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Difilobotríase (infecção por tênia do peixe): diagnóstico e tratamento

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A difilobotríase é uma zoonose intestinal causada por tênias-largas da família Diphyllobothriidae, popularmente conhecidas como tênias do peixe. Nos últimos anos, o interesse por essa infecção tem aumentado em virtude do surgimento de casos em regiões anteriormente não endêmicas e dos avanços nas técnicas moleculares que possibilitaram a reclassificação e identificação mais precisa das espécies envolvidas.

Após a ingestão de peixes contaminados com larvas infecciosas, o parasita amadurece no intestino do hospedeiro humano, podendo permanecer por longos períodos sem causar sintomas evidentes. Na maioria dos casos, a infecção é leve ou assintomática, sendo reconhecida apenas pela eliminação espontânea de segmentos do verme nas fezes.

Entretanto, quando presentes, as manifestações clínicas incluem desconforto abdominal, diarreia, constipação, cefaleia, fadiga e, ocasionalmente, reações alérgicas. Além disso, a competição do parasita pela absorção de vitamina B12 pode levar à deficiência desse nutriente, embora o desenvolvimento de anemia megaloblástica seja incomum.

Etiologia da difilobotríase

A difilobotríase é uma infecção intestinal causada por tênias da família Diphyllobothriidae, sendo a Diphyllobothrium (Dibothriocephalus) latus a espécie mais comum em humanos. Esses parasitas podem atingir de 2 a 15 metros de comprimento, compostos por milhares de proglotes, e viver por até 20 anos. Seu escólex fixa-se à mucosa intestinal por meio de estruturas chamadas bótrios, permitindo que cresçam rapidamente (até 22 cm por dia) e produzam cerca de 1 milhão de ovos diariamente.

O ciclo de vida é complexo e depende de ambientes aquáticos, com dois hospedeiros intermediários: primeiro, um crustáceo copepoda que ingere as larvas iniciais; depois, peixes de água doce ou marinhos que consomem esses crustáceos. A infecção humana, por sua vez, ocorre ao ingerir peixes crus ou malcozidos contendo as larvas plerocercoides, que fixam-se no intestino e amadurecem em tênias adultas, especialmente no íleo. Após algumas semanas, o parasita começa a liberar ovos nas fezes, reiniciando o ciclo.

Estudos recentes baseados em análises morfológicas e moleculares redefiniram a taxonomia do grupo, reconhecendo seis espécies capazes de parasitar humanos, pertencentes aos gêneros Dibothriocephalus, Diphyllobothrium e Adenocephalus. Entretanto, muitas infecções ainda são mal identificadas, pois a diferenciação entre espécies requer métodos genéticos específicos.

Ademais, a difilobotríase é uma parasitose antiga, com registros datados do período Neolítico, e demonstra a notável adaptação desses helmintos a diversos hospedeiros mamíferos, inclusive o homem, o que explica sua persistência em várias regiões do mundo até hoje.

Epidemiologia da difilobotríase

A epidemiologia da difilobotríase reflete sua íntima relação com hábitos alimentares, condições sanitárias e padrões culturais ligados ao consumo de peixes crus ou malcozidos.

Trata-se de uma zoonose parasitária global, cuja principal espécie infectante em humanos é o Dibothriocephalus latus (antigamente Diphyllobothrium latum), endêmico em regiões frias e temperadas do hemisfério norte, especialmente no norte e leste da Europa. Outras espécies importantes incluem D. nihonkaiensis, predominante no Japão e Coreia, associada a peixes marinhos como o salmão, e Adenocephalus pacificus, distribuída na costa do Pacífico da América do Sul.

Embora tradicionalmente restrita a zonas endêmicas, a doença tem se tornado reemergente devido à globalização alimentar, ao transporte internacional de peixes infectados e à popularização de pratos crus como sushi, sashimi e ceviche. Nesse contexto, alguns casos vêm sendo descritos em países não endêmicos, incluindo o Brasil, o que demonstra a capacidade de disseminação dos parasitas por meio do comércio e consumo de produtos pesqueiros contaminados.

Em 2002, estimava-se que cerca de 20 milhões de pessoas estavam infectadas no mundo. Contudo, a prevalência real é subestimada, pois a doença não é de notificação obrigatória na maioria dos países, e os sintomas costumam ser brandos ou inespecíficos, levando ao subdiagnóstico. As regiões mais afetadas continuam sendo o Japão, partes da Europa, América do Norte e América do Sul, onde o consumo de peixe cru ou defumado é tradicional.

Ademais, a doença afeta igualmente ambos os sexos e todas as idades, mas a infecção tende a concentrar-se em grupos populacionais específicos, como:

  • Pessoas que consomem peixe cru regularmente;
  • Pescadores e manipuladores de pescado;
  • Indivíduos que provam pratos à base de peixe antes do cozimento.

