A dermatotilexomania, também conhecida como transtorno de escoriação (excoriation disorder ou skin-picking disorder), representa um desafio crescente na prática clínica, sobretudo porque muitos pacientes procuram assistência inicialmente com dermatologistas e apenas posteriormente chegam à psiquiatria. Embora a escoriação cutânea esporádica faça parte do comportamento humano normal, o transtorno surge quando o ato de manipular, cutucar ou arrancar a pele se torna repetitivo, irresistível e associado a sofrimento clínico significativo.
Dessa forma, médicos que atuam tanto na interface psiquiatria-dermatologia quanto em atenção primária precisam reconhecer cedo os sinais do transtorno, já que a identificação precoce orienta intervenções mais eficazes e reduz complicações dermatológicas.
Epidemiologia da dermatotilexomania
A literatura contemporânea destaca que o transtorno apresenta prevalência maior do que se imaginava. Estudos epidemiológicos recentes sugerem que a condição afeta cerca de 3% da população, ainda que o subdiagnóstico permaneça expressivo. Como consequência, muitos pacientes seguem anos sem tratamento adequado, enquanto acumulam sequelas físicas e emocionais.
Portanto, compreender a fisiopatologia, os fatores ambientais, as comorbidades e as intervenções baseadas em evidências se torna essencial para o manejo clínico.
Identificação clínica e diagnóstico da dermatotilexomania
A dermatotilexomania costuma surgir de maneira insidiosa. Embora alguns pacientes relacionem o início dos sintomas a períodos de estresse, muitos descrevem o ato como um comportamento automático, que ocorre enquanto estudam, trabalham, usam o celular ou se observam no espelho. Assim, o comportamento se distribui em dois padrões principais: o automático, mais frequente, e o focado, no qual o paciente busca imperfeições cutâneas específicas para manipular.
Critérios diagnósticos essenciais
De acordo com as diretrizes, o diagnóstico se estabelece quando o paciente:
- Provoca escoriações repetidas que causam lesões cutâneas
- Tenta, repetidamente, controlar ou interromper o comportamento e não consegue
- Apresenta sofrimento significativo ou prejuízo funcional
- Realiza o comportamento fora do contexto de substâncias, condições dermatológicas primárias ou outros transtornos mentais que expliquem melhor a conduta.
Além disso, médicos precisam distinguir o transtorno de dermatoses orgânicas, como acne, dermatite seborreica, foliculite e prurigo nodular, já que muitas dessas doenças coexistem e amplificam o ciclo do beliscamento.
Na imagem abaixo observa-se (A) Pápulas e nódulos múltiplos, eritematosos ou hiperpigmentados, erodidos, escoriados ou liquenificados, de tamanho variável na perna direita de paciente com transtorno de escoriação. (B) Melhora clínica parcial após duas semanas de tratamento com N‐acetilcisteína.

Achados físicos frequentes
A distribuição anatômica das lesões oferece pistas importantes. Frequentemente, os pacientes manipulam:
- Face, principalmente testa, mento e região malar
- Braços e antebraços
- Tronco anterior
- Coxas.
Contudo, qualquer área pode ser alvo. As lesões variam de erosões superficiais a úlceras profundas, além de crostas hemorrágicas, hiperpigmentação pós-inflamatória e cicatrizes atróficas. O padrão evolutivo — aparecimento de novas lesões concomitante à persistência de lesões antigas — é um marcador fundamental. Além disso, a discrepância entre a gravidade dos achados e a ausência de doenças dermatológicas correspondentes reforça o diagnóstico.
Avaliação psiquiátrica integrada
A abordagem diagnóstica exige investigação de comorbidades. Estudos mostram associação frequente com:
- Transtorno obsessivo-compulsivo (TOC)
- Transtorno dismórfico corporal
- Ansiedade
- Transtornos depressivos
- TDAH;
- Transtorno de tricotilomania.
Essas condições impactam diretamente o prognóstico e exigem plano terapêutico integrado.
Causas e mecanismos neurobiológicos
A etiologia da dermatotilexomania é multifatorial. Embora ainda existam lacunas na compreensão dos mecanismos neurobiológicos, estudos recentes ajudam a formar um modelo robusto envolvendo genética, neurocircuitos e fatores ambientais.
Fatores genéticos e neurobiologia
Pesquisas citadas no UpToDate destacam que a dermatotilexomania compartilha base neurobiológica com outros transtornos do espectro obsessivo-compulsivo. O envolvimento de vias serotoninérgicas, dopaminérgicas e glutamatérgicas sugere que desequilíbrios nessas redes contribuem para a urgência do comportamento e para o subsequente alívio emocional que reforça a escoriação.
