpitação, visão borrada e medo de perder o controle e morrer

Portanto, deve-se avaliar em quais contextos ocorrem os ataques de pânico para uma definição diagnóstica mais precisa. No TAS, os ataques de pânico geralmente ocorrem em situações sociais e associam-se a avaliação negativa e medo de escrutínio, enquanto no transtorno de pânico, os ataques, em sua maioria, são recorrentes e espontâneos.

6. Agorafobia e TAS:

A agorafobia refere-se à esquiva fóbica associada ao transtorno do pânico, na qual pacientes, por medo de apresentarem um ataque de pânico, caracterizado por ataque agudo de ansiedade, evitam estar em locais ou situações de onde seja difícil ou embaraçoso escapar ou obter ajuda, caso sejam acometidos por um ataque de pânico. A distinção entre o TAS e a agorafobia se torna difícil quando o paciente apresenta ataques de pânico no TAS. A exposição social pode ser tão intensa e amedrontadora, que pode resultar em ataque de pânico e esquiva a situações sociais em que há chance de ser observado com estes sintomas.

Na agorafobia, o medo de situações sociais ocorre secundário ao estímulo não social, como estar confinado a um espaço estreito na presença de outras pessoas. Dessa forma, é comum que pacientes também comecem a desenvolver uma esquiva a situações sociais por medo de apresentarem algum mal estar ou pelo constrangimento de tê-lo. A partir da identificação da razão pela qual o indivíduo vem evitando certas situações é possível diagnosticá-lo corretamente e estabelecer melhores linhas de tratamento. A motivação será em função do medo social ou do medo de apresentarem um ataque de pânico.

7. Estresse pós-traumático e TAS:

Em geral, a apresentação clínica e a história passada do paciente são suficientes para diferenciar os pacientes com transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) dos pacientes com TAS. Os pacientes com TEPT têm seu foco de medo na reexperimentação da situação traumática, apresentando memórias vívidas ou sonhos. Por outro lado, o medo no TAS corresponde ao medo de ser embaraçado e humilhado na frente dos demais. Os indivíduos com TAS preocupam-se muito com a opinião dos outros a respeito da sua pessoa e, embora a exposição à situação temida cause ansiedade intensa e/ou até ataques de pânico, o indivíduo reconhece que seu medo é excessivo, interferindo na rotina, trabalho e vida social.

Embora compartilhem alguns fatores de risco e uma possível ligação neurobiológica, esses transtornos, em geral, podem ser diferenciados pela sua manifestação clínica. No TEPT, além das manifestações somáticas de ansiedade, aparecem memórias vívidas (flashbacks) e pesadelos. No TAS, as reações de ansiedade ocorrem frente a uma situação ou ao antecipar a situação em que o indivíduo será o foco de atenção. No TEPT, embora o medo e a vergonha também estejam presentes, o indivíduo teve uma exposição a uma situação estressante e poderá apresentar um ataque de ansiedade frente à reexposição ou ao medo de uma possível reexposição a essa situação estressora.

8. Fobias específicas e TAS:

De acordo com o DSM-IV e o CID-10, a fobia específica é caracterizada por um temor excessivo e irracional, persistente, que é restrito a estímulos circunscritos (objeto ou situação), ao ponto no qual o estímulo é evitado sempre que possível ou é enfrentado somente com intensa ansiedade, que ocorre imediatamente com a exposição. O DSM-IV classifica as fobias específicas em cinco subtipos: (1) animais; (2) fenômenos do meio ambiente; (3) sangue-injeção-ferimento; (4) locais ou situacionais e (5) outros. Exemplos de fobias comumente observadas nas fobias específicas são altura, pequenos hospitais, injeções, lugares fechados, trovões e relâmpagos, entre outros. Em contraste, os medos do TAS envolvem situações sociais ou de desempenho − como falar, comer ou urinar em público, o que não é o caso das fobias específicas. O TAS está associado ao medo que envolve situações sociais ou de desempenho, enquanto a fobia específica associa-se ao temor irracional ou excessivo a estímulos circunscritos (objeto ou situação).

