O diagnóstico de fibromialgia permanece como um dos grandes desafios na prática clínica reumatológica. Portanto, por se tratar de uma síndrome dolorosa crônica e funcional, sua identificação exige conhecimento dos critérios diagnósticos atuais, das manifestações clínicas associadas e da exclusão de outras doenças que cursam com dor difusa.
Dessa forma, este artigo aprofunda os principais critérios clínicos utilizados no diagnóstico de fibromialgia, com base nas diretrizes do American College of Rheumatology (ACR), explorando a fisiopatologia subjacente e discutindo os avanços científicos que levaram ao abandono progressivo da dependência dos tender points.
Conceito clínico e epidemiologia
A fibromialgia é uma síndrome de dor musculoesquelética crônica, de origem não inflamatória, caracterizada por dor generalizada, fadiga, distúrbios do sono e alterações cognitivas. Portanto, p conceito de sensibilização central é hoje fundamental na compreensão do quadro clínico. Assim, essa disfunção envolve alterações no processamento da dor no sistema nervoso central, levando à amplificação de sinais nociceptivos e redução do limiar para estímulos dolorosos.
Nesse contexto, estima-se que a prevalência da fibromialgia seja de 2 a 4% da população mundial, sendo mais frequente em mulheres entre 35 e 60 anos. Além disso, em pacientes reumatológicos, a prevalência pode ultrapassar 10% (Wolfe et al., 2010). Dessa forma, tais dados reforçam a necessidade de familiarização dos médicos com os critérios e instrumentos utilizados no diagnóstico de fibromialgia.
Evolução dos critérios diagnósticos
Os tender points: critérios de 1990
Até a década de 2010, o diagnóstico de fibromialgia era fortemente baseado na identificação de tender points. Dessa forma, os critérios do ACR de 1990 requeriam que o paciente apresentasse dor difusa por pelo menos três meses, além de apresentar dor à palpação digital em pelo menos 11 dos 18 pontos anatômicos predefinidos (Wolfe et al., 1990).
Assim, apesar da boa sensibilidade e especificidade desses critérios em ambientes controlados, sua aplicabilidade clínica mostrou-se limitada. Além disso, muitos profissionais relataram dificuldade na padronização da força de palpação, além de haver flutuação dos sintomas nos pacientes, prejudicando a consistência diagnóstica.
Os novos critérios: ACR 2010, 2011 e 2016
A partir de 2010, o American College of Rheumatology propôs novos critérios clínicos que não dependem do exame físico dos tender points, mas sim de questionários e índices subjetivos que avaliam a extensão da dor e a gravidade dos sintomas (Wolfe et al., 2010). Esses critérios foram posteriormente revisados em 2011 e validados novamente em 2016, tornando-se os instrumentos mais utilizados atualmente para o diagnóstico de fibromialgia.
Os dois componentes principais são:
Índice de Dor Generalizada (IDG – WPI: Widespread Pain Index)
O IDG é obtido pela soma das regiões corporais dolorosas nos últimos sete dias. As 19 áreas são divididas em:
- Região cervical
- Ombros direito e esquerdo
- Braços direito e esquerdo
- Antebraços direito e esquerdo
- Mandíbula direita e esquerda
- Tórax
- Abdome
- Região lombar
- Dorso superior
- Quadris direito e esquerdo
- Coxas direita e esquerda
- Pernas direita e esquerda
Pontuação: 0 a 19.
Escala de Gravidade dos Sintomas (EGS – Symptom Severity Scale)
Avalia quatro componentes: fadiga, sono não restaurador, sintomas cognitivos e sintomas somáticos adicionais (ex. cefaleia, cólon irritável, parestesias bem como dor abdominal). Assim, cada item é pontuado de 0 (ausente) a 3 (severo), totalizando uma pontuação entre 0 e 12.
Critérios diagnósticos combinados (ACR 2016)
O diagnóstico de fibromialgia é estabelecido quando as seguintes condições são atendidas:
- WPI ≥ 7 e EGS ≥ 5, ou WPI entre 4–6 e EGS ≥ 9
- Os sintomas estão presentes há pelo menos 3 meses
- Não há outro distúrbio que justifique os sintomas
Assim, é fundamental frisar que esses critérios são validados para uso tanto em ambientes especializados quanto na atenção primária, aumentando sua aplicabilidade clínica.
