Segundo
a Federação Internacional de Diabetes (International Diabetes Federation, IDF),
diabetes é uma doença crônica caracterizada pela ação ineficiente da insulina,
o que leva ao aumento dos níveis de glicose no sangue (hiperglicemia). Existem
três formas da doença: tipo 1, tipo 2 e diabetes gestacional¹.
- Tipo 1: também chamada de
insulinodependente, infanto-juvenil ou imunomediado, é uma condição autoimune a
qual se manifesta, frequentemente, na infância e exige tratamento com insulina². - Tipo 2: ocorre em virtude de maus hábitos
de vida e acomete, principalmente, adultos maiores de 40 anos. Corresponde a
90% dos casos e tem como uma das causas a hiperglicemia. É pouco sintomática e
pode permanecer por anos sem diagnóstico, o que favorece o surgimento de
complicações, sobretudo, neurológicas, como demências². - Gestacional: aumento da glicemia durante a
gravidez o qual, normalmente, normaliza após o parto. Mulheres que têm diabetes
gestacional possuem maior risco de desenvolver diabetes tipo 2 tardiamente².
Hiperglicemia
De
acordo com a Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD), entende-se por
hiperglicemia níveis de glicose sanguínea superiores a 100 mg/dl em jejum ou
hemoglobina glicada (HbA1c) superior a 7,0%³.
A
hiperglicemia crônica, ou seja, alto nível glicêmico a longo prazo, é um dos
principais fatores de risco para desenvolvimento de diabetes tipo 2 bem como de
complicações e aumento da mortalidade³.
Complicações
As
principais complicações do diabetes são: nefropatia, neuropatia periférica e
retinopatia⁴. Não obstante, a Associação Nacional de Atenção ao Diabetes (ANAD)
salienta a crescente associação do diabetes a patologias demenciais⁵.
Demências
Caracteriza-se
demência como um decréscimo cognitivo comparado à cognição prévia do
indivíduo⁶. É uma degeneração crônica e, geralmente, irreversível⁷.
Os
principais sintomas das demências são perda de memória, dificuldade de
localização temporal e espacial, dificuldade de atenção e concentração e
distúrbios neuropsíquicos, como depressão, agitação e agressividade. Os tipos
de demência mais associados a diabetes mellitus são doença de Alzheimer e
demência vascular⁷.
A
Associação Brasileira de Alzheimer, ABRAZ, especifica esses tipos:
- Doença de Alzheimer: é o tipo mais comum
de demência (60 a 70% dos casos no mundo, de acordo com a World Health
Organization, 2015). A causas não são bem elucidadas, porém, sabe-se que há redução
de acetilcolina na fenda sináptica, formação de placas beta amiloides, fosforilação
de proteína tau, apoptose, inflamação e degeneração cerebral⁸. - Demência vascular: segunda forma mais
comum de demência. É caracterizada por lesões cerebrais vasculares e possui
duas subdivisões mais comuns, Doença por multienfartes cerebrais e Doença de
Biswanger⁹. Os fatores de risco para o desenvolvimento são hipertensão
arterial, diabetes mellitus, hipercolesterolemia e doenças cardiovasculares.
Os
sintomas não são homogêneos entre os tipos de demência, tampouco dentro do
mesmo tipo. A clínica é muito variável e progressiva, geralmente cursa com
rápida evolução e exacerbação de sintomas.
A
terapêutica acerca das demências é pouco efetiva em relação a redução de
sintomas e a limitação da doença, além de ter efeitos colaterais que muitas
vezes interferem da adesão ao tratamento. Por isso, é preciso intervir
preventivamente nos fatores de risco e de aceleração da doença, como a
hiperglicemia.
Hiperglicemia e Demências
Sabe-se
que a hiperglicemia crônica é um fator de risco para o desenvolvimento de
demências.
Crane
et al. realizaram estudo clínico para avaliar os níveis glicêmicos e sua
relação com o surgimento de demências e concluíram que altos níveis de glicose na
corrente sanguínea aumentam o risco de demência mesmo em indivíduos sem
diabetes.
Grodstein
et al. observaram que quanto maior o tempo de diabetes, pior é o déficit
cognitivo do paciente e que o tratamento de diabetes é um fator protetor da
cognição.
De
acordo com Mayeda et al., pacientes com diabetes tipo 2 têm entre 50 e 100%
mais chances de desenvolverem demências em relação à população que não possui
diabetes.
