FAKE!!! Você com certeza já viu inúmeras notícias falsas acerca da COVID-19, seja relacionada às vacinas, seja relacionada à doença propriamente dita como é o caso da fake news que aborda a “Deltacron” que seria uma super variante combinando as variantes Delta e Omicron.
Sabe-se que desde a crise sanitária provocada pela pandemia de COVID-19 associada a propagação viral de informações na internet e em demais veículos de comunicação houve uma disseminação de fake news que promoveram crises nas instituições devido à perda de credibilidade da população para com os órgãos oficiais e até mesmo a ciência. À vista disso, nota-se que notícias como a de uma super variante denominada Deltacron são provenientes desse cenário caótico de desinformação em nosso país.
Origem da fake news sobre a super variante Deltacron
Leondios Kostrikis, virologista e professor da “University of Cyprus”, anunciou no início deste mês de janeiro que seu grupo de pesquisa universitário fez a identificação de vários genomas de SARS-CoV-2, agente etiológico da COVID-19, que apresentavam elementos tanto da variante delta, quando da ômicron. Posteriormente, o virologista, juntamente com sua equipe, fez o envio de 52 sequências para o popular laboratório público GISAID nomeando esse material genético de “deltacron” – 27 sequências foram enviadas no mesmo dia.
Após essa “descoberta” a agência de notícias financeiras Bloomberg fez a publicação da suposta “super variante” que rapidamente se tornou uma notícia internacional. Todavia, a comunidade científica apontou que essas 52 sequências seriam decorrentes de erros de laboratório e não de recombinação genética das variantes delta e omicron. Krutika Kuppalli, que faz parte da equipe técnica da Covid-19 da Organização Mundial da Saúde (OMS) utilizou sua rede social (Twitter) afirmando que não existia deltacron, ou seja, que a ômicron e a delta não formaram uma super variante – a fim de evitar a propagação da fake news.
Propagação da fake news sobre a Deltacron
Apesar do sistema do laboratório ter detectado o possível erro de sequenciamento de forma muito rápida a propagação da notícia acerca da Deltacron pelas agência de notícias financeiras Bloomberg contribuíram para a disseminação da desinformação durante a pandemia o que gerou uma controvérsia na comunidade científica no que tange o imediatismo de publicações que envolvem o SARS-CoV-2 na mídia.
Posto isso, vale mencionar que o professor Leondios Kostrikis afirmou que ele e sua equipe nunca haviam afirmado a descoberta de um híbrido das duas cepas do vírus, uma vez que, segundo ele, aspectos de sua hipótese original foram mal interpretados. Após 72 horas ele fez a remoção da exibição pública da possível “descoberta” no banco de dados esperando uma análise mais criteriosa e aprofundada.
Cheryl Bennett, que faz parte do escritório da Fundação GISAID, em Washington afirmou que devido aos mais de 7 milhões de genomas de SARS-CoV-2 carregados no banco de dados desde janeiro de 2020 possíveis erros de sequenciamento devem ser esperados, o que aconteceu justamente com o professor Leondios Kostrikis e sua equipe.
Repercussão no Brasil
A disseminação de informações na era digital em que estamos inseridos ocorre rapidamente, por isso não seria surpresa que algum veículo de informação do Brasil abordasse o achado do professor Leondios Kostrikis com sua equipe de laboratório.
No dia 12 de janeiro o portal de comunicação “R7 notícias Brasil” divulgou que uma jornalista de 26 anos havia sido diagnosticada com a nova super variante “Deltacron”, vale citar que, conforme a notícia, ela teria sido uma das 25 pessoas no mundo que haviam sido infectadas por essa nova variante.
À vista disso, nota-se o impacto a nível internacional que a divulgação de um achado em um laboratório de pesquisa universitário, por isso houve a controvérsia e discussão na comunidade científica acerca da publicações de notícias relacionadas ao SARS-CoV-2 sem uma investigação aprofundada e minuciosa, pois apesar do professor ter afirmado que em momento algum havia afirmado que essa super variante existia a informação é divulgada de tantas formas diferentes que se torna desinformação, haja vista que a disseminação de fake news tem se mostrado cada vez mais difícil de se combater.
Desfecho do professor Leondios Kostrikis
O professor, diante de tudo isso, afirmou que avaliaria todas as opiniões cruciais relacionadas ao seu anúncio sobre o achado no laboratório e planejava fazer o envio da sua pesquisa para revisão por pares.
Mediante isso, vale citar que outros cientistas como o virologista da “Louisiana State University” que a possível descoberta de Kostrikis caracterizava um tipo de contaminação comum, descartando a formação de uma nova super variante, ele afirmou que “O sequenciamento de qualquer genoma depende de primers – pequenos pedaços de DNA que servem como ponto de partida para o sequenciamento e se ligam à sequência alvo. No entanto, o Delta possui uma mutação no gene spike que reduz a capacidade de alguns primers de se ligarem a ele, dificultando o sequenciamento dessa região do genoma. A variante omicron não possui essa mutação, portanto, se qualquer uma das partículas da nova cepa estiver contaminada na amostra, isso poderá fazer com que o gene de pico sequenciado pareça semelhante ao omicron.”. O virologista Thomas Peacock do Imperial College afirmou que o GISAID está repleto de sequências que possuem elementos de sequências vistas em outras variantes, o que pode gerar, equivocadamente, a interpretação de uma nova variante.
Considerações Finais
A super variante combinando Delta e Omicron se trata de uma fake News proveniente da divulgação internacional de uma pesquisa envolvendo o material genético do SARS-CoV-2 que apontou uma possível recombinação genética das variantes delta e omicron. Entretanto, após a comunidade científica verificou que o achado da pesquisa seria decorrente de erros de laboratório, ou seja, não havia a formação de uma nova super variante denominada Deltacron.
Desse modo, é perceptível que as fake news são entraves no combate à pandemia, uma vez que são rápidas e destrutivas quanto a própria COVID-19 promovendo perda de credibilidade da população nos órgãos oficiais e na ciência, convém destacar que essa epidemia da desinformação afeta diretamente a população podendo fazer com que as pessoas se sintam ansiosas, deprimidas e emocionalmente exaustas, uma vez que não há controle de qualidade do que é publicado e os indivíduos ficam à mercê de fake news como a da super variante deltacron.
Autor: Leonardo Muzzy
Instagram: @leonardomuzzy
Referências Bibliográficas:
Reciis – Revista Eletrônica de Comunicação, Informação & Inovação em Saúde, Rio de Janeiro, v. 15, n. 1, p. 55-71, jan./mar. 2021 [www.reciis.icict.fiocruz.br] e-ISSN 1981-6278
Deltacron: the story of the variant that wasn’t – https://www.nature.com/articles/d41586-022-00149-9
Deltacron: a história da variante que nunca existiu – https://veja.abril.com.br/saude/deltacron-a-historia-da-variante-que-nunca-existiu/
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