Definição
Diabetes caracteriza-se pela hiperglicemia sustentada consequente de defeitos da secreção e/ou da ação da insulina.
Epidemiologia de Diabetes
A diabetes mellitus é um importante problema de saúde em âmbito internacional e nacional.
– Estimativa de 424,9 milhões de pessoas no mundo vivem com tal doença.
Além disso, as projeções, que consideram a persistência dos hábitos sociais atuais, traçam cenários piores, com números superiores a 628.6 milhões em 2045.
Os índices brasileiros não foram promissores!
O país se encontra na quarta posição entre os 10 países com maior número de pessoas com diabetes (entre 20 a 79 anos), com 12,5 milhões em 2017.
Consideração da Organização Mundial da Saúde (OMS):
A hiperglicemia o terceiro fator mais importante para a mortalidade prematura, sendo superada apenas pela pressão arterial aumentada e uso de tabaco.
O aumento da diabetes tende a ser maior em países em desenvolvimento, uma vez que há:
- Administração frágil dos fatores associados, como: a
- transição epidemiológica e nutricional
- maior frequência de sedentarismo e excesso de peso
- urbanização acelerada
- aumento populacional e envelhecimento, além da maior sobrevida em pessoas com diabetes.
O trágico cenário acaba por ser intensificado por:
- baixo desempenho dos sistemas de saúde
- educação em saúde sobre a diabetes débil na população e até entre profissionais de saúde
Fisiopatologia
No quesito fisiopatologia, é preciso entender que existem diferentes mecanismos que geram a hiperglicemia sustentada devido à baixa produção ou uma resistência a ação da insulina.
De início, é preciso lembrar que a função fisiológica da insulina consiste em:
- Transportar a glicose sérica para dentro das células.
Atua como uma chave para o canal (chamado GLUT-4) por onde a glicose entra nas células.
A insulina é produzida nas células beta das ilhotas pancreáticas e tem uma liberação constante.
Apesar de apresentar picos após a alimentação, uma vez que sua produção é estimulada pela glicose sérica aumentada).
Conforme a etiologia, há uma variação do caminho pelo qual a fisiologia da insulina deixa de funcionar, mas não do resultado. Devido as diferentes etiopatogenias, a Diabetes Mellitus é dividida em tipos e explicaremos a fisiopatologia dentro destes tipos:
DM tipo 1
Autoimune, poligênica, a diabetes mellitus tipo 1 é caracterizada por ataques ao pâncreas de duas formas:
- Linfócitos T CD8+ que atacam células beta
- Autoanticorpos específicos para células do pâncreas
Nesse processo, por consequência, o paciente acometido possui um déficit de produção de insulina.
É um tipo com uma base patológica que indica muita associação com fatores genéticos — hipótese reforçada pela grande quantidade de diabéticos do tipo 1 que possuem alterações genéticas no HLA-DR3 e HLA-DR4 e maior frequência em pacientes com familiar acometido—, contudo, indivíduos com alterações genéticas típicas e sem a presença da doença evidenciam a importância de outros fatores, como os ambientais.
DM tipo 2
É a mais comum, e está mais associada a resistência insulínica nas células.
A resistência ainda não é completamente compreendida, mas entende-se que:
- A obesidade é um fator importante tendo em vista que o tecido adiposo produz citocinas inflamatórias que podem ser agentes importantes na resistência.
Com o tempo, as células pancreáticas passam a produzir quantidades cada vez maiores de insulina (uma vez que a quantidade de glicose sérica permanece aumentada) até que pode chegar a um quadro de exaustão e a secreção de insulina também se encontra prejudicada.
DM Gestacional
É a diabetes que era inexistente antes da gestação, com diagnóstico após o primeiro trimestre de gestação (baseado em TOTG alterado e glicose sanguínea plasmática de jejum).
A explicação consiste na produção hormonal placentária, que produz hormônios hiperglicemiantes.
Este estado propenso, associado a fatores de risco, pode levar a diabetes mellitus.
O que é preciso observar como fator de risco para DM gestacional?
- Idade Materna avançada (>40 anos)
- Índice de massa corporal (IMC) elevado
- Síndrome do ovário policístico (SOPC)
- História pessoal de diabetes gestacional ou macrossomia em criança anterior
- Relato familiar de diabetes mellitus
- Abortamento prévio
Outros tipos de DM
Ainda temos duas outras causas pouco frequentes: LADA e MODY:
MODY (Maturity-Onset Diabetes of the Young): ou Diabetes juvenil de início na maturidade.
- É um diabetes monogênico (ou seja, causado pela mutação de um só gene).
- Herança autossômica dominante (é possível identificar pela presença de três gerações da mesma linhagem afetadas).
- Deve-se pensar nesse tipo quando a diabetes ocorre em pacientes jovens (em geral, < 25 anos), não obesos, com história familiar de diabetes em duas ou mais gerações sucessivas.
LADA (Latent Autoimmune Diabetes of Adults): ou diabetes autoimune latente do adulto)
- É uma forma mais morosa da DM1, devido a uma velocidade de destruição das células pancreáticas está lento.
- Em média, diagnosticado entre 30 e 50 anos.
- Frequentemente, é confundido com DM2 e uma estratégia é a presença do anticorpo anti-GAD (diferente do DM2).