Importância da exclusão de diagnósticos diferenciais
Um aspecto central no diagnóstico de fibromialgia é a exclusão de doenças que possam justificar os sintomas do paciente. Dessa forma, entre os principais diagnósticos diferenciais, destacam-se:
- Lúpus eritematoso sistêmico
- Polimialgia reumática
- Hipotireoidismo
- Espondiloartrites
- Síndrome de Sjögren
- Depressão maior e transtornos ansiosos
Exames laboratoriais são importantes apenas para essa exclusão. Não há biomarcadores específicos para fibromialgia.
Neurofisiologia da dor e sensibilização central
Estudos de neuroimagem funcional e pesquisa clínica têm demonstrado que os pacientes com fibromialgia apresentam disfunção no processamento central da dor. Além disso, há hiperatividade em áreas como o córtex cingulado anterior, insula e tálamo, além de redução da atividade de vias inibitórias descendentes.
Essas alterações explicam a amplificação da percepção dolorosa mesmo na ausência de estímulo periférico inflamatório ou estrutural. O diagnóstico de fibromialgia passa, portanto, a considerar o estado funcional do sistema nervoso central como parte integrante da avaliação.
Questionários complementares
Além dos critérios formais, questionários como o Fibromyalgia Impact Questionnaire (FIQ) são utilizados para mensurar a gravidade e impacto funcional da síndrome. O FIQ é útil para seguimento clínico, ajuste terapêutico e avaliação de resposta ao tratamento.
Diagnóstico de fibromialgia e comorbidades
O diagnóstico de fibromialgia frequentemente se apresenta de forma complexa, pois costuma coexistir com diversas outras condições clínicas. Entre as mais associadas, destacam-se as chamadas síndromes funcionais. Nesse grupo, estão incluídas a síndrome do intestino irritável, a síndrome da fadiga crônica, a enxaqueca e as disfunções temporomandibulares. Essas condições compartilham mecanismos fisiopatológicos semelhantes, como alterações na modulação da dor e na resposta ao estresse, o que pode contribuir para a sobreposição dos sintomas.
Além dessas síndromes, observa-se uma forte associação da fibromialgia com transtornos psiquiátricos, especialmente aqueles relacionados ao humor. A depressão maior e o transtorno de ansiedade generalizada são frequentemente diagnosticados em pacientes com fibromialgia, o que reforça a importância de uma abordagem interdisciplinar. Esses transtornos podem agravar a percepção da dor, interferir na qualidade do sono e comprometer ainda mais a funcionalidade do paciente.
Portanto, reconhecer e avaliar essas comorbidades é fundamental para um manejo clínico eficaz. Ao integrar o tratamento das síndromes associadas e dos transtornos do humor, é possível promover maior alívio dos sintomas, melhorar a qualidade de vida e reduzir a sobrecarga emocional do paciente. Ademais, a identificação precoce dessas condições permite intervenções mais direcionadas, evitando terapias ineficazes ou excessivamente centradas em um único diagnóstico.
Em resumo, a fibromialgia raramente ocorre de forma isolada. Assim, considerar o paciente de forma global, com atenção às múltiplas comorbidades, representa um passo essencial para uma prática clínica mais resolutiva e humanizada.
O papel do médico no diagnóstico de fibromialgia
É responsabilidade do médico assistente conduzir uma anamnese detalhada e empática, identificar padrões de dor não anatômicos, avaliar a presença dos critérios clínicos e acolher o paciente, evitando estigmatizações. O diagnóstico de fibromialgia não deve ser de exclusão, mas sim de inclusão, com base em critérios positivos.
Estude com o SanarFlix!
No SanarFlix, você estuda com as melhores aulas, resumos prontos, mapas mentais e questões comentadas por quem já passou pela residência.
Tudo num só lugar, sem enrolação, e com conteúdo que realmente cai nas provas.

Veja também:
Referências bibliográficas
- Martinez JE, Martinez LC. Revisitando a fibromialgia: o desafio diagnóstico continua. Rev.Fac.Ciênc.Méd.Sorocaba 2010;12(4):6-9.
- Wolfe F, Clauw DJ, Fitzcharles M, Goldenberg DL, Katz RS, Mease P et al. The American College of Rheumatology Preliminary Diagnostic Criteria for Fibromyalgia and Measurement of Symptom Severity. Arthritis Care Res. 2010; 62(5):600-10.
- Dias DN, et al. Prevalência de fibromialgia em pacientes acompanhados no ambulatório de cirurgia bariátrica do Hospital de Clínicas do Paraná – Curitiba. Rev Bras Reumatol. 2017.
- AMERICAN COLLEGE OF RHEUMATOLOGY. Fibromyalgia. Disponível em: https://www.rheumatology.org/I-Am-A/Patient-Caregiver/Diseases-Conditions/Fibromyalgia. Acesso em: 18 jun. 2025.