O ducto da membrana vitelina embriológica conecta as vísceras fetais com o saco vitelínico e normalmente involui entre a 5ª e a 7ª semanas de gestação. Defeito ou incompletude no fechamento desse ducto pode gerar anormalidades congênitas, a depender do estágio de fechamento atingido, e o paciente pode apresentar ducto vitelínico persistente, divertículo de Meckel, cisto vitelínico, seio umbilical, pólipo umbilical, entre outras alterações.
O divertículo de Meckel foi primeiro descrito em 1809 pelo anatomista alemão Johann Friedrich Meckel (1781-1833), porém foi antes mencionado por Fabricius Hildamus em 1598 e por Lavater em 1671. É uma protusão da parede intestinal e é a mais comum anormalidade congênita do trato gastrointestinal.
É definido como um canal de fundo cego na borda mesentérica do íleo terminal, localizado a cerca de 100 cm da válvula ileocecal. Apresenta prevalência de cerca de 2% na população geral. Os índices de complicações se mostram ainda mais raros, sendo a perfuração a complicação mais rara. Outras complicações são hemorragia, intussuscepção, inflamação, vôlvulos, formação de abcesso, fístula, obstrução intestinal e transformação maligna.
De maneira didática, há, para diagnóstico, a clássica “regra dos 2”. Essa regra utiliza os seguintes critérios: apresentação antes dos 2 anos de idade, encontrado a 2 pés (≅ 61 cm) da válvula ileocecal, com 2 polegadas (≅ 5 cm) de comprimento, proporção 2:1 de acometimento de homens em relação a mulheres e presente em 2% da população.
Mesmo sendo, na maioria dos casos, uma anomalia assintomática, os sintomas mais comuns são dor abdominal, vômito, constipação, distensão abdominal, todos sintomas compatíveis também com obstrução intestinal. A apresentação sintomática mais comum é o sangramento, sendo também a principal emergência envolvendo essa alteração. Clínicos devem considerar o divertículo de Meckel como diferencial em pacientes com queixas abdominais.
Obstrução intestinal é a segunda complicação mais comum. Essa condição pode ser causada por aprisionamento de um loop intestinal, por intussuscepção, que é definida como uma invaginação de uma seção intestinal sobre outra, e por uma extensão para um saco herniário. Para esse diagnóstico, a radiografia convencional não é muito utilizada. Já a ultrassonografia tem sido utilizada e normalmente mostra uma estrutura cheia de fluido no quadrante inferior direito.
Vôlvulo intestinal é definido como uma torção intestinal no mesentério, que pode provocar obstrução e até estrangulamento da porção acometida do intestino. Clinicamente, essa apresentação tem início abrupto e dor contínua. O vólvulo pode ocorrer no ceco, com observação de grande bolha de gás no mesogástrio, ou no hipocôndrio esquerdo do abdome na radiografia abdominal.
A perfuração como sintoma inicial e como complicação é uma apresentação rara; no período neonatal, especificamente, é considerada excepcional, com apenas 11 casos nos últimos 30 anos. Pode estar relacionada com hipóxia e com anóxia perinatal, administração materna de corticoesteroides e abuso de cocaína e transfusão sanguínea no recém-nascido para tratar doença hemolítica. Essa perfuração é uma condição com risco de morte, causada de maneira secundária em adultos a diverticulite, gangrena ou úlcera péptica causada por mucosa gástrica ectópica.
A malignização dessa anomalia não é comum, representando menos de 3% dos casos. Dentre estes, a apresentação mais comum são os adenocarcinomas, representando cerca de 22%. Normalmente, há invasão e metástase dos linfonodos, o que indica um mal prognóstico da condição. O estudo da origem embriológica do carcinoma, nesse caso no divertículo de Meckel, se mostra extremamente necessário para a prescrição do tratamento e para a indicação do prognóstico (TAWADA et al, 2020).
O tratamento do divertículo de Meckel é baseado na presença ou ausência de sintomas e de complicações. A ressecção do divertículo é imprescindível em caso de preocupação com malignização ou caso o paciente tenha sintomas como intussuscepção, sangramento, diverticulite, perfuração ou vôlvulos associados. Quanto a divertículos descobertos de maneira incidental, a ressecção é controversa, sendo considerada por Zani et al. (2008) desnecessária, devido ao fato de que os índices de morbidade e de mortalidade são extremamente baixos, podendo apenas aumentar eventos pós-operatórios.