9. Mutismo seletivo em crianças:

O mutismo seletivo caracteriza-se por uma falha da criança em falar quando seria esperado que ela se comunicasse, que não é explicada por dificuldade do idioma ou sobre o que está sendo falado. Geralmente a recusa não ocorre em toda situação social, mas com algumas situações ou pessoas. É necessário duração de pelo menos um mês e interferência no desempenho social e escolar da criança para que se faça o diagnóstico. Apesar de ainda não haver consenso sobre sua classificação, é considerado por grande parte dos autores, como uma forma mais grave e precoce do TAS, ocorrendo entre os 5-11 anos e apresentando uma distribuição entre 0,8% e 1,9%. Uma boa avaliação para mutismo seletivo é feita por intermédio de entrevistas com pessoas que têm bastante convívio com a criança e, consequentemente, apresentam maior chance de flagrar o fenômeno, como professores, babá e pais/familiares.

10. Taijin Kyofusho e TAS:

A Taijin Kyofucho, ou antropofobia, é uma fobia descrita originalmente no Japão, assemelhando-se em alguns aspectos ao TAS, sendo classificada como uma síndrome ligada à cultura segundo o DSM-IV-TR. Caracteriza-se por um medo intenso e persistente de que o próprio corpo, partes ou funções dele desagradem, embaracem ou ofendam outras pessoas devido a sua aparência física, odor, expressões faciais ou comportamento. Tais medos de que possam ser avaliados de uma forma injusta ou de que possam fazer com os outros se sintam ofendidos ou desconfortáveis podem fazer com que esses indivíduos fiquem mais retraídos e passem a evitar situações sociais.

A Taijin Kyofucho apresenta várias similaridades com o TAS, como o medo e a evitação de situações sociais e acredita-se que sejam diagnósticos pertencentes ao mesmo espectro. Enquanto o medo de situações sociais nas quais o indivíduo possa se sentir envergonhado é mais comum no Ocidente, o medo de ofender alguém é mais comum no Oriente. No TAS também pode haver preocupações quanto a ofender os outros, à presença de odores corporais ou à aparência física e, da mesma forma, na Taijin Kyofucho, pode existir preocupações quanto a ficar envergonhado ou ficar ruborizado, trêmulo ou sudorético na presença de outras pessoas.

11. Síndrome de Shy Bladder:

A síndrome de Shy Bladder caracteriza-se pelo medo ou dificuldade de urinar em banheiros públicos quando outras pessoas estão presentes ou podem entrar no banheiro. Ainda permanece controverso se a síndrome é uma subcategoria do TAS.

Tratamento/Condutas do Transtorno de Ansiedade Social

O tratamento adequado do TAS se inicia com o seu reconhecimento e diferenciação de quadros de timidez (ausência de sofrimento e prejuízo). Posteriormente, é realizada a avaliação das comorbidades comumente associadas ao transtorno, com ênfase em outros transtornos de ansiedade, depressão, abuso de álcool e de outras substâncias psicoativas.

Após o diagnóstico, deve-se proceder para a adequada escolha terapêutica. Nas duas últimas décadas, o crescente reconhecimento do TAS tem sido acompanhado por um maior número de opções de tratamento farmacológico e psicoterápico. A terapia cognitivo-comportamental (TCC) e os psicofármacos parecem ter eficácia semelhante em curto prazo. A escolha do tratamento deve considerar a disponibilidade do local determinado, a preferência e motivação dos pacientes e os custos associados.

De modo geral, a meta do tratamento do TAS deve ser a remissão total dos sintomas. Apesar das frequentes dificuldades relacionadas à remissão completa, estudos evidenciam que os sintomas residuais são um dos principais fatores associados à recaída dos quadros de TAS em médio e longo prazo.

Em função da baixa procura por tratamento, pacientes com TAS frequentemente perdem oportunidades de crescimento pessoal e profissional, desenvolvendo auto avaliação negativa e isolando-se ainda mais na participação na sociedade. Desta forma, é de extrema importância que profissionais de saúde possam encaminhar ou orientar os pacientes ao melhor tratamento disponível.

