1.O corpo humano em movimento
Não é
novidade que o corpo humano apresenta uma organização anatômica e fisiológica
que revelam situações absolutamente fascinantes. Todos os aspectos micro ou
macroscópicos, e a combinação de diversos componentes, acabam por gerar
estruturas de funcionalidades impressionantes. O simples ato de pensar, as
batidas do coração, o funcionamento do sistema imunológico, são exemplos de
situações coordenadas que, ao envolverem diversos fatores, constroem sistemas
que transformam o organismo humano em uma máquina próxima da perfeição.
Nesse
contexto, um dos sistemas mais ricos, complexos e interessantes de toda essa
maquinaria é o sistema motor. Sua apresentação de diversos fatores interligados
é o que permite, por exemplo, que pessoas se locomovam, apanhem objetos, mudem de
posição, pratiquem esportes, toquem instrumentos musicais, dentre outras inúmeras
atividades. Involuntariamente, quando pensamos em movimento, o que vem à nossa
mente é a percepção de músculos e ossos atuando em conjunto, de forma a
possibilitar a mobilidade humana. Entretanto, esse é apenas um pedaço da imensa
complexidade que envolve o sistema motor.
Dessa forma,
a compreensão do que nos permite mover e realizar nossas atividades diárias
parte de dois pontos chave: a neuroanatomia e a neurofisiologia. É necessário
avaliar a organização nervosa do sistema motor e, para isso, devemos entender que
existem inúmeras vias neurais envolvidas na motricidade, o que forma uma rede
bastante complexa, e é isso que garante a sua movimentação. Por exemplo, caso
deseje ir até a cozinha beber um copo de água, você realiza os atos de levantar,
andar, pegar o copo, enchê-lo e, finalmente, levá-lo até a boca. Por mais que sua
ação voluntária pareça algo simples, ela é absolutamente coordenada de forma
involuntária por componentes da via motora essenciais para que esse processo
ocorra. A esse controle involuntário chamamos de coordenação motora, que, por
sua vez, ainda pode ser dividida em grossa e fina. A grossa é a que permitiu
que você levantasse de sua confortável cadeira para andar até a cozinha,
enquanto que a fina possibilitou seu movimento de preensão com as mãos para
pegar o copo e é a mesma que te permite tocar uma música no violão ou possibilita
um cirurgião fazer uma incisão com precisão milimétrica. Mas como essas vias se
organizam e o que as compõe?
2.Neuroanatomia e neurofisiologia do movimento
Para
compreender como funcionam os movimentos finos, devemos primeiramente saber
quais são as principais estruturas anatomofisiológicas do corpo humano
responsáveis por essa função. Nesse sentido, avaliaremos as áreas corticais e
as vias eferentes diretamente envolvidas na movimentação e execução do
movimento, bem como aquelas envolvidas na coordenação, pois é a partir do
conhecimento delas que é possível entender como se dá o controle motor fino.
2.1. Córtex motor e vias eferentes somáticas – os ordenadores do movimento
O sistema
motor somático é construído pelos inúmeros músculos estriados esqueléticos e
por todos os neurônios que os comandam. Os constantes processos de
ativação/inibição de músculos específicos é o que vai possibilitar uma ação
coordenada, permitindo ao ser humano a realização de suas atividades diárias. O
mais incrível disso é que, ao pensar em realizar uma ação, não é necessário que
você escolha de forma consciente quais músculos deverá contrair e quais deverá
inibir: é necessário apenas sinalizar a intenção e o resto acontece de forma
automática. Para isso, são inúmeras as vias envolvidas, de tal forma que elas
se projetam direta ou indiretamente dos centros motores superiores, para tronco
encefálico, medula e por fim até seu músculo alvo.
2.1.1. Áreas corticais envolvidas no movimento
As regiões
cerebrais envolvidas no movimento podem ser representadas por meio de quatro
grandes áreas motoras. São elas: primária, suplementar, pré-motora e cingulada.
Área motora
primária
Localizada
no giro pré-central, é a responsável pelo comando dos movimentos voluntários.
Área motora
suplementar e área pré-motora
A primeira se localiza em parte da área 6 de Brodmann, na face medial do giro frontal superior, enquanto a segunda se coloca a frente da área motora primária, ocupando toda área 6, na face lateral do hemisfério cerebral. As duas regiões estão mais relacionadas com o planejamento dos movimentos voluntários e não propriamente com a execução da motricidade em si.
Área motora
cingulada
Apresenta posição na face medial do córtex imediatamente acima do corpo caloso. Aparentemente, essa região está envolvida com os movimentos com conotação emocional.

2.1.2. Tratos descendentes
Tratos corticospinais
Nosso
organismo contém dois tratos corticospinais. Eles recebem essa nomenclatura
porque se originam do córtex cerebral, nas áreas 4 e 6 de Brodmann, áreas
motoras primárias e suplementar, respectivamente, seguindo pela medula. As
fibras desses tratos seguem um trajeto e passam pelo córtex, coroa radiada,
perna posterior da cápsula interna, base do pedúnculo cerebral, base da ponte e
pirâmide bulbar. No bulbo, na decussação das pirâmides, parte das fibras seguem
ventralmente, formando o Trato Corticospinal Anterior (TCA), enquanto a outra
parte cruza a decussação para formar o Trato Corticospinal Lateral (TCL).