Mesmo que o paciente seja assintomático, alguns fatores de risco descritos por Park et al. (2005) podem indicar a ressecção, como: idade inferior a 50 anos, sexo masculino, divertículo maior que 2 cm e presença de tecido ectópico ou outras anormalidades histológicas nas imediações do divertículo.
Essa ressecção pode ser realizada via videolaparoscopia ou via cirurgia aberta. Manejo cirúrgico com ressecção seguida de anastomose é preferível se comparada à ressecção tangencial, que apenas remove o divertículo, pois reduz o risco de anormalidade heterotópica da mucosa residual.
Tem sido provado que os procedimentos cirúrgicos minimamente invasivos, nesse caso para ressecção de divertículo de Meckel, são cada vez mais seguros e responsáveis por menor incidência de complicações pós-operativas e menor tempo de recuperação do paciente. Mesmo assim, há características do paciente que podem, de maneira independente, aumentar as complicações, como a idade avançada.
Vale a ressalva, segundo Rahmat et al. (2020), de que a literatura continua sendo controversa e não definitiva sobre as indicações de ressecção cirúrgica do divertículo de Meckel. Evidencia-se, portanto, a necessidade de mais estudos para que haja a elaboração de diretrizes precisas a serem seguidas em todo o desenvolvimento do rastreio nessa anomalia, desde as primeiras consultas com clínicos até a prescrição, ou não, do tratamento cirúrgico.
O texto é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto.
Observação: material produzido durante vigência do Programa de colunistas Sanar junto com estudantes de medicina e ligas acadêmicas de todo Brasil. A iniciativa foi descontinuada em junho de 2022, mas a Sanar decidiu preservar todo o histórico e trabalho realizado por reconhecer o esforço empenhado pelos participantes e o valor do conteúdo produzido. Eventualmente, esses materiais podem passar por atualização.
Novidade: temos colunas sendo produzidas por Experts da Sanar, médicos conceituados em suas áreas de atuação e coordenadores da Sanar Pós.
Referências
BINDI, E. et al. Meckel’s diverticulum perforation in a newborn positive to Sars-Cov-2. Journal of Pediatric Surgery Case Reports, v. 62, p. 101641, 2020.
JUNG, H. S. et al. Clinical outcomes of minimally invasive surgery for Meckel diverticulum: a multicenter study. Annals of Surgical Treatment and Research, v. 99, n. 4, p. 213, 2020.
MARIANI, A. et al. Laparoscopic Management of Mechanical Small Bowel Obstruction Secondary to Meckel’s Diverticulum with a Double Basis. A Rare Anatomic Presentation. European Journal of Pediatric Surgery Reports, v. 8, n. 1, p. e59, 2020.
PARK, J. J. et al. Meckel diverticulum: the Mayo Clinic experience with 1476 patients (1950–2002). Annals of surgery, v. 241, n. 3, p. 529, 2005.
PRALL, R. T.; BANNON, M. P.; BHARUCHA, A. E. Meckel’s diverticulum causing intestinal obstruction. The American journal of gastroenterology, v. 96, n. 12, p. 3426-3427, 2001.
RAHMAT, S. et al. Does an Incidental Meckel’s Diverticulum Warrant Resection? Cureus, v. 12, n. 9, 2020.
SKARPAS, A. et al. Meckel’s Diverticulitis. A rare cause of small bowel obstruction. Journal of Surgical Case Reports, v. 2020, n. 9, p. rjaa339, 2020.
SPANGLER, H.; FISHER, J. The rule of two’s didn’t work: a case of Meckel’s diverticulum with hemorrhagic shock in an adolescent. The American Journal of Emergency Medicine, 2020.
TAWADA, M. et al. Meckel’s diverticulum adenocarcinoma accompanied with vitelline duct remnant and huge cystic lesion: A rare case report. International Journal of Surgery Case Reports, v. 75, p. 16-22, 2020.
ULLAH, F.; RAZA, Z.; NEHAL, F. Spontaneous perforation of meckel’s diverticulum presenting with generalized peritonitis. Journal of Ayub Medical College Abbottabad, v. 32, n. 4, p. 570-571, 2020.
WHAN, J.; KWOK, C. M. Intestinal obstruction caused by the strangulation of a Treves’ field pouch hernia from a Meckel’s diverticulum–A case report. International Journal of Surgery Case Reports, 2020.
YORKGITIS, B. K.; DEVECKI, K. Managing Meckel diverticulum: To resect or not resect? Journal of the American Academy of PAs, v. 33, n. 10, p. 30-32, 2020.
ZANI, A. et al. Incidentally detected Meckel diverticulum: to resect or not to resect? Annals of surgery, v. 247, n. 2, p. 276-281, 2008.