A demência representa uma síndrome clínica complexa caracterizada por declínio cognitivo progressivo e adquirido, capaz de comprometer de forma significativa a autonomia funcional, social e ocupacional do indivíduo. Diferentemente do envelhecimento fisiológico, no qual podem surgir lapsos de memória sem impacto funcional relevante, a demência envolve múltiplos domínios cognitivos e altera de maneira persistente o desempenho cotidiano.
Além disso, esse quadro não corresponde a uma única doença; ao contrário, ele reúne um conjunto heterogêneo de condições neurológicas com mecanismos fisiopatológicos distintos, evolução variável e implicações diagnósticas e terapêuticas específicas.
Conceito clínico de demência
De maneira geral, a demência envolve prejuízo progressivo de pelo menos dois domínios cognitivos, como:
- Memória
- Linguagem
- Atenção
- Função executiva
- Habilidades visuoespaciais ou cognição social.
Além disso, esse comprometimento interfere diretamente na capacidade de realizar atividades instrumentais ou básicas da vida diária. Portanto, o diagnóstico exige mais do que a simples identificação de queixas subjetivas; ele requer evidência objetiva de declínio cognitivo em comparação com o funcionamento prévio do indivíduo.
Embora muitos pacientes procurem atendimento por queixas de memória, nem toda demência se inicia com esse sintoma. Na prática clínica, algumas variantes apresentam alterações comportamentais, dificuldades de linguagem ou comprometimento executivo como manifestações iniciais. Assim, o reconhecimento precoce depende de uma escuta qualificada e de uma análise ampla do funcionamento cognitivo e funcional.
Principais tipos de demência
Doença de Alzheimer
A doença de Alzheimer constitui a causa mais frequente de demência em adultos mais velhos. Em geral, ela se manifesta inicialmente por prejuízo da memória episódica, especialmente dificuldade em reter novas informações. Com o avanço do quadro, surgem alterações de linguagem, desorientação temporal e espacial, dificuldades visuoespaciais e comprometimento progressivo das funções executivas.
Além disso, mudanças comportamentais e neuropsiquiátricas, como apatia, irritabilidade e sintomas depressivos, frequentemente acompanham a evolução. Embora o curso seja tipicamente insidioso e progressivo, a velocidade de progressão pode variar entre os indivíduos. Por esse motivo, a avaliação longitudinal desempenha papel central no acompanhamento clínico.
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Demência vascular
A demência vascular resulta de lesões cerebrovasculares que afetam regiões críticas para a cognição. Nesse cenário, eventos isquêmicos múltiplos, infartos lacunares ou alterações difusas da substância branca comprometem as redes neurais responsáveis pelo processamento cognitivo. Diferentemente da doença de Alzheimer, a evolução costuma ocorrer de forma escalonada, com períodos de estabilidade intercalados por pioras súbitas associadas a novos eventos vasculares.
Além disso, o perfil cognitivo frequentemente inclui lentificação do pensamento, prejuízo atencional e disfunção executiva mais proeminente do que a perda de memória isolada. Como consequência, a identificação e o controle rigoroso de fatores de risco cardiovascular assumem papel essencial tanto na prevenção quanto na progressão do quadro.
Demência com corpos de Lewy
A demência com corpos de Lewy apresenta características clínicas particulares que a diferenciam de outros subtipos. Em primeiro lugar, observa-se flutuação cognitiva acentuada, com variações importantes no nível de atenção e alerta ao longo do dia. Além disso, alucinações visuais bem formadas surgem precocemente e tendem a ser recorrentes.
Outro aspecto relevante envolve a presença de sinais motores semelhantes ao parkinsonismo, como rigidez, bradicinesia e instabilidade postural. Embora a memória possa se manter relativamente preservada nas fases iniciais, déficits visuoespaciais e atencionais costumam se destacar. Dessa forma, o reconhecimento desse padrão clínico torna-se fundamental para evitar abordagens terapêuticas inadequadas.
Frontotemporal
A demência frontotemporal engloba um grupo de síndromes caracterizadas por atrofia progressiva dos lobos frontal e temporal. Diferentemente de outros tipos, ela costuma acometer indivíduos mais jovens, frequentemente antes dos 65 anos. Além disso, as manifestações iniciais raramente envolvem perda de memória significativa.
Em vez disso, alterações comportamentais marcantes, como desinibição, apatia, perda de empatia e mudanças na conduta social, dominam o quadro clínico. Em outras variantes, a linguagem sofre comprometimento precoce, com dificuldades progressivas na expressão, compreensão ou nomeação. Assim, o diagnóstico exige atenção cuidadosa às mudanças de personalidade e comportamento, muitas vezes relatadas por familiares antes mesmo que o próprio paciente reconheça o problema.