Devido a essa diferenciação anatômica, cada um desses tratos terá uma função no
movimento, de tal forma que o TCA é responsável pelo controle voluntário da
musculatura axial, enquanto que o TCL atua sobre a musculatura distal dos
membros, sendo o principal responsável pela motricidade voluntária do homem, o
que inclui os movimentos finos e precisos.

Trato
Corticonuclear
Esse feixe
de fibras tem funcionalidade semelhante à do trato corticospinal. No entanto,
nesse caso, ele transmite informações a motoneurônios do tronco encefálico,
atuando principalmente no controle de nervos cranianos.
2.2
Cerebelo e núcleos da base – os coordenadores do movimento
Apesar da
ordenação realizada pelos córtices motores e pelos tratos descendentes serem
importantes, a velocidade e precisão dos movimentos dependem de um sistema
ainda mais complexo. É nesse contexto que estão inseridos o cerebelo e os
núcleos da base, que são atores fundamentais no controle da movimentação,
atuando sobretudo na preparação da motricidade e na harmonia de movimentos
menores que te garantirão a intenção final. Ambas as estruturas apresentam um
componente em comum, que é um circuito básico de retroação, que garante um
diálogo numa via de mão dupla com o córtex cerebral, conexões essas
intermediadas pelo tálamo.
Cerebelo
Esse órgão
apresenta uma organização anatômica e funcional bastante complexa. No entanto,
para fins de compreender sua relação com o movimento, podemos simplificar o
processo e dividi-lo em 3 porções: o vestibulocerebelo, o espinocerebelo e o
cerebrocerebelo. O vestibulocerebelo se relaciona com o lobo floculonodular e
se conecta com os núcleos vestibulares do tronco encefálico, atuando, sobretudo,
na manutenção da postura e no equilíbrio. Já o espinocerebelo tem correlação
com o verme e a zona intermediária, que, por sua vez, se conectam profundamente
com os núcleos de fastígio e interpostos, respectivamente. Em termos de função,
o espinocerebelo atua como auxiliar na execução motora. Por fim, o
cerebrocerebelo corresponde aos hemisférios laterais, conectando-se aos núcleos
denteados. Esses núcleos apresentam conexões eferentes com os córtices motor,
pré-motor e pré-frontal, via tálamo. Logo, o cerebrocerebelo é importantíssimo
para a coordenação de movimentos mais elaborados, atuando também na integração
de informações sensoriais com os comandos de ordem cognitiva ou emocional.
Núcleos da Base
Diferentemente do cerebelo, os núcleos da base não são um órgão bem definido, mas, sim, um conjunto de núcleos localizados na base do cérebro e mesencéfalo que se conectam entre si e com demais estruturas encefálicas envolvidas no movimento, integrando, portanto, o sistema de controle motor. Essas estruturas são o núcleo caudado, putâmen, globo pálido (interno e externo), substância negra e núcleo subtalâmico. Os núcleos da base conectam o córtex cerebral com um conjunto de neurônios motores superiores das áreas motora primária, pré-motora e do tronco encefálico por meio basicamente de duas vias, a via direta e a via indireta. Ambas são vias de retroação, já que a informação saí do córtex cerebral para os núcleos da base e depois retornam para ele. De forma simplificada, a via direta promove maior aumento da atividade cortical, enquanto a indireta reduz essa atividade de tal forma que as duas, atuando de forma paralela, contribuem para a iniciação e término dos movimentos corretos, funcionando ainda como um mecanismo que impede que outras movimentações indesejadas ocorram.
3.
Movimento
voluntário organizado e coordenação motora fina
Compreendendo
o básico da organização anatômica envolvida na movimentação é possível perceber
o quão complexa é a organização de sistemas que te permitirá realizar as
atividades diárias refinadas, que correspondem à coordenação motora fina. No
entanto, conhecer essa anatomia de forma isolada não nos garante um
entendimento completo e, por isso, avaliar como tudo isso se relaciona é
fundamental.
O ato motor
em si, e tomamos como exemplo um neurocirurgião que fará uma incisão
extremamente precisa na medula, inicia-se com a intenção dele em realizar tal
movimento. Nessa fase está a etapa de preparação, em que estão envolvidas as áreas
corticais de associação e sua conexão com o cerebelo e com os núcleos da base. Subsequentemente,
temos a fase de elaboração do programa motor, que é quando as áreas motoras
primárias e pré-motora do nosso exímio cirurgião serão ativadas estimulando as
corretas conexões com motoneurônios específicos. Por fim, temos a execução que,
além do movimento em si, será aquela na qual ocorrerão os ajustes do movimento
iniciado, com vistas a garantir que o corte seja feito exatamente no local
intencionado e com a pressão e dimensão corretas.
Portanto, concluímos que é graças a esse processo dotado de inúmeras estruturas participantes que os movimentos finos podem ser realizados. Sejam eles voltados para um ato operatório difícil, como no exemplo do cirurgião, ou em outras atividades como escrever, tocar um violino sem errar as notas e costurar, a execução de um controle motor fino perfeito só é possível devido às interconexões entre cérebro, cerebelo, núcleos da base, tratos, nervos, músculos e ossos. São esses fatores interligados que garantem a complexidade e a beleza desse sistema importante do organismo humano.
Autor: Lucas
Diniz Peixoto de Melo
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