Proposta
em 1967, a classificação começou como uma ferramenta para a estratificação do risco
de morte em pacientes com provável infarto agudo do miocárdio (IAM). Elaborada
por Thomas Killip III e John T. Kimball, a escala baseava-se no exame-físico do paciente à
beira do leito e tinha como objetivo determinar quais indivíduos poderiam se
beneficiar do atendimento
em unidades coronárias (UCO).
A
estratificação de risco pós-infarto agudo do miocárdio (IAM) visa prever os
eventos adversos e estabelecer o prognóstico de forma sistematizada. A pontuação tem como base as informações obtidas
durante a anamnese e o exame físico, observando-se possíveis sinais de
insuficiência cardíaca e riscos de instabilidade hemodinâmica.
Sua
finalidade é compor o quadro do paciente com maior risco de morrer dentro dos
primeiros 30 dias após o evento isquêmico. Resumidamente, é um índice de gravidade de insuficiência
cardíaca em pacientes após episódio de infarto agudo do miocárdio. Junto de
outras escalas de avaliação, configura como um importante instrumento na hora
de monitorar o paciente.
1.
Estudo Original
O estudo clássico contou com 250 casos suspeitos
de infarto agudo do miocárdio. Os pacientes foram admitidos na Unidade
Coronariana (UCO) de um hospital universitário dos Estados Unidos. Os casos
foram estratificados da seguinte maneira:
- Killip I: 81 pacientes (33%) sem
sinais de descompensação cardíaca; - Killip II: 96 pacientes (38%) com
estertores crepitantes pulmonares, terceira bulha e pressão venosa jugular
elevada; - Killip III: 26 pacientes (10%) com
edema pulmonar agudo (EAP); - Killip IV: 47 pacientes (19%) com
choque cardiogênico ou hipotensão arterial (medida como PAS < 90mmHg) e
evidência de vasoconstrição periférica (oligúria, cianose ou diaforese).
Índice de mortalidade de 6%; 17%; 38%
e 81%, respectivamente.
Esta escala foi de extrema importância na
prevenção de complicações (e óbito) após episódios de infarto agudo do
miocárdio. Para que tenhamos dimensão da sua importância, vale lembrar que a terapia trombolítica surgiu apenas em 1986. A
“segunda revolução da cardiologia” na segunda metade do século XX ocorreu quase
no final do século, no início dos anos de 1990, com a introdução da
angioplastia primária.
2.
A Classificação de Killip:
| CLÍNICA | MORTALIDADE | |
| KILLIP I |
Sem alterações |
– |
| KILLIP II | Estertores em base pulmonar com ou sem B3 |
8% |
| KILLIP III |
Edema agudo de pulmão (estertores em >50%) |
44% |
| KILLIP IV | Choque cardiogênico | 80% |
A
avaliação do estado hemodinâmico do paciente à beira do leito por meio dos
Critérios de Killip segue sendo utilizada até os dias de hoje. No entanto, a
eficácia dos dados obtidos sobre o prognóstico de pacientes com classe Killip
superior versus pacientes com
classificação inferior tem sido questionada nos últimos anos.
3.
Estudos Recentes
Um estudo realizado por pesquisadores em Israel
e publicado na revista The American
Journal of Cardiology avaliou as tendências temporais no manejo (e
resultado) de pacientes avaliados de acordo com a escala de Killip, os quais
manisfestavam diagnóstico de síndrome coronariana aguda (SCA).
O trabalho examinou o valor prognóstico
dentro do contexto contemporâneo para tal classificação. A análise estabeleceu
dois períodos de observação: inicial de 2000 a 2008 versus período final de 2010 a 2016. Os pacientes
eleitos tinham classes Killip inferiores (= 1) e superiores (≥2).
Os resultados clínicos incluíram eventos
cardíacos adversos maiores até o trigésimo dia após o evento isquêmico (morte, infarto do miocárdio,
acidente vascular cerebral, angina instável, trombose de stent, revascularização
urgente) e mortalidade em um ano.
O período inicial incluiu
9.736 pacientes e o período tardio, 5.288 indivíduos. Para cada período, 18,5%
e 11,5% foram categorizados como classe Killip superior, respectivamente. As comorbidades basais (diabetes, hipertensão,
dislipidemia) foram mais prevalentes no período tardio em ambos os grupos de
estudo (p <0,001).
As taxas de
Eventos Cardíacos Adversos Maiores (ECAM) até o trigésimo dia diminuíram em
ambas as classes Killip. Contudo, a mortalidade em um ano diminuiu apenas em
pacientes com Killip inferior, permanecendo preocupantemente alta em pacientes
com classe Killip superior (p = 0,75).
A classe
Killip foi um preditor independente significativo para mortalidade em um ano,
tanto no período quanto no período tardio. O estudo concluiu que, mesmo na era
atual, os pacientes que apresentam síndrome coronariana aguda e classe superior
de Killip demonstram baixa sobrevida em um ano.
Esses
resultados demonstram que os esforços devem se concentrar em melhorar a adesão
às terapias recomendadas pelas diretrizes. O sistema de classificação de Killip
ainda é uma ferramenta de prognóstico confiável e seu uso nos dias de hoje,
indispensável.
Colunista:
- Illana Machado Braga
- Instagram: @med.illa