Introdução
Nos últimos anos, um dos sintomas psicológicos mais comuns que as pessoas experimentam é o “burnout”. A Síndrome de Burnout (SB) é caracterizada pela sensação de exaustão relacionada ao contexto ocupacional. Entretanto, esse problema advém não apenas de fatores profissionais. As manifestações, incluindo sintomas somáticos, emocionais e cognitivos, muitas vezes coexistem com a depressão e a ansiedade. As semelhanças entre esses transtornos mentais podem levar a falsos diagnósticos, consequentemente a tratamentos inadequados
Síndrome de burnout
De forma sucinta podemos dizer que a Síndrome de Burnout (SB) é resultante de estresse crônico. Afeta predominantemente as populações ocupadas, ocorre com maior frequência em grupos que possuem uma alta carga de trabalho combinado com condições de trabalho estressantes
Apesar do burnout ter ganhado visibilidade nos últimos anos, os primeiros estudos dessa síndrome tiveram início na década de 1970 por Herbert Freudenberger, um psiquiatra, e Christina Maslach, uma psicóloga social. Sendo inicialmente caracterizada por uma tríade sintomatológica.
Tríade sintomatológica da SB descrita por Maslach et al. ( 1996):
- Exaustão: sentimentos de estresse, especificamente fadiga crônica resultante de demandas excessivas de trabalho
- Cinismo : refere-se a uma atitude apática ou distanciada em relação ao trabalho em geral e às pessoas com quem se trabalha; levando à perda de interesse pelo trabalho, e sentindo que o trabalho perdeu o seu significado.
- Falta de eficácia profissional: Sentimentos reduzidos de eficiência, realização bem-sucedida e realização tanto no trabalho quanto na organização.
Apesar das manifestações clínicas descritas anteriormente, a literatura psiquiátrica questiona a existência de uma “síndrome de burnout”: ela não está descrita no DSM-5 nem no CID-10, apesar de muitos médicos fazerem referência a ela com o código Z73.0 (“Esgotamento – Estado de exaustão vital”). Para a OMS, o burnout não é uma condição médica, mas um fenômeno ligado ao trabalho. Por conseguinte, muitos pesquisadores questionam até que ponto o burnout se diferencia da depressão e da ansiedade, ou se eles se complementam.
No cenário atual, vários profissionais estudam sobre o diagnóstico da SB. Presume-se que o diagnóstico de Burnout deve combinar a análise de todas as suas dimensões. Existem ferramentas que podem ser usadas com esse fim, os questionários Link Burnout Questionnaire (LBQ) e o Maslach Burnout Inventory – General Survey (MBI-GS). Exemplificadamente, as dimensões da exaustão estão contempladas nos dois questionários MBI-GS e LBQ, já as questões acerca da ansiedade e a sensação de ineficácia profissional estão presentes no LBQ. No entanto, essas técnicas não possuem um limiar ou valores de corte clinicamente validados para o diagnóstico concreto de Burnout
Depressão e Síndrome de burnout
De fato, há discordância entre os pesquisadores que estudam sobre a sobreposição entre Síndrome de Burnout e a depressão. A evidência para a validade discriminante do burnout em relação à depressão tem sido fraca, tanto em nível empírico quanto teórico.
Historicamente, o burnout tem sido difícil de separar da depressão, devido a sintomatologia semelhante. Ambos os distúrbios mentais estão associados a diminuição da performance, absenteísmo, anedonia e sentimentos de inutilidade, como também, podem apresentar ideação suicida.
De acordo com estudos de epigenética, existe um provável mediador, ou seja, a metilação do DNA, que pode atuar como um biomarcador de transtornos mentais relacionados ao estresse, como depressão, esgotamento e estresse crônico. Portanto, podemos observar que além das características psicológicas comuns que o burnout e a depressão parecem compartilhar, eles também parecem compartilhar uma base biológica comum.
