A dermatite atópica (DA), também conhecida como eczema atópico, é a doença inflamatória da pele mais comum no mundo desenvolvido, com uma prevalência ao longo da vida de 15-20% em países desenvolvidos.
Apresentação
A condição é normalmente desenvolvida na infância e é caracterizado por recorrente lesão eczematosa (pobremente definida), manchas eritematosa (avermelhada) com exsudação, bolhas e crostas em estágios iniciais e descamação, fissuras (craqueamento) e liquenificação (espessamento) em fases posteriores e coceira intensa e desconforto. Essas manifestações podem levar à perda de sono, diminuição da auto-estima e desempenho na escola e no trabalho.
A DA apresenta elevada heterogeneidade quer em termos de morfologia, distribuição e curso da doença, podendo manifestar-se com períodos de remissão e agudizações ou, pelo contrário com longos períodos sintomáticos. Do ponto de vista clínico, a DA é uma doença com fenótipos muito variáveis, dependentes da idade, etnia e severidade.
Características clínicas
As características essenciais são o prurido intenso e a presença de lesões de eczema (eritema e descamação) que podem ser agudas, subagudas ou crônicas. Estas lesões podem localizar-se em qualquer parte do corpo, contudo, apresentam geralmente uma morfologia e distribuição dependentes da idade.
– Os lactentes apresentam, geralmente, uma maior distribuição, podendo atingir toda a superfície corporal. As lesões eczematosas são geralmente agudas, caracterizando-se pelo eritema marcado, edema e escoriações e pela presença de pápulas ou vesículas, com exsudação e formação de crosta. Caracteristicamente localizadas na face e no tronco, poupando, geralmente a área da fralda.
– Nas crianças a DA assume uma distribuição mais localizada, as lesões eczematosas são crônicas, com eritema mais ligeiro, xerose e espessamento cutâneo resultante do prurido intenso, afetando geralmente as regiões flexoras dos membros.
– Na adolescência e idade adulta a AD assume um padrão difuso, mas cursa igualmente, com lesões circunscritas, tipicamente nas mãos, rosto, especialmente as pálpebras e as grandes superfícies flexoras (especialmente o cavado cubital e poplíteo).
– Os adultos podem apresentar apenas eczema crônico das mãos ou o subtipo “cabeça e pescoço” que atinge a superfície superior do tronco, ombros e o couro cabeludo.
Diagnóstico
Não existem, à luz da evidência científica atual, testes diagnósticos, biomarcadores laboratoriais ou histológicos específicos que possibilitem um diagnóstico definitivo de DA. O diagnóstico baseia-se em critérios clínicos específicos, incluindo história pessoal e familiar de atopia, evolução da doença e manifestações clínicas. Desta forma, ao longo do tempo foram desenvolvidos diversos critérios, com o intuito de suportar o diagnóstico. A título exemplificativo referem-se os critérios de Hanifin and Rajka (Figura 1) e os Critérios do Consenso do Colégio Americano de Dermatologia (Figura 2 e 3):
Fonte: Dermatite Atópica: Impacto na Qualidade de Vida.
Fonte: Dermatite Atópica: Impacto na Qualidade de Vida.
Fonte: Fonte: Dermatite Atópica: Impacto na Qualidade de Vida.
A gravidade da doença é determinada através da avaliação de sinais objetivos (pelo médico) e subjetivos.
Tratamento
A abordagem terapêutica da DA baseia-se na gravidade da doença e deve ser ajustada em função da idade do doente, da presença de outras entidades clínicas relacionadas com a atopia, da adesão à terapêutica, bem como à condição socioeconómica dos doentes. Questões como a preferência do doente, estilo de vida, expectativas específicas em relação ao tratamento e à doença e possíveis receios devem também integrar o plano terapêutico, para que este seja adequado e individualizado. Embora a medicina atual não permita a cura da DA, as opções terapêuticas permitem uma diminuição da sua gravidade, bem como uma diminuição da frequência de exacerbações. Um plano terapêutico de sucesso não inclui apenas as medidas terapêuticas farmacológicas e não farmacológicas, mas também cuidados básicos da pele, que não podem ser descurados. As recomendações terapêuticas encontram-se sumariadas na tabela seguinte:
Fonte: Dermatite Atópica: Impacto na Qualidade de Vida.
Conclusão
Conforme visto, a DA causa um elevado impacto físico e social, condicionado pela presença de sensibilidade cutânea, pelo prurido generalizado e pelas lesões cutâneas. Devido à sua cronicidade e associação com outras comorbilidades, a DA possui um grande impacto na qualidade de vida dos doentes. Quando não está controlada, a dermatite atópica tem um impacto negativo limitando o paciente nas suas atividades diárias. Tem também elevado impacto psicológico. A pele, sendo o maior órgão do corpo humano exerce inúmeras funções biológicas. Portanto, seus efeitos transcendem o impacto físico descrito, gerando sentimentos de impotência, frustração, baixa auto-estima, ansiedade e até mesmo depressão
nestes doentes. Apesar de a medicina atualmente não dispor de uma cura a oferecer a estes doentes, a terapêutica adequada permite uma diminuição da severidade e da frequência das exacerbações. Contudo, atualmente, a DA ainda é uma doença subvalorizada e subdiagnosticada. Desta forma, são necessários esforços adicionais e continuados para combater o estigma e a limitada percepção do que é a realidade das pessoas que vivem com esta doença.
Autora: Luana Paraboni
Instagram: @luanaparaboni
Referências:
Ferreira, Ana Filipa Rodrigues Iglésias. Dermatite Atópica: Impacto na Qualidade
de Vida. MESTRADO INTEGRADO EM MEDICINA. U Porto: 2021.
O texto é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto.
Observação: material produzido durante vigência do Programa de colunistas Sanar junto com estudantes de medicina e ligas acadêmicas de todo Brasil. A iniciativa foi descontinuada em junho de 2022, mas a Sanar decidiu preservar todo o histórico e trabalho realizado por reconhecer o esforço empenhado pelos participantes e o valor do conteúdo produzido. Eventualmente, esses materiais podem passar por atualização.
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