Introdução
Embora o hormônio do crescimento (GH) seja conhecido por deter um notável papel no desenvolvimento de crianças e adolescentes, ele continua a exercer funções importantes – não relacionadas ao crescimento – durante a vida adulta, e sua deficiência pode causar graves prejuízos em variadas vias metabólicas. Tais comprometimentos fisiológicos ocorrem porque o GH apresenta efeitos anabólicos e lipolíticos, além de ser classificado como um dos hormônios do “estresse” e ter atividade diabetogênica. Neste artigo, serão apresentadas as principais consequências da atuação do GH e uma visão geral de sua deficiência.
Efeitos diretos e indiretos do GH
Anabolismo
O GH potencializa o transporte de aminoácidos para o interior das células e a incorporação desses em proteínas, assim como reduz a proteólise. Ele também atua amplificando a tradução do RNA em razão da síntese proteica e, em intervalos de tempo maiores, estimula a transcrição do DNA. Ademais, o hormônio do crescimento amplia a produção de somatomedinas – fatores de crescimento semelhantes à insulina – pelo fígado, por meio das quais realiza a maior parcela de suas funções.
Os efeitos anabólicos do GH são muito relevantes no crescimento das cartilagens e dos ossos, visto que promove o aumento da reprodução de células osteogênicas e condrocíticas, assim como intensificam a deposição de matriz extracelular.
Metabolismo energético
O hormônio do crescimento aumenta a utilização de ácidos graxos por meio da ativação da lipase sensível a hormônios e, quando tal efeito é somado ao anabolismo, há maior crescimento da massa magra corporal. Além disso, o GH reduz a captação de glicose pelos tecidos musculoesquelético e adiposo, intensifica a produção desse carboidrato no fígado e, como consequência, eleva a glicemia e a secreção de insulina. Desse modo, observa-se que o hormônio induz uma certa resistência à última.
Principal causa da deficiência de GH
Hipopituitarismo
Como o GH é um hormônio produzido e secretado pela adeno-hipófise, a principal causa de sua deficiência consiste na diminuição da atividade da glândula hipofisária. Trata-se de uma doença pouco comum e pode ser causada por inúmeros fatores. Dentre eles, encontram-se:
- Tumores (de hipófise, meningiomas, pinealomas, etc.) e outras lesões compressivas ou mecânicas;
- Suprimento sanguíneo inadequado, decorrente de hemorragias, trombose ou de outros distúrbios circulatórios;
- Infecções como meningoencefalites e sífilis;
- Distúrbios inflamatórios como a sarcoidose;
- Lesões decorrentes de intervenção cirúrgica ou procedimento invasivo;
- Doenças autoimunes;
- Radioterapia;
- Diminuição da função hipotalâmica.
Apresentação clínica
Uma vez que o paciente adulto apresenta deficiência do hormônio do crescimento, é comum observar perda de massa corporal magra e obesidade central acompanhada do aumento dos níveis de colesterol, de lipoproteína de baixa densidade (LDL) e de triglicerídeos, predispondo‑o a distúrbios cardiovasculares. Apesar de o GH ser caracterizado como hormônio diabetogênico, a redução de seus níveis também pode estar associada à hiperglicemia e ao diabetes mellitus, condições provavelmente agravada pela obesidade.
Para mais, há redução do remodelamento e da densidade óssea – predispondo o indivíduo à osteopenia, a fraturas ósseas e à moderada resistência ao paratormônio, do mesmo modo que há declínio da função cardíaca e da resistência a atividades físicas. Por fim, também são observados distúrbios psicossomáticos, como depressão e ansiedade.
Diagnóstico
A deficiência do hormônio do crescimento apresenta sintomas comuns, mas pouco específicos, dificultando a tarefa de distinguir pacientes com disfunção hormonal daqueles com plena atuação hipofisária. Portanto, recorre-se a testes laboratoriais para comprovar a redução dos níveis de GH. Todavia, como o GH tem uma meia-vida relativamente curta e sua secreção apresenta ritmo pulsátil, comumente é medida a concentração do fator de crescimento semelhante à insulina 1 (IGF-1) – de maior meia-vida – no sangue.
Tratamento
Primeiramente, deve-se tratar a causa da deficiência de hormônios hipofisários. Caso corresponda a um tumor, frequentemente a remoção cirúrgica é o primeiro tratamento, seguido de radioterapia. A irradiação geralmente provoca a perda, parcial ou total, das funções remanescentes da hipófise, de modo que o paciente deve ser acompanhado para avaliação das glândulas-alvo após o tratamento.
O tratamento também corresponde à reposição hormonal, sendo o GH o único hormônio hipofisário substituído em caso de deficiência. A estratégia terapêutica é realizada por meio de aplicações de doses fisiológicas de GH em pacientes com deficiência comprovada, e estudos têm apresentado resultados positivos quanto ao ganho de massa corporal magra, à redução da fadiga e ao aumento da densidade óssea. Contudo, ainda são realizados estudos para avaliar mais profundamente os efeitos e a segurança dessa terapia de substituição hormonal.
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Referências
- KOEPPEN, Bruce M.; STANTON, Bruce A. Berne e Levy Fisiologia. Elsevier Brasil, 2018.
- CHAPMAN, Ian M.. Hipopituitarismo. 2019. Disponível em: https://www.msdmanuals.com/pt/casa/dist%C3%BArbios-hormonais-e-metab%C3%B3licos/dist%C3%BArbios-da-hip%C3%B3fise/hipopituitarismo. Acesso em: 29 nov. 2020.
- MELMED, Shlomo. Pathogenesis and Diagnosis of Growth Hormone Deficiency in Adults. New England Journal Of Medicine, [S.L.], v. 380, n. 26, p. 2551-2562, 27 jun. 2019. Massachusetts Medical Society. http://dx.doi.org/10.1056/nejmra1817346.