Algumas observações a serem feitas:

  • Estudos mostram que a farmacoterapia tende a provocar resultados um pouco melhores do que a TCC, porém o tratamento combinado se mostra superior às monoterapias.
  • A TCC em grupo para o TAS é uma escolha bastante utilizada, embora poucos estudos comparativos com a terapia individual tenham sido conduzidos. Na TCC em grupo, há a facilidade do uso da exposição às situações temidas, uma vez que o grupo é utilizado como rede de suporte para os desafios terapêuticos. Existe a possibilidade de se desenvolver habilidades e comportamentos por observação dos outros participantes.

Tratamento farmacológico

Duas classes de psicofármacos são consideradas de primeira linha no tratamento farmacológico do TAS, tanto pelo fato de terem se mostrados eficazes em vários ensaios clínicos randomizados com placebo, quanto pela segurança de seus efeitos adversos. Essas drogas de escolha são os inibidores seletivos de recaptação de serotonina (ISRS) e os inibidores de recaptação de serotonina e noradrenalina (IRSN).

Apesar dos benzodiazepínicos (BZD) também apresentarem forte evidência de eficácia, não são considerados medicações de primeira linha em função do perfil pouco favorável de efeitos adversos e risco de abuso e dependência, assim como os antidepressivos inibidores da monoaminoxidade (IMAO), devido ao aumento do risco de crise hipertensiva e acidente vascular encefálico quando as recomendações dietéticas não são estritamente cumpridas pelo paciente. Os antidepressivos tricíclicos, além de não demonstrarem tanta eficácia, podem agravar os sintomas fóbicos ansiosos, principalmente devido aos efeitos colaterais como tremores finos e sudorese.

Inibidores seletivos de recaptação de serotonina (ISRS)

Entre os ISRS, o escitalopram, a fluvoxamina, a sertralina e a paroxetina são consideradas medicações de primeira linha para o tratamento do TAS.

Inibidores de recaptação de serotonina e noradrenalina (IRSN)

A venlafaxina de liberação estendida foi avaliada no tratamento do TAS em um estudo de 28 semanas. Quando comparada ao placebo, o grupo com a droga ativa apresentou taxas de resposta (58% vs. 33%, NNT=4) e remissão (31% vs. 16%, NNT=7) superiores, tanto em baixas doses (75mg/dia) como em altas doses (150mg e 225mg/dia). Outros estudos encontraram resultados similaresapontando que a venfalaxina é uma medicação eficaz, segura e bem tolerada no tratamento do TAS.

Inibidores de monoamino-oxidase (IMAO)

Apesar de eficazes, os IMAO impõem restrições alimentares importantes em virtude do risco de interação com a tiramina presente em certos alimentos, podendo provocar aumento repentino na pressão sanguínea e reações hipertensivas. Desta forma, deve haver cautela em seu uso, além de medidas informativas a serem adotadas pelo médico, como o fornecimento de uma lista de alimentos e medicações que devem ser evitados. Em particular, a fenelzina, um IMAO irreversível, demonstrou-se bastante eficaz no tratamento do TAS. Em ensaios clínicos, os IMAO, juntamente com BZD e ISRS, se mostraram superiores no tratamento do TAS, porém a maior evidência de tolerabilidade e eficácia foi associada aos ISRS.

Benzodiazepínicos (BZD)

Os BZD (clonazepam, bromazepam, alprazolam) são usados frequentemente no tratamento dos transtornos ansiosos. O clonazepam, em doses entre 0,5 e 3mg/dia, mostrou-se efetivo no tratamento do TAS com taxas de resposta de 78,3% contra 20% no grupo placebo. Em geral, o clonazepam foi bem tolerado, porém o grupo em uso do mesmo apresentou mais tonturas e instabilidade postural que o grupo placebo. Da mesma forma, o bromazepam mostrou-se efetivo em um estudo de 12 semanas. O risco de abuso e dependência contra-indica o uso de BZD em pacientes com história de dependência e coloca esse tipo de medicação como uma opção de segunda linha no tratamento do TAS.

Qual o tratamento medicamentoso do TAS em crianças e adolescentes?

Infelizmente, pouca atenção tem sido dada ao uso de medicações para o TAS em crianças e adolescentes. Alguns estudos abertos com ISRS têm mostrado resultados promissores, apontando-os como medicações de primeira linha para o tratamento do TAS nesta população.