Quadro clínico de Diabetes
Os sinais e sintomas clássicos do paciente com diabéticos são os 4Ps (apesar de estarem mais relacionados com a DM1):
- Poliúria (maior volume urinário)
- Polidipsia (aumento da sede)
- Polifagia (aumento da fome)
- Perda ponderal
Em pacientes com DM2, diversas vezes são oligossintomáticos ou até assintomáticos, mas possuem alguns sintomas inespecíficos, como:
- Tontura
- Dificuldade Visual
- Astenia
- Cãibras
- Vulvovaginite de repetição
- Disfunção erétil
Cerca de 80% dos pacientes possuem excesso de peso (DM2).
Diagnóstico de Diabetes
O diagnóstico acontece mediante ao reconhecimento da hiperglicemia. Esse reconhecimento pode ser feito por meio de:
- Glicemia Plasmática de Jejum: coleta em sangue periférico após jejum calórico (≥8h)
- Teste de tolerância oral à glicose (TOTG): coleta de 2 amostras em sangue periférico, sendo a primeira em jejum, a segunda após 2h do consumo de 75g de glicose.
- Hemoglobina glicada (HbA1c): mede índice glicêmico nos últimos 3 a 4 meses, já que analisa a hemoglobina, o pigmento que se liga a glicose sanguínea.
Os parâmetros diagnósticos, se encontram na tabela:
É importante saber que os valores da hemoglobina glicada podem se alterar em situações específicas e portanto, falsear o diagnóstico.
A confirmação do diagnóstico deve ser feita com o mesmo teste e/ou em testes distintos.
Contudo, os sintomas determinam uma exceção:
1- Paciente sem sintomas: o diagnóstico deve ser confirmado com alteração dos parâmetros na segunda amostra.
2- Paciente com sintomas clássicos de hiperglicemia (poliúria, polidipsia, polifagia e perda de peso):
- não há necessidade de confirmação se glicemia aleatória ≥ 200mg/d, sendo a glicemia aleatória uma dosagem ao acaso e independente de jejum.
Tratamento de Diabetes
Em pacientes diabéticos, o controle da glicemia é individualizado e acompanhado por meio de HbA1c e glicemias capilares ou plasmáticas (podendo incluir o uso da monitorização contínua de glicose, CGM, e tempo no alvo, TIR).
Nesse sentido, segue uma tabela que evidencia o tratamento comparativo a monitorização dos parâmetros nos diferentes tipos:
| Pré- Diabetes | DM1 | DM2 | |
| HBa1c (%) | 5,7 a 6,5 | <7 | <7 |
| Glicemia de Jejum e Pré prandial (mg/Dl) | 100 a <126 | 80-130 | 80-130 |
| Glicemia 2h pós prandial | 140 a <200 | <180 | <180 |
| Glicemia ao deitar | – | 90-150 | 90-150 |
| TIR | – | > 70% | > 70% |
| Tratamento 1ª linha | Tratamento não farmacológico | Insulinoterapia(basal c/ ultrarrápida ou c/intermediária) | Metformina |
| Tratamento 2ª linha | Metformina(caso IMC>35, história de DM gestacional e A1c>6%) | Insulinoterapia(reajuste de dose e/ou tipo) | Metformina + antidiabético [ex.sulfonilureia] (terapia dupla para A1c entre 7,5 e 9%) |
Não farmacológico (lembrar de fazer abordagem individualizada):
- Padrões alimentares com menor teor de carboidratos acompanhados por profissional especializado (bom para DM2)
- Prática de atividade física (de intensidade moderada e pelo menos 150 minutos por semana)
- Consumo reduzido de carboidratos (diminuir variabilidade glicêmica)
- Inclusão de cereais integrais como parte da alimentação diária
- Promover perda de peso (DM2)
- Adição de fibra solúvel à rotina alimentar, em produtos como aveia, feijões, cevada, etc
- Retirada de ácidos graxos trans
- Inclusão de alimentos fontes de ácidos graxos monoinsaturados (MONO) e poli-insaturados (POLI) e o controle no consumo de ácidos graxos saturados, priorizando o consumo de carnes magras, leite desnatado, frutas oleaginosas e consumo mínimo de carnes processadas — a sociedade brasileira de diabetes indica a dieta mediterrânea e DASH (Dietary Approaches to Stop Hypertension).

Resumo dos principais pontos
Diabetes Mellitus é uma afecção que devido sua prevalência crescente, apresenta, também, importância crescente.
É essencial a identificação dos 4 Ps ( Poliúria, Polidipsia, Polifagia, Perda Ponderal) no exame clínico.
Os parâmetros para o diagnóstico de DM são essenciais, como Glicose em jejum ≥ 126mg/dL, TOTG-75g ≥200 mg/dL e HbA1c≥6,5%.
Isto, tendo em vista que em assintomáticos o diagnóstico será feito após a segunda amostra e em sintomáticos clássicos, se glicemia de jejum ≥200 mg/dL, o diagnóstico pode ser fechado.
O tratamento deve envolver a dietoterapia e mudança de hábitos em todos os tipos, mas possui particularidades no âmbito farmacológico conforme os tipos.
Referências:
- Sociedade Brasileira de Diabetes. Diretrizes Sociedade Brasileira de Diabetes. 2019-2020. Editora clannad.
- BMJ. Diabetes Mellitus. 2021.
- VILAR, L.; et al. Endocrinologia Clínica. 6ª ed. Rio de Janeiro:Editora Guanabara Koogan Ltda, 2016.
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