Cuidado seletivo: repercussões da pandemia do COVID-19 em profissionais de saúde | Colunistas

  • dezembro 10, 2020
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Olá, querido leitor! Em meio ao atual período de instabilidades e renovações em saúde, algumas problemáticas em torno de manejo, rastreio e cuidado de pacientes expostos ou infectados vêm sendo abordadas rotineiramente com você, mediante a divulgação de novos estudos, protocolos e informações atualizadas sobre a infecção pelo novo coronavírus. No entanto certos nichos de discussão ainda se mantêm marginalizados, certo? Será que você pode selecionar os de maior impacto atual ao cuidado humanizado na rotina de Atenção em Saúde?

Nesse diálogo, gostaria de destacar os impactos a pequeno e longo prazo da exposição contínua dos profissionais de saúde dentro de uma perspectiva psicossocial, de qualidade de vida e de status de saúde mental e fisiológica.

Dada a ínfima existência de ações voltadas aos profissionais de saúde, que trabalham com a doença, mas não são alvos dele, o isolamento desses agentes gira em torno unicamente de sua prática, o que desumaniza o profissional e pode ser capaz de instaurar quadros de ansiedade, depressão e síndromes de exaustão, como o Burnout, que se popularizou pela alta incidência em áreas laborais de grande pressão e estresse.

Uma vez que os pacientes não são os únicos componentes da relação médico-paciente que podem ser atingidos pelas repercussões inoportunas da infecção pelo SARS-COV-2, mantém-se o questionamento a seguir. 

Quem cuida de quem cuida?

A rotina exaustiva, por si só, já poderia ser um fator desencadeante para repercussões nos profissionais de saúde e, se acrescida de um fator estressante exterior, poderia ser o foco de aceleração para o desenvolvimento de quadros psicológicos urgentes. Essas pessoas, inovadoramente, passam a ser o objeto de estudos na atualidade, em razão dos relatos de sintomas alarmantes em grande parte da equipe de cuidado, fato atestado por pesquisas pontuais conduzidas em centros de saúde para delinear o perfil de apresentação dessas queixas e quais fatores seriam responsáveis pela manifestação desses quadros.

Contudo, a consideração única das consequências psicológicas, por mais abrangente e importante que seja, ainda relativiza outros aspectos do cenário atual, como a possibilidade iminente de contaminação dos médicos, enfermeiros, agentes de saúde e todos os outros componentes do meio, já que a rotina desses profissionais é permeada pela exposição contínua.

Mesmo em meio às práticas de biossegurança, desconsiderar os potenciais quadros sintomatológicos, durante e após o processo de recuperação e do isolamento, é desprivilegiar as queixas das pessoas que promovem o cuidado, as quais podem ser vítimas de sequelas temporárias posteriores da mesma forma que seus pacientes, situação agravada pelo retorno aos atendimentos e pela rotina exaustiva de suas profissões.

 

Em que situações o profissional de saúde torna-se paciente?

Novos cenários demandam formas inovadoras de manejo das queixas. Para isso, é necessário conhecer esses novos fatores de propulsão do cansaço extremo aos envolvidos.   Sendo assim, a quais podemos dar mais ênfase?

Quais os sintomas sugestivos?

A identificação de possíveis repercussões ocupacionais pode se dar de forma plural, visto que a sintomatologia clínica é delineada por queixas de várias naturezas. Assim, podemos citar os sintomas:

  • Físicos: náuseas, falta de apetite, palpitação, dor torácica, dores de cabeça e abdominais e insônia/alterações do sono;
  • Comportamentais: autossabotagem, uso de álcool e drogas, relação conflituosa com as pessoas ao redor, estado de negação, desleixo e desapego anormais com as obrigações;
  • Emocionais: tonturas, ansiedade, mau humor, raiva e medo, alterações bruscas de humor, baixa autoconfiança e incapacidade de sentir prazer ao realizar atividades normalmente agradáveis;
  • Cognitivos: baixa concentração, memória ruim, confusão, estado de hipervigilância, pensamentos indesejados e flashbacks.

Como evitar a sobrecarga e a exaustão da equipe de saúde?

Os centros de saúde exercem grande parte da responsabilidade por repercussões patológicas ocupacionais nos profissionais[CB4] , não obstante, algumas ações de intervenção e auxílio podem auxiliar na prevenção primária e secundária, assim como no tratamento pós-ocorrência dos episódios. Então, quais seriam elas?

  • Criação de redes de apoio psicológico para os profissionais atuantes.
  • Suporte integral de profissionais expostos ou infectados em realização de quarentena, de acordo com as necessidades individuais de cada um.
  • Criação de uma rede de suporte para descanso e revezamento da equipe.
  • Manutenção do fornecimento de insumos para a prática clínica de forma segura e ideal.

Dessa forma, você pode compreender que os riscos ocupacionais em meio à pandemia atual extrapolam a realidade corriqueira de atendimento e pode suscitar o exercício de habilidades adicionais, focadas na prevenção e redução da morbidade e capazes de abarcar a variedade de demandas recepcionadas.