Em um estudo de 16 semanas com crianças e adolescentes de 8 a 17 anos com dosagem média de paroxetina de 25mg/dia, 77,6 % do grupo com TAS respondeu à medicação, com NNT de 3, contra 38,3% do grupo placebo.

A fluoxetina (20mg/dia) utilizada por pacientes entre 7 e 17 anos mostrou-se superior ao placebo no tratamento dos sintomas do TAS em um ensaio clínico de 12 semanas, com melhora de 61% vs. 35% dos casos, respectivamente, fornecendo um NNT de 4.

Em um estudo aberto de 8 semanas com sertralina (dose média de 123mg/dia), 36% das crianças com TAS foram classificadas como responsivas ao tratamento e 29% como parcialmente responsivas. Além disso, houve uma diminuição do desconforto em tarefas sociais e nos escores das escalas associadas à timidez e ansiedade.

O escitalopram, utilizado por 12 semanas (10-20 mg/dia), provocou melhora dos sintomas do TAS e na qualidade de vida em 65% dos participantes, com tamanhos de efeito variando de 0,9 a 1,9.

O que muda no dia seguinte

Com essa diretriz foi possível constatar que o manejo de pacientes com TAS deve permanecer ao longo do tempo, visto que já existem amplos recursos para o tratamento desse transtorno. Entretanto, é importante ressaltar que a TAS deve ser desmistificada para que, assim sejam evitados os estigmas sociais, pois, uma vez que se trata de um transtorno mental, ainda há muito preconceito a respeito.

Autores, revisores e orientadores:

Autor(a): Sofia Mattos – @ouisofi

Revisor(a): Raíza Pereira – @raizapereira

Orientador(a): Dra Fátima Vasconcellos

O texto acima é de total responsabilidade do(s) autor(es) e não representa a visão da sanar sobre o assunto.

Observação: material produzido durante vigência do Programa de colunistas Sanar junto com estudantes de medicina e ligas acadêmicas de todo Brasil. A iniciativa foi descontinuada em junho de 2022, mas a Sanar decidiu preservar todo o histórico e trabalho realizado por reconhecer o esforço empenhado pelos participantes e o valor do conteúdo produzido. Eventualmente, esses materiais podem passar por atualização.

Novidade: temos colunas sendo produzidas por Experts da Sanar, médicos conceituados em suas áreas de atuação e coordenadores da Sanar Pós.


Referências

DE CASTRO, Juliana Viana Rodrigues. ANSIEDADE, UM DOS PROBLEMAS DO SECULO XXI.

ISOLAN, L. et al. Transtorno da Ansiedade Social: Diagnóstico Diferencial.

MORAIS, Luciene Vaccaro de; CRIPPA, José Alexandre S.; LOUREIRO, Sonia Regina. Os prejuízos funcionais de pessoas com transtorno de ansiedade social: uma revisão. Rev. psiquiatr. Rio Gd. Sul, Porto Alegre, v. 30, n. 1, supl.   2008 .   Available from . access on 08 May 2021.  https://doi.org/10.1590/S0101-81082008000200007.

LEVITAN, Michelle N. et al. Diretrizes da Associação Médica Brasileira para o tratamento do transtorno de ansiedade social.Rev. Bras. Psiquiatr., São Paulo, v. 33, n. 3, p. 292-302, Sept.  2011 .   Available from . access on 08 May 2021.  http://dx.doi.org/10.1590/S1516-44462011000300014.

CHAGAS, Marcos Hortes N. et al. Diretrizes da Associação Médica Brasileira para o diagnóstico e diagnóstico diferencial do transtorno de ansiedade social. Rev. Bras. Psiquiatr., São Paulo, v. 32, n. 4, p. 444-452, Dec.  2010 .   Available from . access on 08 May 2021.  Epub Oct 15, 2010.  http://dx.doi.org/10.1590/S1516-44462010005000029.

Associação Brasileira de Psiquiatria; Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade. Transtorno da Ansiedade Social: Diagnóstico. Projeto Diretrizes (Associação Médica Brasileira e Conselho Federal de Medicina). Elaboração Final: 31 de janeiro de 2011.

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