Manifestações clínicas da difilobotríase

As manifestações clínicas da difilobotríase são, na maioria dos casos, discretas ou ausentes, tornando a infecção frequentemente assintomática.

Quando presentes, os sintomas tendem a ser inespecíficos, como fadiga, diarreia leve, tontura, dormência e, ocasionalmente, reações alérgicas. Em raras situações, pode haver eliminação espontânea de proglotes nas fezes ou pela boca, embora isso seja menos comum do que nas infecções por Taenia spp. Em casos de parasitismo intenso, a presença de múltiplos vermes pode levar à obstrução intestinal mecânica.

Do ponto de vista laboratorial, alguns pacientes apresentam eosinofilia leve (5 a 10%). No entanto, a manifestação clássica e mais característica da infecção por Dibothriocephalus latus é a anemia megaloblástica secundária à deficiência de vitamina B12. O parasita possui grande afinidade por essa vitamina, competindo com o hospedeiro pela absorção intestinal.

Estudos mostram que cerca de 40% dos infectados apresentam níveis reduzidos de vitamina B12, mas apenas 2% evoluem para anemia clínica. Quando a deficiência é acentuada, podem surgir pancitopenia, glossite, dispneia e distúrbios neurológicos, como a degeneração combinada subaguda da medula espinhal e neuropatias periféricas.

Assim, embora muitas infecções sejam silenciosas, a difilobotríase pode causar repercussões hematológicas e neurológicas significativas em casos de carência vitamínica grave.

Diagnóstico da difilobotríase

O diagnóstico da difilobotríase pode ser sugerido pela presença de anemia megaloblástica e deficiência de vitamina B12, achados característicos da infecção por Dibothriocephalus latus.

No entanto, a confirmação é feita pela identificação de ovos ou proglotes nas fezes do paciente.

Os ovos apresentam um opérculo (tampa) típico, característica que os diferencia de outros cestódeos, medem cerca de 40 × 60 µm e possuem uma pequena saliência oposta ao opérculo. Devido à grande quantidade de ovos eliminados, geralmente não são necessários métodos de concentração para detectá-los.

Ovo de Dibothriocephalus latus. Apresentam formato ovalado ou elipsoide, possuindo um opérculo em uma das extremidades, que pode ser pouco visível. Na extremidade abopercular, observa-se uma pequena elevação discreta. Fonte: UpToDate, 2024.

O escólex do parasita adulto, por sua vez, tem forma de colher, com bótrios ventrais usados para fixação à mucosa intestinal. Já os proglotes são mais largos que longos, e exibem um útero em forma de roseta escura, facilitando sua diferenciação das espécies de Taenia.

A) Amostra de um Dibothriocephalus latus adulto mostrando diversas proglotes, sem presença do escólex neste espécime. B) Ampliação de algumas proglotes da figura A, evidenciando o útero em formato de roseta no centro de cada proglote. C, D) Proglotes de D. latus coradas com carmim, destacando os ovários dispostos em forma de roseta. Fonte: UpToDate, 2024.

Embora a morfologia permita o diagnóstico do gênero, a identificação precisa da espécie requer técnicas moleculares, como análise de DNA. Em alguns casos, o verme pode ser visualizado diretamente durante uma colonoscopia ou endoscopia por cápsula, auxiliando na confirmação diagnóstica.

Tratamento da difilobotríase 

O tratamento da difilobotríase não complicada é geralmente seguro em regime ambulatorial, sendo o praziquantel o fármaco de escolha.

Administra-se o praziquantel em dose única de 5 a 10 mg/kg para crianças e adultos. Ele atua interferindo no metabolismo do cálcio do parasita, provocando paralisia flácida. Além disso, o fármaco é metabolizado pelo CYP3A4, podendo gerar interações medicamentosas, e seus efeitos adversos incluem fraqueza, dor de cabeça, tontura, dor abdominal, febre e urticária.

Como alternativa, utiliza-se a niclosamida em alguns países, com dose única de 2 g em adultos ou 1 g em crianças acima de 6 anos, atuando ao desacoplar a fosforilação oxidativa do parasita.

Ademais, após o tratamento, recomenda-se a avaliação das fezes um mês depois para confirmar a erradicação do parasita.

Por fim, a deficiência isolada de vitamina B12 causada pela infecção geralmente normaliza-se apenas com a terapia antiparasitária, enquanto manifestações hematológicas ou neurológicas podem necessitar de suplementação adicional de vitamina B12.

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Referências

  • Durrani MI, Basit H, Blazar E. Difilobotríase (Infecção por Tênia do Peixe) [Atualizado em 25 de novembro de 2023]. Em: StatPearls [Internet]. Ilha do Tesouro (FL): StatPearls Publishing; jan. de 2025. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK540971/
  • Leder K, Weller PF. Tapeworm infections. UpToDate, 2024.

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