Por outro lado, vários pesquisadores acreditam que a Síndrome de Burnout e depressão são dois diagnósticos distintos e que a exaustão emocional não está relacionada à depressão. Algumas pesquisas indicam que para distinguir esses distúrbios mentais, deve ser considerado o fator predisposto a manifestação clínica, Destacando que o burnout está relacionado ao trabalho e é específico da situação, enquanto a depressão é independente do contexto e abrangente. No entanto, deve-se notar que essa distinção pode não ser muito precisa, uma vez que fatores de risco relacionados ao trabalho para burnout possam ser os os mesmos preditores de depressão
Ansiedade e Síndrome de burnout
Embora seja menos investigada, a ansiedade é outro transtorno mental que apresenta manifestações clínicas que se sobrepõem à Síndrome de Burnout. A ansiedade é uma condição psicológica comum que atua como fator de proteção contra situações ameaçadoras.
A preocupação persistente e excessiva é a característica principal do Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG), porém essas preocupações muitas vezes são acompanhadas de sintomas físicos relacionados à hiperatividade autonômica e a tensão muscular. Entre esses sintomas são comuns a taquicardia, sudorese, insônia, fadiga, dificuldade de relaxar e dores musculares. Para o diagnóstico, é importante, também, que esses sintomas causem uma interferência no desempenho da pessoa ou um sofrimento significativo
Considerando que o burnout é resultado do estresse crônico, alguns pesquisadores sugerem que o estresse ocupacional pode de fato ser um fator de risco para sintomas de ansiedade. Além disso, estudos constataram que, quanto mais emocionalmente exausto, cínico e menos eficiente em relação ao seu trabalho um indivíduo se sentir, mais ansioso ele ficará. Da mesma forma, relatam que, interação entre as situações de trabalho e as personalidades dos indivíduos cria um estado de ansiedade e, por extensão, contribui para o aparecimento do burnout
Conclusão
Considerando a tríade sintomatológica da Síndrome de Burnout, podemos concluir semelhanças entre outros transtornos mentais. Tratando-se da depressão, essa se relaciona de forma significativa à exaustão mental, além de se relacionar com a desilusão com a profissão. Enquanto isso, a ansiedade se associa a percepção negativa sobre o trabalho.
O local de trabalho moderno é caracterizado por proporções significativas de pessoas que se sentem exaustas, sofrem de problemas de saúde, podem estar tomando antidepressivos ou outros medicamentos erroneamente, o que pode contribuir para sentimentos de eficácia diminuída. A confluência dos citados destaca a importância de esclarecer a relação entre burnout e depressão/ansiedade, de modo a evitar uma abordagem unidimensional do bem-estar do trabalhador
Durante a última década, as pesquisas sobre a relação entre esses três distúrbios mentais cresceram. No entanto, a questão de até que ponto o burnout se diferencia da depressão e da ansiedade, ou se eles se complementam, permanece sem resposta, e essa questão é crucial, pois o burnout pode ser falsamente rotulado como depressão e/ou transtornos de ansiedade, levando a técnicas de tratamento inadequadas.
Portanto, são necessários mais estudos que examinem a base psicossocial e neurobiológica da Síndrome de Burnout, bem como sua relação com outras doenças. Objetivando estabelecer um consenso clínico que caracteriza a SB e protocole critérios de diagnósticos diferenciais. Por conseguinte, construir planos de tratamento mais focados
Referência:
https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC6424886/
https://www.academiademedicina.com.br/genmedicina/alguns-comentarios-sobre-a-sindrome-de-burnout
O texto é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto.
Observação: material produzido durante vigência do Programa de colunistas Sanar junto com estudantes de medicina e ligas acadêmicas de todo Brasil. A iniciativa foi descontinuada em junho de 2022, mas a Sanar decidiu preservar todo o histórico e trabalho realizado por reconhecer o esforço empenhado pelos participantes e o valor do conteúdo produzido. Eventualmente, esses materiais podem passar por atualização.
Novidade: temos colunas sendo produzidas por Experts da Sanar, médicos conceituados em suas áreas de atuação e coordenadores da Sanar Pós.