COVID-longo e a persistência de sintomas pós-infecção | Colunistas
Diferentemente de outras infecções comuns, como a da influenza, a COVID-19 vem intrigando pesquisadores e médicos em virtude dos efeitos que causa pós-infecção em seres humanos. Esperava-se, como as demais, que sua sintomatologia desaparecesse com o decorrer da melhora do quadro de saúde dos indivíduos afetados. No entanto, embora muitos recuperados aparentem não ter tido quaisquer sequelas da contaminação, outros sentem sintomas posteriores ao contágio, de modo persistente, que causam danos físicos e emocionais a esses indivíduos, fazendo surgir uma denominação para esse tipo de contaminação com danos pós-infecção: COVID-longo (tradução livre do termo em inglês “long COVID”).
Sintomas persistentes
Com o decorrer dos estudos iniciais sobre a infecção pela SARS-CoV-2, muitos sintomas foram identificados como sugestivos de contaminação, como febre, dispneia, cansaço, tosse seca, dor de cabeça, comprometimento cognitivo, erupções cutâneas, entre outros. Não obstante, mediante observação cuidadosa dos indivíduos recuperados, foi nítido o surgimento de sintomatologias pós-contágio, como anosmia (redução ou eliminação da capacidade de distinguir odores), disgeusia (alteração da capacidade de sentir sabores) e sensação contínua de fadiga, sendo essa última sintomatologia bem evidente em um estudo publicado na British Medical Journal. Em uma Brief Communication publicada nesse periódico, tendo por base um pequeno estudo realizado com 384 indivíduos que foram submetidos a cuidados hospitalares por conta da infecção por coronavírus, constatou-se que mais da metade desses permaneceu com quadros de dificuldade respiratória, relatando uma incessante falta de fôlego, em um acompanhamento de até 2 meses após o início da avaliação, com quadros de tosse (34% dos pacientes analisados) e fadiga (69% dos indivíduos estudados).
Além dessas manifestações mais visíveis, estudos identificaram lesões que comprometiam o funcionamento de diversos órgãos, diminuindo as capacidades cardíaca e pulmonar em mais de 30% dos indivíduos analisados, chegando a afetar 25% desses com múltiplas lesões de órgãos; esses dados são alarmantes quando se tem em mente que a média de idade dos participantes da pesquisa é de 44 anos, ou seja, uma população jovem e em idade ativa, e que essas manifestações não necessariamente estão associadas a quadros graves de infecção pela COVID-19. Tendo por base que os quadros graves, que demandam atendimento médico especializado, como Unidade de Terapia Intensiva – UTI, ocorrem a pouco mais de 20% dos indivíduos contaminados pela SARS-CoV-2, uma quantidade significativa da população pode ser afetada dessa grave maneira, o que evidencia a necessidade de cuidado especial para se evitar a contaminação, tanto por parte dos órgãos sanitários locais como por parte da população.
COVID-longo em crianças
Embora a proporcionalidade de infectados demonstre uma relação maior de contaminação em indivíduos de maior idade e com presença de comorbidades, como hipertensão arterial sistêmica (HAS) e diabetes, em relação a indivíduos de menor idade, esses não estão totalmente imunes aos danos, sejam de curto ou longo prazo, que a infecção por SARS-CoV-2 pode causar. Em um estudo realizado com 5 crianças suecas, de idade entre 9 e 15 anos, foi verificado que, embora o curso da doença se apresente mais leve na faixa etária infantil e púbere, uma parcela delas desenvolveu sintomas prolongados (com mais de 2 meses após contaminação pela COVID-19), característicos de COVID-longo.
Das 5 crianças analisadas no estudo, foi unânime a sensação crônica de fadiga, dispneia e palpitação cardíaca ou dor no peito, além de outros sintomas que não afetaram igualmente a todas, como remissão de febre, distúrbios no sono, dores articulares e nos membros, dor de cabeça, dores abdominais, dificuldade de concentração, perda de memória, fraqueza muscular, tontura repentina, alterações no olfato e paladar, dor na região da garganta, perda de apetite e peso. Em um desses indivíduos, o qual apresenta transtorno do espectro autista em grau leve, foi observado piora do transtorno autista, com acentuação de comportamento repetitivo e variação do humor, com maior recorrência de comportamentos depressivos e de raiva. Das crianças analisadas nesse estudo, algumas descreveram um pouco de melhora dos sintomas após um período médio de 6 a 8 meses, embora a percepção pessoal de fadiga fosse o relato comum a todos os indivíduos participantes. Das 5 crianças do estudo, 4 relataram ter algum tipo de sintoma que de algum modo o incomodava nas atividades diárias e 1 conseguiu descrever que a sensação de ser afetado pelos sintomas lhe proporcionava “dias bons e dias ruins”.
Conclusão
A observação cuidadosa das condições pós-infecção de indivíduos infectados pela COVID-19 permitiu a descoberta de sintomas a longo prazo decorrentes da contaminação pelo vírus SARS-CoV-2. Entretanto, as razões da permanência desses sintomas nas pessoas afetadas encontram-se ocultas ou parcialmente compreendidas por parte de médicos e cientistas, até o presente momento.
Dessa maneira, é primordial o avanço nas pesquisas acerca da maneira como o SARS-CoV-2 afeta os sistemas corpóreos humanos, de modo que se possa desenvolver métodos que recuperem, total ou parcialmente, a fisiologia normal dos indivíduos afetados pelos sintomas do COVID-longo. Enquanto isso ainda não é plenamente possível, é primordial que todos sigam as diretrizes estabelecidas pelos órgãos de saúde, como o isolamento social, uso de máscaras e desinfecção das mãos com sabão ou álcool em gel. Os danos do COVID-longo podem afetar a todos, independentemente do tipo de infecção que tenham ou de suas idades, sendo a simples arma da prevenção uma medida eficaz para se proteger dos danos físicos e emocionais provenientes da contaminação por coronavírus.
O texto é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto.
Observação: material produzido durante vigência do Programa de colunistas Sanar junto com estudantes de medicina e ligas acadêmicas de todo Brasil. A iniciativa foi descontinuada em junho de 2022, mas a Sanar decidiu preservar todo o histórico e trabalho realizado por reconhecer o esforço empenhado pelos participantes e o valor do conteúdo produzido. Eventualmente, esses materiais podem passar por atualização.
Novidade: temos colunas sendo produzidas por Experts da Sanar, médicos conceituados em suas áreas de atuação e coordenadores da Sanar Pós.
Posts relacionados:
- Resumo sobre 1 ano da pandemia de coronavírus para médicos e profissionais da saúde
- A eficácia de antagonistas do receptor de interleucina-6 em pacientes críticos com COVID-19
- Hidroxicloroquina com azitromicina para pacientes ambulatoriais de alto risco: foi efetivo?
- Reações locais tardias à vacina da Moderna
- Transmissão de covid-19 por assintomáticos existe, mas quanto?
- COVID-19 pode causar “curto-circuito” no cérebro
Referências:
Folha informativa COVID-19 – Escritório da OPAS e da OMS no Brasil- https://www.paho.org/pt/covid19
Long COVID: who is at risk? – https://theconversation.com/long-covid-who-is-at-risk-151797 Case report and systematic review suggest that children may experience similar long‐term effects to adults after clinical COVID‐19 – https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC7753397/