Segundo
Biessels et al., sobremaneira o déficit cognitivo é tido como uma comorbidade
do diabetes mellitus. Evidenciam que reduções cognitivas leves e lentamente
progressivas ocorrem em todas as idades, ao passo que reduções mais graves são
mais comuns em indivíduos maiores de 65 anos.
Hamed
et al. explicam essa associação pelas lesões cerebrais causadas em pacientes
diabéticos por meio do estresse oxidativo, neuroinflamação, disfunção
mitocondrial, apoptose, ativação da acetilcolinesterase (o que reduz os níveis
de acetilcolina no córtex cerebral), neurodegeneração e fosforilação de
proteínas tau.
Pereira
et al. elucidam que a hiperglicemia associada a hiperinsulinemia ou resistência
a insulina (condição comum em diabéticos e pré-diabéticos) aumenta em 3 vezes o
risco de atrofia cerebral e declínio cognitivo em relação aos processos
fisiológicos de envelhecimento.
Matioli
et al. realizaram um estudo prospectivo com 1037 participantes e constataram
que o tipo mais comum de demência em diabéticos e não diabéticos foi a doença
de Alzheimer, seguida da demência vascular em indivíduos diabéticos.
Recentemente,
viu-se crescer a menção do termo “diabetes tipo 3”. Leszek et al. definem o
“diabetes tipo 3” como “diabetes cerebral”, uma vez que constatado que cérebros
de pacientes com Alzheimer têm menor expressão de insulina e receptores
neuronais de insulina comparados a indivíduos da mesma idade e sem diabetes.
Prevenção e Tratamento
Existem
muitas formas de prevenir o surgimento e o agravamento de diabetes mellitus, o
que configura uma prevenção de doenças demenciais, quando tidas por
complicações do diabetes.
Uma
dessas medidas é o monitoramento glicêmico, o qual pode ser feito pela glicemia
de jejum em laboratório e pela glicemia capilar em casa. Porém, a forma mais
fidedigna de acompanhamento, segundo a Sociedade Brasileira de Diabetes, é a
hemoglobina glicada, a qual evidencia os valores glicêmicos dos últimos 100
dias, em média³.
A
SBD define as seguintes metas glicêmicas para adultos com diabetes mellitus:
- Pré-prandial: < 100 mg/dL
- Pós-prandial: < 160 mg/dL
- Hemoglobina glicada: < 7,0%
O
tratamento preconizado envolve mudanças no estilo de vida, como dieta
balanceada com restrição de açúcar e redução de carboidratos, consumo de
gorduras, como ômega 3, e prática regular de atividade física, pelo menos 150
minutos por semana (50 minutos de atividade 3 vezes por semana).
O
diabetes tipo 1 exige o tratamento com insulina. Já o tipo 2 precisará de
insulina em casos mais graves. Existem diversas drogas para o controle efetivo
do tipo 2, como as sulfonilureias, biguanidas e glitazonas; entretanto, é
imprescindível associar à nutrição adequada.
A
principal forma de prevenção de demência é a prevenção de seus fatores de
risco. Portanto, é preciso realizar controle glicêmico, controle pressórico
(indivíduos hipertensos), realizar atividade física, ter uma alimentação
balanceada e estimular a cognição.
O
tratamento medicamentoso de demências tem poucas opções e se mantem ineficaz.
As principais opções terapêuticas são os inibidores de colinesterase e
antagonista de memantina.
Novas
estratégias terapêuticas surgem na literatura científica e na indústria
farmacêutica, como os medicamentos a base de cannabis. Apesar de terem efeitos
animadores e serem permitidos pela ANVISA, ainda são pouco prescritos e pouco
acessíveis no Brasil¹⁶.
Considerações Finais
Apesar
de ser uma doença silenciosa, de modo geral, o diabetes é um fator de risco
para diversas patologias graves, como a doença de Alzheimer e demência vascular.
A
Sociedade Brasileira de Diabetes preconiza o rastreamento e o diagnóstico
precoce do diabetes, sobretudo tipo 2, a fim de prevenir a instalação e o
agravamento de comorbidades.
Além disso, o controle glicêmico é a medida mais importante para a redução de sintomas das complicações do diabetes. Portanto, é possível reduzir a morbidade mesmo após o diagnóstico de doenças demenciais.