A dependência emocional, geralmente, envolve uma intensa necessidade de aprovação, afeto e validação. Ao desenvolver esse quadro emocional, o indivíduo deposita no outro a responsabilidade sobre a sua felicidade e sobre a tomada de suas decisões. Esse cenário pode levar a pessoa a
perder a habilidade de manter uma relação saudável.
O objetivo deste artigo é trazer informações relevantes sobre o quadro clínico, diagnóstico e tratamento da dependência emocional para estudantes de medicina e médicos. Aproveite a leitura!
Definição de dependência emocional
Segundo a literatura médica, o conceito de dependência emocional refere-se a um padrão persistente de necessidade emocional extrema e busca constante de aprovação, validação e segurança de uma pessoa específica. Muitas vezes em relacionamentos íntimos.
Essa dependência pode levar uma série de comportamentos e padrões disfuncionais que afetam negativamente o bem-estar emocional e o funcionamento geral do indivíduo.
É importante ressaltar que a dependência emocional não é oficialmente reconhecida como um diagnóstico separado no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5), que é a principal classificação utilizada na psiquiatria.
No entanto, conceitos relacionados, como transtorno de personalidade dependente, podem abordar alguns aspectos dessa dependência emocional.
O que causa a dependência emocional?
A literatura médica geralmente explora a dependência emocional como um fenômeno complexo. Não há um fato único e específico como causa.
A condição é influenciada por fatores psicológicos, sociais e biológicos. Os diversos fatores, inclusive, podem ter sido acumulados pelo indivíduo desde a infância. Entre eles:
Abandono na infância
O dependente pode ter sido abandonado de forma física ou emocional na infância. Para compensar essa lacuna, o indivíduo busca uma pessoa para suprir todas as suas necessidades físicas e emocionais. Com isso, todas as expectativas são depositadas em uma única relação.
Excesso de zelo na infância e a dependência emocional
Nesses casos, crianças que são submetidas ao cuidado e afeto exacerbados, tornam-se adultos dependentes de tratamentos especiais. Por conta disso, o indivíduo não se sente confiante, acreditando que não tem condições de tomar suas próprias decisões e de viver sem a companhia de outra pessoa.
Quadro clínico da dependência emocional
O quadro clínico de pacientes com dependência emocional pode variar. Porém, geralmente, inclui uma série de características e comportamentos que afetam negativamente a vida emocional e os relacionamentos. Confira alguns dos aspectos comuns do quadro clínico dos pacientes:
- Medo da solidão ou rejeição
- Necessidade excessiva de aprovação: há uma busca incessante por aprovação e validação do parceiro. O que frequentemente o leva a comportamentos de busca de atenção e acomodação excessiva às necessidades do outro.
- Baixa autoestima: é comum terem autoestima frágil e basear sua valia pessoal nas opiniões e ações dos outros.
- Dificuldade em tomar decisões independentes: tendência a depender excessivamente da orientação e opiniões dos outros.
- Tendência a relacionamentos codependentes: o indivíduo se submete excessivamente às necessidades e desejos do parceiro, muitas vezes em detrimento de suas próprias necessidades.
- Dificuldade em estabelecer limites: dificuldade em estabelecer e manter limites saudáveis nos relacionamentos. O que resulta em uma propensão a aceitar comportamentos inadequados ou prejudiciais.
- Repetição de padrões em relacionamentos: relacionamentos podem se tornar caracterizados por ciclos de idealização e desvalorização. O indivíduo oscila entre a idealização da pessoa de quem é dependente e sentimentos de desespero ou raiva quando se sente abandonado ou rejeitado.
- Ansiedade e depressão relacionadas à relação: a condição pode está associada a altos níveis de ansiedade e depressão. Isso ocorre especialmente quando a relação desejada não está cumprindo as expectativas.
É importante notar que a intensidade e a manifestação desses sintomas podem variar de pessoa para pessoa.
Outro ponto importante para o profissional de medicina ter em mente é que, no geral, o dependente não percebe o seu próprio comportamento. Para ele, todas essas ações são vistas como normais e são apenas uma forma de demonstrar amor.
Como conduzir o diagnóstico do paciente?
Identificar e diagnosticar a dependência emocional requer uma abordagem cuidadosa e uma compreensão profunda do paciente. Confira os principais passos para conduzir o atendimento:
Entrevista clínica
- Conduza uma entrevista clínica abrangente para entender o histórico emocional e relacional do paciente.
- Explore padrões de relacionamento, histórico familiar, eventos traumáticos e experiências passadas que possam influenciar a dependência emocional.
Critérios diagnósticos
Utilize critérios diagnósticos, como os estabelecidos no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5), para avaliar se o paciente atende aos critérios para dependência emocional.
Observação do comportamento
Observe padrões de comportamento em relacionamentos, como a busca constante por aprovação, medo da rejeição, dificuldade em tomar decisões sem a influência de outros, entre outros.
Além disso, fique atento para captar informações sobre a duração e a consistência dos padrões de comportamento.
Autoavaliação do paciente
Incentive o paciente a realizar uma autoavaliação honesta de seus relacionamentos e emoções, explorando sentimentos de ansiedade, tristeza ou desconforto na ausência de determinadas pessoas.
Questionários e escalas
Utilize questionários e escalas específicas, como a Escala de Dependência Emocional de Rusbult, para obter uma medida quantitativa dos sintomas.
Avaliação de comorbidades
Avalie a presença de comorbidades, como transtornos de ansiedade, depressão ou outros distúrbios emocionais, que podem estar contribuindo para a dependência emocional.

Tratamento para casos de dependência emocional
Após fechar o diagnóstico, o primeiro passo é explicar ao paciente o diagnóstico de maneira clara e compreensível. Garanta suporte para que ele entenda os sintomas e o como isso vem impactando em sua vida.
Ao falar sobre tratamento para dependência emocional, principal conduta terapêutica indicada é a psicoterapia.
Para estabelecer um plano de tratamento, você também deve ajudo ao paciente estabelecer as metas terapêuticas.
O paciente precisa receber informações educativas contínuas sobre a condição e desenvolver conhecimento sobre e estratégias para lidar com os desafios emocionais.
Lembrete importante
Ao tratar o paciente, lembre-se de:
- Avaliar e tratar quaisquer comorbidades, como transtornos de ansiedade ou depressão, que possam estar contribuindo para a dependência emocional.
- Realizar avaliações regulares para monitorar o progresso do paciente e ajuste o plano de tratamento conforme necessário.
- Se apropriado, envolva a família ou parceiro do paciente no processo terapêutico. Terapia familiar ou de casal pode ser benéfica para abordar dinâmicas relacionais disfuncionais.
Veja também aula sobre como reconhecer a dependência emocional com o Dr. Fernando Fernandes
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Referência bibliográfica
- ARNTZ, A. Dependência Patológica: Distinguindo a Dependência Funcional da Emocional, Psicologia clínica: ciência e prática. 2005.
- BACRON, R. O drama de quem se sujeita ao outro. Expresso News. 467, PP, 12,13. Apucarana: PI Editora. 2015.

