Não há dúvidas de que o cenário da pandemia agora no Brasil é melhor do que em relação ao começo do ano, quando o país teve uma alta nos casos e nas mortes por Covid-19. Com o avanço da vacina – ainda que não no ritmo desejado- os números de infectados e mortos vem sendo reduzidos, assim como as taxas de ocupação das UTIs (Unidades de Terapia Intensiva). Porém, junto com esta melhora movimentos de flexibilização das restrições foram impulsionados passando uma falsa sensação de que a pandemia está definitivamente controlada.
O perigo à solta:
Embora muitos estados, como São Paulo, estejam com os índices de vacina cada vez mais altos —mais de 60% no estado já tomaram pelo menos a primeira dose e mais de 26% estão com o esquema completo—, esse dado não significa que as pessoas estão 100% imunes ao vírus. Variante Delta e pessoas não-vacinadas ainda estão presentes neste palco podendo, sim, se tornarem estopins de um novo surto.
De acordo com Evaldo Araújo, médico infectologista do Hospital das Clínicas da USP (Universidade de São Paulo) e professor da Universidade São Judas (SP), estar vacinado implica a diminuição dos riscos de ter uma forma grave da doença e, consequentemente, morrer, não impedindo a transmissão do vírus ou de suas variantes. “Cobertura vacinal é desejável e impacta muito positivamente na redução de internações e óbitos, mas ela não implica no fim da pandemia”, afirma.
Flexibilização: uma questão de equilíbrio
Sobre a necessidade de reduzir as restrições, o médico infectologista e professor da Unic (Universidade de Cuiabá), em Mato Grosso, Tiago Rodrigues, a questão é complicada por ser algo inédito e ainda não vivido pela sociedade. “Qualquer decisão, em favor da economia ou da pandemia, teremos os prejudicados e os beneficiados”, explica. Para ele, optar por decisões que priorizem medidas de lockdown ou restrições de circulação evita que mais pessoas morram ou sejam infectadas pelo coronavírus. Por outro lado, ser “a favor da economia” seria apoiar medidas de flexibilização no comércio. “A pandemia gera mortos e doentes, é algo irreversível. As decisões a ‘favor’ dela impactam a economia e geram desemprego, além de levar a saúde mental para o buraco, mas as coisas não são permanentes, embora não seja um impacto pequeno”, diz. “Eu, como profissional de saúde, opto sempre pelas medidas que ajudem a controlar a pandemia.”
Quando há flexibilização, existe também um maior risco da circulação do vírus e, eventualmente, pessoas que estejam vacinadas ou não podem acabar desenvolvendo a doença, inclusive de forma severa, segundo Araújo. “Abrir bares e restaurantes dessa forma, sem distanciamento ou uso de áreas externas, ainda é um risco apesar da vacina.” Desta forma, é necessário pesar muito bem os prós e contras antes que qualquer medida seja tomada, uma vez que, os danos podem ser irreversíveis.
Uma velha conhecida:
Em meio a todas estas questões, surge um nome bastante conhecido que vem preocupando epidemiologistas: a gripe H1N1. Devido à devastação causada pela Covid-19 e todas as tentativas de controle da doença, outras moléstias como H1N1, dengue e Chikungunya acabaram deixando de ser o foco de políticas sanitárias e aumentando, assim, sua transmissão no país.
No caso da Influenza H1N1, isso se deve à baixa cobertura vacinal. A vacina contra a doença ainda não atingiu a população alvo necessária de cerca de 79 milhões de brasileiros, de acordo com o Painel Influenza 2021, do Ministério da Saúde. Atribui-se este fato, aos movimentos anti-vacina e a falta de um maior incentivo às campanhas de vacinação em detrimento da Covid-19.
Nova epidemia de H1N1?
Em 2009, o Brasil presenciou uma epidemia de casos da Influenza A. Hoje, com a doença controlada graças à vacinação, se você estiver em plena saúde e contrair H1N1, provavelmente os resultados serão sintomas leves de gripe que passarão em algumas poucas semanas.
Contudo, o que vêm preocupando os cientista é que os vírus da influenza têm uma alta capacidade de mutar. Como sabemos, o vírus da gripe A foi descoberto pela primeira vez em suínos antes de ser detectado em humanos. Desta forma, concluiu-se que este vírus tem capacidade de dar “saltos” entre as espécies.
Os porcos, ao que parece, são um recipiente de mistura ideal para essas novas variantes. “Sabemos que os porcos geralmente não são os criadores do vírus, mas que agem como uma placa de Petri, misturando gripes de humanos, pássaros e talvez de outras espécies e, em seguida, criando misturas mais letais que podem se espalhar para outras espécies”, explica Nicola Lewis, colaboradora do projeto de coleta de amostras na Europa e professora de biologia evolutiva do Royal Veterinary College do Reino Unido.
Assim, a atenção à Influenza A deve ser reforçada, já que ao ser capaz de se recombinar com outras vertentes da gripe, ela causar problemas graves de saúde, mortes e uma série de distúrbios mundiais que estamos vivendo com a Covid-19.
Como a diminuição das restrições implicaria no aumento de casos de H1N1?
Se levarmos em consideração, que a pandemia de Covid-19 ainda não terminou e que ainda temos a doença circulante por todos os estados brasileiros, ao reduzir restrições, aumenta-se o fluxo de pessoas. Somando-se a isso, a alta capacidade de se recombinação do vírus da Influenza, bem como, à baixa adesão da população pela vacina da gripe, o resultado pode ser catastrófico.
Com isso, é necessário pensar muito bem antes de optar por ações mais liberais em relação à flexibilização e incentivar a prevenção de outras doenças. Talvez este ainda não seja o melhor momento para baixar guarda.
Referências:
Painel Influenza 2021 (saude.gov.br)
Notícias, vídeos, análise e contexto em português – BBC News Brasil
Fim de restrições no comércio não significa que pandemia está controlada
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