Na roda de amizades ou durante aquela conversa particular entre amigos (as) você provavelmente já chegou a alguma história sobre alguém que estava tramando contra outra pessoa ou contra você mesmo, sobre uma possível traição, ou até mesmo já teve a impressão de que alguém estava olhando torto ou falando de você nas suas costas. Situações assim são bem comuns e podem ser bem desconfortáveis.
No entanto, quando este sentimento passa a ser quase a todo o momento e passa a atrapalhar relações afetivas é preciso ter cuidado, podemos estar diante de um caso de Transtorno de personalidade paranoide. Vejamos quais são as características as quais devemos ficar atentos e quando buscar ajuda.
Definições
O que são transtornos de personalidade?
São padrões persistentes de experiência intima ou de um comportamento que se diferem acentuadamente do padrão do indivíduo, afetando pelo menos duas áreas entre cognição, afetividade, funcionamento interpessoal e controle dos impulsos. O padrão de transtornos desse tipo é bem flexível, uma vez que há uma grande variedade se causas, sendo elas sociais e pessoais. É válido ressaltar que não são condições não são congênitas, ou seja, são desenvolvidas durante a vida, geralmente na adolescência ou na fase adulta. São estáveis e de longa duração, não tendo nenhuma relação com abuso de substancias ou doenças orgânicas.
O transtorno de personalidade Paranoide
Dentro dos transtornos de personalidade (TP), está incluso no grupo A, conhecido como Bizarro ou como transtornos do espectro esquizofrênico, uma vez que todos que estão inclusos são pré-dispostos ou relacionados à esquizofrenia.
O comportamento paranoide é uma característica da esquizofrenia, encontrada também em outros transtornos, esquizofrênicos ou não. Embora seja presente em outros, o quadro Paranoide tem características próprias e muitas distinções dos demais casos, sendo uma das principais a ausência de delírios e alucinações bizarras.
A linha do tempo de Transtorno paranoide ponta uma linha crescente de casos, predominante em pacientes homens. Há pesquisas que demonstram uma prevalência de quadros em parentes de pacientes esquizofrênicos. Em amostras clínicas aponta-se que o transtorno ocorra em 0,5% a 2,5% da população geral (2005) e 2,3% a 4,4% da população norte-americana (2018).
Características
- Apresentam uma desconfiança global, persistente e inadequada dos outros;
- Sensibilidade excessiva a contratempos e rejeições;
- Tendência a guardar rancor se recusa a perdoar;
- Tendência a distorcer e interpretar erroneamente ações neutras ou amistosas como hostis ou desonrosas;
- Uma suspeita recorrente, sem justificativa, sobre a lealdade ou fidelidade de amigos ou parceiros;
- Tendência a explicar eventos próximos com teorias conspiratórias e sem fundamento;
- Suspeita dos motivos das pessoas e supõem que elas pretendem explorá-los, prejudicá-los ou iludi-los;
- Temer que as informações que compartilham venham a ser usadas contra eles;
- São cautelosos, tensos e hipervigilantes;
- Examinam os ambientes em busca de indícios de possíveis ataques, decepção ou traição;
- Encontram evidencias para essa sensação de que estão tramando contra ele, interpretando erroneamente eventos benignos (como um olhar em sua direção) como humilhantes ou ameaçadores;
- Reagem exageradamente e rapidamente resposta a insultos, ou traições percebidas ou reais, tornando-se muito irritados e rebatendo;
- São incapazes de perdoar ou esquecer esses incidentes. Alimentam rancores de longo prazo contra seus supostos traidores;
- Embora os indivíduos com essa condição pareçam silenciosa e tensamente distantes e hostis, alguns deles são irritados e combativos de forma evidente;
- São patologicamente ciumentos;
- Suspeitam que outros estão tramando contra eles e podem atacá-los de repente, a qualquer momento e sem razão;
- Ficam tão surpresos quando um amigo ou sócio demonstra lealdade que não conseguem confiar ou crer nisso;
- Elogios costumam ser mal interpretados (por exemplo, um elogio por uma nova aquisição é mal interpretado como uma crítica de egoísmo; um elogio relativo a um feito é mal interpretado como uma tentativa de coerção a desempenho melhor);
- Podem entender uma oferta de ajuda como uma crítica por não estarem tendo desempenho suficientemente bom por conta própria.
Diagnóstico
Para o diagnóstico do transtorno de personalidade paranoide os pacientes devem ter desconfiança e suspeita persistente sobre os outros e, de acordo com o DSM-5, essa desconfiança e suspeita é mostrada na presença de no mínimo 4 dos itens abaixo:
- Suspeita injustificada de que outras pessoas estão explorando, prejudicando ou enganando-os;
- Preocupação com dúvidas injustificadas sobre a confiabilidade de seus amigos e colegas de trabalho;
- Relutância em confiar em outros, temendo que as informações sejam usadas contra eles;
- Interpretação errônea das observações ou eventos benignos, como tendo um significado oculto depreciador, hostil ou ameaçador;
- Reter rancores por insultos, injúrias ou ofensas;
- Propensão a achar que seu caráter ou reputação foi atacado e rapidez para reagir com raiva ou para contra-atacar;
- Suspeitas injustificadas e recorrentes de que o cônjuge ou parceiro é infiel.