Mas por que a garantia dessa rotina de cuidado é importante? Simplesmente, porque a qualidade de sono e de estilo de vida serão pontos cruciais para o fornecimento de um atendimento humanizado e correto para o paciente, visto que nenhum serviço é fornecido de forma qualitativa se o responsável por ele estiver em condições incompatíveis com o exercício profissional, fatores que certamente serão recebidos pelo paciente de forma negativa. Nesse sentido, evitar ao máximo a ocorrência de experiências traumáticas é fundamental para que a quebra da relação de longitudinalidade não ocorra e para que estados de frustração profissional não se instalem devido à condição de saúde dos provedores. O manejo irregular de suas necessidades, principalmente na pandemia, contribui para insatisfação do doente e exaustão do profissional, resultando no aumento de quadros depressivos exclusivamente em decorrência da atuação insuficiente no enfrentamento à COVID-19.


Fonte: (“Revista Brasileira de Medicina do Trabalho”, [s.d.])

O texto é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto.

Observação: material produzido durante vigência do Programa de colunistas Sanar junto com estudantes de medicina e ligas acadêmicas de todo Brasil. A iniciativa foi descontinuada em junho de 2022, mas a Sanar decidiu preservar todo o histórico e trabalho realizado por reconhecer o esforço empenhado pelos participantes e o valor do conteúdo produzido. Eventualmente, esses materiais podem passar por atualização.

Novidade: temos colunas sendo produzidas por Experts da Sanar, médicos conceituados em suas áreas de atuação e coordenadores da Sanar Pós.


REFERÊNCIAS:

  1. WALTON, M.; MURRAY, E.; CHRISTIAN, M. D. Mental health care for medical staff and affiliated healthcare workers during the COVID-19 pandemic. European Heart Journal: Acute Cardiovascular Care, v. 9, n. 3, p. 241–247, abr. 2020. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/32342698/. Acesso em: 13 nov 2020.
  2. Burnout Syndrome: consequences and implications of an increasingly prevalent reality in health professionals’ lives. Silveira ALP, Colleta TCD, Ono HRB, Woitas LR, Soares SH, Andrade VLÂ, et al. Burnout Syndrome: consequences and implications of an increasingly prevalent reality in health professionals’ lives. Rev Bras Med Trab.2016;14(3):275-284. Disponível em: http://www.rbmt.org.br/how-to-cite/121/pt-BR. Acesso em: 13 nov 2020.
  3. MATSUO, T. et al. Prevalence of Health Care Worker Burnout During the Coronavirus Disease 2019 (COVID-19) Pandemic in Japan. JAMA network open, v. 3, n. 8, p. e2017271, 3 ago. 2020.  Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/32749466/ Acesso em: 13 nov 2020
  4. SHREFFLER, J.; PETREY, J.; HUECKER, M. The impact of COVID-19 on healthcare worker wellness: A scoping review. Western Journal of Emergency Medicine, v. 21, n. 5, p. 1059–1066, 2020. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/32970555/. Acesso em: 13 nov 2020.
  5. ELSTON, D. M. Occupational skin disease among health care workers during the coronavirus (COVID-19) epidemicJournal of the American Academy of DermatologyMosby Inc., , 1 maio 2020. Disponível em: . Acesso em: 13 nov. 2020
  6. ZHANG, S. X. et al. At the height of the storm: Healthcare staff’s health conditions and job satisfaction and their associated predictors during the epidemic peak of COVID-19Brain, Behavior, and ImmunityAcademic Press Inc., , 1 jul. 2020. Disponível em: . Acesso em: 13 nov. 2020
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  8. Black JRM, Bailey C, Przewrocka J, Dijkstra KK, Swanton C. COVID-19: the case for health-care worker screening to prevent hospital transmission. Lancet. 2020 May 2;395(10234):1418-1420. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/32305073/. Acesso em: 13 nov. 2020
  9. BARRANCO, R.; VENTURA, F. Covid-19 and infection in health-care workers: An emerging problem. The Medico-legal journal, v. 88, n. 2, p. 65–66, 1 jul. 2020. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/32441196/. Acesso em: 13 nov. 2020
  10. Lockley SW, Barger LK, Ayas NT, Rothschild JM, Czeisler CA, Landrigan CP; Harvard Work Hours, Health and Safety Group. Effects of health care provider work hours and sleep deprivation on safety and performance. Jt Comm J Qual Patient Saf. 2007 Nov;33(11 Suppl):7-18. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/18173162/. Acesso em: 13 nov. 2020
  11. TEIXEIRA, Carmen Fontes de Souza et al . A saúde dos profissionais de saúde no enfrentamento da pandemia de Covid-19. Ciênc. saúde coletiva,  Rio de Janeiro ,  v. 25, n. 9, p. 3465-3474,  Sept.  2020 .   Available from . access on  13  Nov.  2020.  

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