Outras causas de demência
Além dos subtipos mais prevalentes, diversas outras condições podem levar a quadros demenciais. Entre elas, destacam-se doenças neurodegenerativas raras, infecções do sistema nervoso central, distúrbios metabólicos, deficiências vitamínicas, intoxicações e hidrocefalia de pressão normal. Nesse sentido, a investigação diagnóstica deve sempre considerar causas potencialmente tratáveis, sobretudo em apresentações atípicas ou de início precoce.
Sinais iniciais da demência
O reconhecimento dos sinais iniciais representa um dos maiores desafios clínicos, sobretudo porque os sintomas podem ser sutis e facilmente atribuídos ao envelhecimento normal ou a fatores emocionais. Ainda assim, alguns padrões merecem atenção especial.
Em primeiro lugar, dificuldades persistentes de memória recente, especialmente quando associadas a repetição frequente de perguntas ou esquecimento de compromissos importantes, indicam possível comprometimento cognitivo. Além disso, alterações na linguagem, como dificuldade para encontrar palavras comuns ou acompanhar conversas, podem surgir precocemente em alguns subtipos.
Outro sinal relevante envolve prejuízo nas funções executivas, manifestado por dificuldade em planejar tarefas, lidar com finanças ou tomar decisões. Da mesma forma, mudanças comportamentais, como retraimento social, irritabilidade, desinibição ou apatia, frequentemente antecedem déficits cognitivos mais evidentes. Portanto, a valorização desses sinais, especialmente quando representam mudança em relação ao padrão habitual do indivíduo, contribui para o diagnóstico precoce.
Abordagem diagnóstica da demência
A abordagem diagnóstica da demência começa com uma anamnese detalhada, que deve incluir tanto o relato do paciente quanto informações fornecidas por familiares ou cuidadores. Esse passo torna-se essencial, pois muitos indivíduos não percebem ou minimizam suas dificuldades cognitivas. Assim, a coleta de dados sobre o início, a evolução e o impacto funcional dos sintomas orienta todo o processo diagnóstico.
Além disso, o exame físico e neurológico permite identificar sinais focais, alterações motoras ou manifestações sistêmicas que sugiram etiologias específicas. Paralelamente, a avaliação do estado mental auxilia na exclusão de condições como delirium ou depressão, que podem simular ou coexistir com a demência.
Avaliação cognitiva
Após a avaliação clínica, a aplicação de testes cognitivos padronizados fornece evidências objetivas do comprometimento cognitivo. Instrumentos de rastreio, como testes breves, ajudam a identificar déficits iniciais, enquanto avaliações neuropsicológicas mais abrangentes permitem caracterizar o perfil cognitivo com maior precisão.
Esses testes avaliam múltiplos domínios, incluindo memória, atenção, linguagem, funções executivas e habilidades visuoespaciais. Dessa forma, o padrão de desempenho auxilia na diferenciação entre os diversos tipos de demência e no acompanhamento da progressão ao longo do tempo.
Avaliação funcional
A análise da funcionalidade representa componente indispensável do diagnóstico. Nesse contexto, a investigação do desempenho em atividades instrumentais da vida diária, como uso de telefone, controle financeiro, preparo de refeições e administração de medicamentos, fornece informações essenciais sobre o impacto clínico do declínio cognitivo.
Quando o comprometimento atinge atividades básicas, como higiene pessoal e alimentação, o quadro geralmente indica estágios mais avançados. Portanto, a avaliação funcional complementa a análise cognitiva e contribui para o estadiamento da doença.
Exames laboratoriais
Os exames laboratoriais desempenham papel relevante na exclusão de causas reversíveis ou contributivas de comprometimento cognitivo. Entre os exames comumente solicitados, incluem-se dosagens de vitamina B12, função tireoidiana, eletrólitos, função renal e hepática.
Além disso, a avaliação metabólica geral ajuda a identificar condições sistêmicas que possam agravar o quadro cognitivo.
Neuroimagem
A neuroimagem estrutural, especialmente por meio de ressonância magnética, integra a abordagem diagnóstica padrão. Esse exame permite identificar lesões vasculares, atrofia cerebral, tumores, hidrocefalia e outras alterações estruturais relevantes. Além disso, padrões específicos de atrofia podem sugerir determinados subtipos de demência.
Em situações selecionadas, métodos de imagem funcional ou molecular podem fornecer informações adicionais, embora seu uso dependa do contexto clínico e da disponibilidade.
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Referências bibliográficas
- UPTODATE. Evaluation of cognitive impairment and dementia. Waltham: UpToDate, 2024. Disponível em: https://www.uptodate.com/contents/evaluation-of-cognitive-impairment-and-dementia. Acesso em: 27 dez. 2025.
