A febre Q é uma zoonose causada pela bactéria intracelular Coxiella burnetii, transmitida principalmente pela inalação de partículas excretadas por animais, especialmente gado. Descoberta em 1935 em Queensland, Austrália, entre trabalhadores da indústria de carne, a doença recebeu o nome de “febre Q” devido à dificuldade inicial de identificação de seu agente causal.
Embora possa ocorrer em todo o mundo, a incidência é mais elevada em determinadas regiões, como o Oriente Médio, e a infecção é frequentemente subnotificada, o que dificulta seu reconhecimento clínico e epidemiológico.
A apresentação típica é a de uma doença febril aguda e autolimitada, mas complicações graves podem ocorrer, incluindo manifestações respiratórias e cardiovasculares, especialmente em indivíduos imunocomprometidos ou com comorbidades.
Devido ao seu potencial de disseminação e gravidade, considera-se C. burnetii um agente de risco para bioterrorismo, tornando essencial o conhecimento sobre sua epidemiologia, quadro clínico, diagnóstico e manejo.
Etiologia e características microbiológicas
O agente causador da febre Q é a bactéria intracelular obrigatória Coxiella burnetii, um cocobacilo gram-negativo filogeneticamente relacionado às Legionellales.
Essa bactéria possui alta resistência a condições adversas, como calor, radiação ultravioleta, variações de pH e desinfetantes, e consegue sobreviver por longos períodos no ambiente externo, o que contribui para seu alto poder infectante.
C. burnetii apresenta duas formas morfológicas distintas:
- Small-Cell Variant (SCV), resistente e dormente, adaptada à sobrevivência extracelular.
- Large-Cell Variant (LCV), metabolicamente ativa e intracelular, responsável pela replicação dentro das células hospedeiras.
A bactéria sofre ainda uma variação de fase antigênica, observada em seu lipopolissacarídeo (LPS), que distingue a fase I, altamente infecciosa, da fase II, avirulenta em culturas prolongadas. Esta característica é fundamental para o diagnóstico sorológico, já que infecções agudas apresentam predominância de anticorpos contra antígenos de fase II, enquanto infecções crônicas estão associadas a anticorpos contra antígenos de fase I.
No organismo humano, a bactéria invade preferencialmente macrófagos alveolares e células de Kupffer no fígado, formando vacúolos parasitóforos onde consegue resistir à acidificação e às enzimas lisossômicas, multiplicando-se por divisão binária. Sua capacidade de sobreviver em um ambiente ácido dificulta a ação de antibióticos, tornando a infecção mais resistente ao tratamento.
Epidemiologia da febre Q
A febre Q é uma zoonose de distribuição global, embora sua incidência e prevalência exatas sejam subestimadas devido à subnotificação e à frequência de infecções subclínicas.
A doença ocorre na maior parte do mundo, com exceção da Nova Zelândia, sendo mais frequente em regiões como o Oriente Médio. Nos Estados Unidos e na Europa, a incidência é relativamente baixa, enquanto surtos significativos foram relatados em países como Holanda, Israel, França e Suíça.
Os principais reservatórios animais incluem bovinos, ovinos e caprinos, nos quais a infecção frequentemente é assintomática, embora possa provocar aborto em ovelhas e cabras. Além desses, a bactéria pode infectar aves, répteis, mamíferos marinhos, cães, gatos e outros animais.
A transmissão humana ocorre predominantemente pela inalação de partículas contaminadas excretadas por animais, que podem se dispersar por longas distâncias, podendo infectar indivíduos próximos a fazendas mesmo sem contato direto com os animais. Formas menos comuns de transmissão incluem ingestão de leite cru contaminado, inoculação percutânea, exposição laboratorial e, raramente, transmissão pessoa a pessoa.
Por fim, o risco ocupacional é relevante em trabalhadores rurais, veterinários e laboratoristas, sendo a febre Q considerada um agente biológico de alto risco devido à baixa dose infecciosa necessária para causar a doença.
Quadro clínico da febre Q
A febre Q apresenta um espectro clínico variável, podendo ser assintomática em cerca de metade dos indivíduos infectados.