Características associadas que apoiam o diagnóstico:
- Ainda que possam parecer objetivos, racionais e não emotivos, frequentemente demonstram instabilidade afetiva, com predomínio de expressões hostis, inflexíveis e sarcásticas;
- Os transtornos da personalidade concomitantes mais comuns parecem ser: esquizotípica, esquizoide, narcisista, evitativa e borderline;
- Podem ter sua primeira aparição durante a infância e adolescência por meio de alguns comportamentos e sentimentos, tais como solidão, relacionamento ruim com os colegas, ansiedade social, baixo rendimento escolar, hipersensibilidade, pensamentos e linguagem peculiares e fantasias próprias. Já na infância podem parecer estranhas ou excêntricas para outras crianças e atrair provocações;
- Em amostras clínicas, esse transtorno parece ser mais comumente diagnosticado no sexo masculino;
- Não ocorre exclusivamente durante o curso de esquizofrenia, transtorno bipolar, depressivo com sintomas psicóticos ou outro transtorno psicótico e não é atribuível aos efeitos fisiológicos de outra condição médica.
Cuidados pós-diagnóstico
- Indivíduos com transtorno da personalidade paranoide podem desenvolver transtorno depressivo maior e podem estar sob risco aumentado de agorafobia e transtorno obsessivo-compulsivo;
- Deve-se ter atenção aos transtornos concomitantes já citados (mais comuns: esquizotípica, esquizoide, narcisista, evitativa e borderline.).
Tratamentos
A abordagem e alguns desafios
Uma das principais características de um paciente Paranoide é sua desconfiança, por isso estes evitam buscar ou aceitar intervenção psiquiatra. Sendo, portanto, na maioria das vezes levados por parentes ou amigos. Uma vez no consultório, a oportunidade não deve ser desperdiçada e deve-se usar de estratégias para ganhar a confiança e conseguir cuidar de um paciente que não confia em ninguém.
A abordagem deve ser cautelosa, de maneira atenciosa, cordial, direta, não invasiva, priorizando a franqueza, para assim construir uma confiança entre o(a) médico(a) e paciente . Caso haja alguma falha médica é recomendado que o atendente ofereça desculpas diretas, se justificável, ao invés de responder de maneira evasiva ou defensiva. Deve-se ser moderado em relação aos sentimentos de ódio, maldade e impotência projetados. As demonstrações de afeto e interesse do(a) médico(a) também não podem ser demasiadas, pois podem intensificar os pensamentos do paciente sobre as intenções do terapeuta. Todos estes cuidados com o paciente servem para envolve-lo e mantê-lo em tratamento.
Medicamentoso
O tratamento medicamentoso pode ser encarado com grande desconfiança pelos pacientes, ademais, os pacientes mais perturbados podem fazer uso de medicamentos antipsicóticos em pequenas doses, e esses agentes também são claramente recomendados para as recompensações psicóticas que por ventura podem ocorrer no curso de um transtorno paranoide, desde que, em doses suficientes.
Psicoterapia
A psicoterapia de apoio individual, que incorpore as necessidades para interagir com esse tipo de paciente, pode representar o tratamento ideal para esses pacientes. Embora terapias grupais sejam altamente recomendadas para melhorar em habilidades sociais e manejo da ansiedade, não seriam a melhor opção pois pode haver resistência do Paranoide ás abordagens devido sua intensa desconfiança, sua hipersensibilidade e as possíveis interpretações errôneas sobre comentários de terceiros.
A terapia cognitivo-comportamental tem sido usada com bons resultados em alguns casos. Mas a maioria não consegue suportar o controle externo e a necessária autonomia inerentes a essa forma de abordagem.
Embora nem todos consigam se beneficiar, a psicoterapia psicanalítica é a que tem dado melhores resultados frente à problemática psicopatológica dos pacientes com transtorno de personalidade paranoide.
Aos poucos se vai auxiliando em modificações e correção de percepções. Além de, conforme for tomando liberdade, ajudar a nomear sentimentos e distinguir realidade de suas emoções.
Conclusão
Portanto, o transtorno de personalidade paranoide pode carregar vários comportamentos e sensações que vivenciamos em nosso dia-a-dia, tais como desconfiança, medos e suspeitas, que são naturais até certo ponto. Mas, quando estes passam a afetar nossas relações afetivas e nossa vida, pode ser um sinal de alerta.
Como já foi citado, o indivíduo paranoide tem por principal característica sua desconfiança e isso se tora um desafio na hora de buscar um tratamento, logo, caso perceba que alguém se encaixa nos traços de um paranoide, procure ajuda de amigos, familiares e busque auxilio médico. Pacientes assim raramente vão procurar e aceitar ajuda por iniciativa própria, mesmo que este estado seja perturbador para ele e afete sua qualidade de vida.
Autor: Sara Mendes Marques
Instagram: @sariinha_mendes
O texto é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto.
Observação: material produzido durante vigência do Programa de colunistas Sanar junto com estudantes de medicina e ligas acadêmicas de todo Brasil. A iniciativa foi descontinuada em junho de 2022, mas a Sanar decidiu preservar todo o histórico e trabalho realizado por reconhecer o esforço empenhado pelos participantes e o valor do conteúdo produzido. Eventualmente, esses materiais podem passar por atualização.
Novidade: temos colunas sendo produzidas por Experts da Sanar, médicos conceituados em suas áreas de atuação e coordenadores da Sanar Pós.
Fontes:
Manual Diagnóstico e estatístico de transtornos mentais (DSM-5) 5ª edição.
Manual de Clínica em Psiquiatria, Antônio Matos Fontana, Editora Atheneu ltda.
Psiquiatria Básica, Mario Rodrigues Louza Neto, Hélio Elkis e colaboradores. 2ª edição.
Tratado de psiquiatria clínica, Robert E. Hales, Stuart C. Yudofsky, Glen O. Gabbard, 5ª edição .
Manual MSD https://www.msdmanuals.com