Além disso, alguns pacientes relatam sensação de tensão interna crescente antes de cutucar a pele e alívio imediato após o ato, o que indica um circuito de reforço negativo.
Portanto, a dermatotilexomania se manifesta como um ciclo: tensão → escoriação → alívio → culpa/ansiedade → nova tensão.
Fatores ambientais e emocionais
O ambiente desempenha impacto significativo. Eventos estressantes, conflitos universitários, sobrecarga laboral, privação de sono, críticas à aparência e histórico de trauma emocional podem intensificar o comportamento. Além disso, o uso prolongado de espelhos, a presença de acne ou queratoses pode agir como gatilho visual.
A pandemia de COVID-19 também trouxe aumento de casos, possivelmente por maiores níveis de estresse, maior tempo em casa e aumento da autoobservação durante videochamadas.
Avaliação diagnóstica: abordagem prática para médicos
O diagnóstico clínico se torna mais preciso quando o médico conduz entrevistas estruturadas. Assim, algumas perguntas fundamentais ajudam na identificação:
- “Você tenta parar, mas sente que não consegue?”
- “O comportamento surge mais quando você está ansioso, entediado ou preocupado?”
- “Você percebe que o ato traz breve sensação de alívio?”
- “Você passa muito tempo pensando nas lesões ou tentando escondê-las?”
Além disso, médicos devem registrar frequência, duração, gatilhos, padrões automáticos e consequências emocionais.
Ferramentas de avaliação
O Skin Picking Scale (SPS) e o Skin Picking Impact Scale (SPIS) oferecem formas estruturadas de quantificar gravidade, prejuízo e evolução terapêutica.
Abordagem terapêutica baseada em evidências
O tratamento ideal integra psicoterapia, intervenções farmacológicas e cuidados dermatológicos. Como resultado, médicos precisam construir um plano multidisciplinar que atenda tanto à disfunção comportamental quanto às complicações físicas.
Terapias psicológicas
A Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), especialmente a modalidade de Treinamento de Reversão de Hábito (HRT), representa o tratamento mais eficaz. A TCC trabalha:
- Identificação de gatilhos
- Aumento da consciência do comportamento automático
- Treino de respostas alternativas (por exemplo: apertar uma bola antiestresse)
- Modificação de pensamentos distorcidos sobre imperfeições cutâneas.
Além disso, o protocolo Comprehensive Behavioral Treatment (ComB) incorpora componentes sensoriais, cognitivos, emocionais e motores, ampliando a resposta terapêutica.
Tratamento farmacológico
Embora nenhum medicamento possua aprovação específica para o transtorno, ensaios clínicos apontam boa resposta a:
- ISRS, como fluoxetina, sertralina ou escitalopram
- N-acetilcisteína (NAC), que modula o glutamato e reduz impulsividade
- Antipsicóticos atípicos, como aripiprazol, em casos refratários com associação a impulsividade severa.
O UpToDate destaca que NAC, em dose de 1200 a 2400 mg/dia, melhora sintomas moderados a graves, especialmente quando o paciente apresenta padrão focado do comportamento.
Cuidados dermatológicos
Os cuidados cutâneos diminuem infecções secundárias e aceleram cicatrização. O médico deve:
- Estabelecer rotina de hidratação e barreira
- Tratar dermatites coexistentes que sirvam de gatilho
- Orientar o uso de curativos oclusivos em áreas críticas
- Prescrever antibióticos quando houver impetiginização.
Prognóstico e seguimento clínico
O transtorno tende a ser crônico e flutuante, mas muitos pacientes melhoram significativamente quando recebem tratamento específico. Entretanto, recaídas ocorrem durante períodos de maior estresse emocional. Assim, o seguimento regular permite ajuste de estratégias e evita a escalada das lesões.
A educação do paciente desempenha papel central. Quando o médico ajuda o paciente a entender que o comportamento segue padrões neurobiológicos e não representa “falta de autocontrole”, a adesão terapêutica melhora substancialmente.
Além disso, envolver familiares pode ser útil, desde que o paciente concorde, porque o apoio social reduz vergonha e evita críticas que perpetuam o ciclo de ansiedade-escoriação.
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Referências bibliográfica
- GRANT, Jon E.; CHAMBERLAIN, Samuel R. et al. Skin picking (excoriation) disorder: epidemiology and clinical characteristics. PubMed. PMID: 37023597.
- AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. Skin picking (excoriation) disorder and related disorders. UpToDate. Disponível em: https://www.uptodate.com/contents/skin-picking-excoriation-disorder-and-related-disorders. Acesso em: 09 dez. 2025.
- Özcan, D. N-acetilcisteína para o manejo do transtorno de escoriação. Anais Brasileiros de Dermatologia, v. 96, n. 3, p. 380–393, 2021.