Entre os pacientes sintomáticos, a forma aguda predomina, com período de incubação de uma a cinco semanas (mediana de 18 dias). A apresentação mais comum é uma síndrome febril semelhante à gripe, caracterizada por febre alta, cefaleia intensa, mialgia, fadiga, calafrios, tosse e suores noturnos, geralmente com início abrupto.
Ademais, em casos não tratados, a febre pode persistir por uma a três semanas ou mais, e considera-se a doença no diagnóstico diferencial de febres prolongadas, especialmente em regiões endêmicas ou após exposição conhecida.
A febre Q também pode manifestar-se como pneumonia, frequentemente leve, com tosse seca e febre, embora casos graves tenham sido descritos. Os achados radiológicos variam, incluindo infiltrados intersticiais, opacidades em vidro fosco, consolidações lobares e massas arredondadas.
Além disso, hepatite aguda também é comum, com elevação discreta das aminotransferases. Formas graves podem apresentar granulomas hepáticos em “anel de fibrina” e, raramente, icterícia ou hepatite colestática.
Por fim, manifestações menos frequentes incluem:
- Alterações cutâneas;
- Síndromes neurológicas, como meningite asséptica, encefalite, mielite, neuropatia periférica;
- Manifestações cardíacas, como pericardite, miocardite, bloqueios de condução e, raramente, endocardite aguda;
- Manifestações inflamatórias ou hematológicas, como linfadenite, linfoma e linfo-histiocitose hemofagocítica.
Diagnóstico da febre Q
O diagnóstico da febre Q deve ser considerado em pacientes que apresentam síndromes compatíveis (como doença febril aguda, pneumonia ou hepatite) associadas a fatores de risco, incluindo exposição a animais de criação, contato laboratorial com Coxiella burnetii ou residência próxima a áreas rurais. No entanto, o diagnóstico não deve ser descartado em indivíduos sem risco epidemiológico evidente, visto que nem todos os casos possuem histórico de exposição identificado.
A confirmação depende de critérios clínicos, contexto epidemiológico e testes laboratoriais.
Como C. burnetii não cresce em hemoculturas convencionais, o diagnóstico microbiológico baseia-se principalmente em sorologia e detecção molecular.
A sorologia avalia anticorpos contra a fase II da bactéria, sendo recomendada a coleta de amostras na fase aguda e convalescente para identificar soroconversão ou aumento significativo de títulos de IgG e IgM, confirmando a infecção aguda.
Por fim, a reação em cadeia da polimerase (PCR) é útil no início da doença, antes da detecção sorológica, sendo mais sensível entre o terceiro e o sétimo dia após o início dos sintomas.
Diagnóstico diferencial
O diagnóstico diferencial da febre Q varia conforme a apresentação clínica e inclui condições infecciosas e não infecciosas.
Para pacientes com síndrome semelhante à gripe, considera-se no diagnóstico diferencial:
- Infecções virais comuns, como influenza, COVID-19, HIV agudo, citomegalovírus, adenovírus e enterovírus.
- Infecções transmitidas por artrópodes, como ehrlichiose, anaplasmose, doença de Lyme, riquétsias e arboviroses (dengue, Zika, chikungunya, Oropouche);
- Zoonoses, como brucelose e leptospirose.
Em casos com pneumonia, é necessário diferenciar entre agentes bacterianos típicos e atípicos (Chlamydia pneumoniae, Mycoplasma pneumoniae, Legionella spp.), vírus respiratórios e infecções fúngicas ou micobacterianas, incluindo histoplasmose, blastomicose, coccidioidomicose e tuberculose, que podem apresentar achados radiológicos semelhantes à febre Q. Além disso, processos não infecciosos, como neoplasias pulmonares, devem ser avaliados se os achados clínicos não se resolverem com terapia adequada.
Para pacientes com hepatite associada, o diagnóstico diferencial inclui:
- Hepatites virais (A, B, C e E);
- Outras infecções sistêmicas capazes de alterar exames hepáticos, como citomegalovírus, ehrlichiose, anaplasmose, brucelose, leptospirose e pneumonias atípicas.
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Referências
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