Diabetes Mellitus: Impactos na COVID-19 |Colunistas

  • abril 26, 2021
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Diabetes Mellitus: Impactos na COVID-19 |Colunistas

1.  Introdução

O diabetes mellitus é um conjunto de doenças metabólicas definidas pela hiperglicemia resultante de falhas na secreção da insulina, na ação da insulina ou de ambos. A concentração elevada de glicose no sangue, quando crônica, pode gerar danos, disfunção e falência de vários órgãos, principalmente dos olhos, dos rins, dos nervos, do coração e dos vasos sanguíneos. A insulina é um hormônio produzido pelas células beta do pâncreas que, dentre suas várias funções, aumenta a captação de glicose do sangue pelas células, principalmente células musculares e adiposas.

Classificado em tipo 1 e tipo 2, o diabetes mellitus é considerado uma doença crônica não transmissível na qual a ausência de tratamentos e cuidados pode gerar elevada morbidade aos pacientes.

O diabetes mellitus tipo 1 é uma condição na qual há destruição autoimune das células beta do pâncreas, resultando em prejuízos na produção de insulina. Esse tipo de diabetes mellitus é diagnosticado em crianças e adolescentes e exige o uso de insulina para o controle glicêmico.

O diabetes mellitus tipo 2 é o mais prevalente, abrangendo de 90-95% dos casos. Os indivíduos portadores do diabetes mellitus tipo 2 apresentam resistência à insulina, devido a comorbidades prévias, como obesidade, hipertensão e dislipidemia. Apesar de haver prejuízos na ação da insulina, esses pacientes geralmente não necessitam do uso de insulina.

Os pacientes diabéticos possuem risco aumentado de desenvolverem infecções agudas e crônicas quando comparados aos indivíduos não diabéticos em razão de perturbações no sistema imune. Dessa forma, a desregulação metabólica associada a essa doença acarreta risco aumentado de impactos graves de doenças infecciosas como a COVID-19.

Palavras-Chave: “Covid-19 e diabetes mellitus”; “Covid-19 e diabetes tipo 2”; “diabetes e hipertensão Covid-19”.

2.  Diabetes Mellitus e COVID-19

Pessoas com diabetes e outras doenças crônicas são afetadas de forma mais grave pela COVID-19. Estudos apontam que a infecção pela COVID-19 é capaz de gerar uma carga intensa de estresse metabólico, na qual há grande liberação de hormônios hiperglicemiantes, como os glicocorticoides e as catecolaminas, levando ao aumento da glicose sanguínea. Complicações do diabetes, como cetoacidose, também podem estar presentes em pacientes com COVID-19.

Por outro lado, um estudo retrospectivo realizado em Wuhan, na China, apontou que ao menos 10% dos pacientes com diabetes mellitus tipo 2 e COVID-19 apresentaram episódios de hipoglicemia. A hipoglicemia tem demonstrado mobilizar monócitos pró-inflamatórios e aumentar a atividade plaquetária, contribuindo para o aumento da mortalidade cardiovascular em pacientes diabéticos.

A resistência à insulina pode ainda promover a síntese de substâncias tóxicas e deletérias ao organismo, tais como os produtos finais de glicação avançada e citocinas pró-inflamatórias, que geram estresse oxidativo e agravam os riscos de infecção e mau prognóstico.

A hiperglicemia persistente pode levar a uma série de desequilíbrios metabólicos, que juntos aumentam a produção desses produtos tóxicos e ativam vias inflamatórias, promovendo disfunção do sistema imune. A resposta imune inata está prejudicada de diversas formas no diabetes, em particular, os neutrófilos exibem defeitos em quase todas as suas funções, como fagocitose, liberação de enzimas líticas e espécies reativas de oxigênio, migração para os locais de inflamação e apoptose. Associado a isso, especialmente em casos severos de COVID-19, há redução do número e exaustão dos linfócitos T CD4+ e TCD8+, causando prejuízos à resposta imune.

A severidade da COVID-19 em pacientes diabéticos também pode ser explicada pelo dano pulmonar causado pelo estresse oxidativo resultante da hiperglicemia, que afeta a microcirculação pulmonar e lesa o interstício pulmonar. Discute-se ainda o envolvimento da enzima conversora de angiotensina 2 (ECA-2) na patogenia das complicações pulmonares. Essa enzima é encontrada em órgãos como rins, pulmões, pâncreas e coração e possui a função de converter a angiotensina 2 em angiotensina 1-7 e ativar receptores que são potentes vasodilatadores, se opondo ao efeito vasoconstritor da angiotensina 2.

O novo coronavírus utiliza a ECA-2 na superfície das células epiteliais para se ligar e entrar nas células. Doenças como diabetes e hipertensão ativam o sistema renina angiotensina em diferentes tecidos. Além do que, o tratamento para essas doenças é frequentemente feito com inibidores da enzima conversora de angiotensina e bloqueadores dos receptores da angiotensina, que podem levar a aumento da ECA-2 de forma compensatória, facilitando a absorção viral e o risco de infecção grave para diabéticos. Há evidências também de que o vírus pode utilizar a ECA-2 no pâncreas e causar dano agudo. O dano pancreático afeta a produção de insulina e pode levar a diabetes agudo ou pode piorar o prognóstico do diabetes.

Por fim, os pacientes diabéticos com 65 anos ou mais estão mais vulneráveis a complicações iniciais, a sintomas mais graves, ao envolvimento de múltiplos órgãos e à morte por COVID-19 quando comparados com pacientes jovens.

3.  Tratamento do Diabetes Mellitus Durante a Pandemia

O manejo da glicose sanguínea em pacientes diabéticos durante a pandemia prejudicou-se severamente em razão da drástica mudança dos estilos de vida, dos esquemas terapêuticos e dos efeitos terapêuticos. A doença e o isolamento social têm desafiado os sistemas de saúde de diversas formas. Os profissionais de saúde voltaram todos os seus esforços para receber e tratar os pacientes com a COVID-19, o que gerou fragmentação dos cuidados especiais às pessoas diabéticas e com outras doenças crônicas.

Além disso, o medo de contrair a infecção gerou uma menor exposição dos pacientes diabéticos aos serviços de saúde. Embora esse fato possa ser suprido até certo ponto com formas alternativas de cuidado como teleconsultas, o monitoramento das complicações do diabetes, do estado psicológico dos pacientes e do acesso às medicações, bem como o uso correto, tornou-se escasso e ineficaz. Há uma enorme carência de atenção multiprofissional aos pacientes com doenças crônicas, a fim de que haja evolução terapêutica favorável e individualizada, tendo em vista que esses pacientes demonstram risco elevado para as formas graves da COVID-19.

4.  Conclusão

O diabetes mellitus é uma doença crônica não transmissível e sistêmica, que pode causar elevada morbidade e piora da qualidade de vida dos portadores quando não tratada. No contexto da pandemia por COVID-19, estudos relacionaram o diabetes com o desenvolvimento de formas mais graves da COVID-19. Comprovou-se que em pacientes diabéticos o sistema imune apresenta diversas alterações negativas, o que é acentuado com a infecção viral.

Além disso, a mortalidade pela COVID-19 foi maior em pacientes diabéticos. A patogenia da COVID-19 ainda não foi totalmente esclarecida, necessitando de mais estudos sobre o assunto. A população idosa e diabética é a mais vulnerável a complicações da COVID-19. Existe ainda um abismo na saúde pública quanto ao cuidado dos pacientes diabéticos diante da pandemia, exigindo medidas que auxiliem esses pacientes na adesão e continuação do tratamento.

Autor: Gustavo Paiva Azevedo

Instagram: @azevedoguu

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