Introdução
Na batalha contra o novo coronavírus (SARS-CoV-2), existem mais de 70
estudos de terapias com anticorpos pelo mundo, em diferentes estágios de
desenvolvimento. Enquanto métodos de imunização ativa, assim como as vacinas,
requerem maior tempo de desenvolvimento e testagem clínica, a imunização
passiva, que se processa através da transferência de anticorpos contra um
organismo, pode ser uma arma durante a urgência da pandemia de COVID-19. Diante
disso, com as evidências já obtidas pelos estudos clínicos em humanos, essa
técnica funciona de forma mais eficaz, em casos leves e moderados da doença. É
o que relata as pesquisas publicadas recentemente por duas indústrias
farmacêuticas, a Eli Lilly e a Regeneron.
Estudo com anticorpos monoclonais (LY-CoV555)
Diante dos resultados obtidos pela companhia farmacêutica Eli Lilly,
em pacientes hospitalizados em estágio mais avançado da doença, o ensaio de sua
terapia com anticorpos chegou a ser interrompido, devido a sua falta de
eficácia. A companhia chegou a emitir uma nota, onde afirma que “pacientes
hospitalizados podem ter menos benefícios com anticorpos neutralizantes, que
são um complemento do próprio sistema imunológico dos pacientes, pois eles
podem ter desenvolvido sua própria resposta de anticorpos endógenos e estar em
uma fase da doença caracterizada por respostas inflamatórias ao vírus. É
por isso que o uso de tratamentos imunossupressores é amplamente difundido e
ainda está sendo investigado em pacientes hospitalizados.” (ELI
LILLY AND COMPANY, 2020.)
No entanto,
novos resultados foram publicados na quarta-feira (28) pela companhia, onde
examinaram a eficácia da terapia do anticorpo neutralizante LY-CoV555 no
tratamento de COVID-19 em pacientes com sintomas leves ou moderados. (GOTTLIEB
et al., 2020)
Metodologia do estudo com LY-CoV555
Neste estudo de
fase 2 em andamento, envolvendo pacientes ambulatoriais com COVID-19 e
apresentando sintomas leves ou moderados, foram distribuídos aleatoriamente 452
pacientes para receber uma única infusão intravenosa do anticorpo neutralizante
LY-CoV555 em uma das três doses (700mg, 2800mg ou 7000mg) ou placebo e
avaliaram os desfechos virológicos quantitativos e os desfechos clínicos.
Resultados do estudo com LY-CoV555
Os resultados
revelaram que a porcentagem de pacientes que necessitaram ser hospitalizados
devido à evolução dos sintomas do novo coronavírus foi de 1,6% (5 de 309
pacientes) no grupo LY-CoV555 e 6,3% (9 de 143 pacientes) no grupo placebo. E
também foi visto que houve uma maior melhora dos sintomas no grupo LY-CoV555 do
que no grupo placebo. Não foi relatado nenhum evento adverso grave no grupo LY-CoV555, mas, no
grupo placebo, um paciente apresentou evento adverso.
Sobre a LY-CoV555
O SARS-CoV-2
ganha entrada nas células através da ligação de sua proteína spike aos
receptores da enzima conversora de angiotensina 2 nas células-alvo. O LY-CoV555
(também conhecido como LY3819253), um potente anticorpo monoclonal anti-pico
neutralizante que se liga com alta afinidade ao domínio de ligação ao receptor
de SARS-CoV-2, foi derivado de plasma convalescente obtido de um paciente com COVID-19. O
anticorpo foi desenvolvido pela Eli Lilly após sua descoberta por pesquisadores
da AbCellera e do Centro de Pesquisa de Vacinas do Instituto Nacional de
Alergia e Doenças Infecciosas. A descoberta de LY-CoV555 e sua proteção
passiva contra o SARS-CoV-2 em primatas não humanos foi relatada anteriormente.
Estudo com anticorpos monoclonais (REGN-COV2)
A
biofarmacêutica Regeneron também divulgou um artigo onde relata que obteve bons
resultados do tratamento com coquetel de anticorpos monoclonais REGN-COV2 em
pacientes com sintomas leves ou moderados, reduzindo significativamente a carga
viral e a necessidade de internamento.
“O primeiro
trabalho de um medicamento terapêutico antiviral é reduzir a carga viral, e
nossos dados iniciais em 275 pacientes sugeriram fortemente que o coquetel de
anticorpos REGN-COV2 poderia reduzir a carga viral e, assim, melhorar potencialmente
os resultados clínicos. A análise de hoje, envolvendo mais de 500 pacientes
adicionais, confirma prospectivamente que o REGN-COV2 pode realmente reduzir
significativamente a carga viral e mostra ainda que essas reduções virais estão
associadas a uma diminuição significativa na necessidade de mais atenção médica
“, disse George D. Yancopoulos, MD, Ph.D., Presidente e Diretor Científico da
Regeneron. (PHARMACEUTICALS,
2020.)
Métodos do estudo com REGN-COV2
É um estudo
randomizado duplo-cego, que mede o efeito da adição de REGN-COV2 ao tratamento
padrão usual, em comparação com a adição de placebo ao tratamento padrão. Uma
análise descritiva dos primeiros 275 pacientes foi relatada anteriormente. Os dados recentes, envolvendo 524 pacientes adicionais, mostram
que o ensaio atendeu a todos os primeiros nove desfechos na hierarquia
estatística, que avaliou os desfechos virológicos com base na carga viral,
status soronegativo e grupo de dose, bem como o desfecho clínico através
visitas médicas à pacientes que tiveram a COVID-19 confirmada por laboratório
no início do estudo.
Resultados do estudo com REGN-COV2
Como analisado
no estudo anterior, os pacientes com carga viral mais alta no início do estudo
e/ou sem anticorpos detectáveis no início do estudo (sugerindo que seus
corpos ainda não haviam montado uma resposta imune eficaz), obtiveram maior
benefício da terapia REGN-COV2. O tratamento com o REGN-COV2 reduziu as visitas médicas relacionadas à
COVID-19 em 72% em pacientes com um ou mais fatores de risco. Não houve análise
estatística formal planejada de alívio dos sintomas nesta análise; o REGN-COV2
foi bem tolerado no ensaio. Os eventos adversos graves foram numericamente
mais frequentes com o tratamento com placebo do que com REGN-COV2.
Sobre REGN-COV2
O REGN-COV2 é uma combinação de dois
anticorpos monoclonais (REGN10933 e REGN10987) e foi projetado especificamente
para bloquear a infecciosidade do SARS-CoV-2.
Para desenvolvê-lo, os cientistas da
Regeneron avaliaram milhares de anticorpos totalmente humanos produzidos
pelos camundongos VelocImmune® da
empresa, que foram geneticamente modificados para ter um sistema imunológico
humano, bem como anticorpos identificados de humanos que se recuperaram da
COVID-19. Os dois potentes anticorpos neutralizantes de vírus que formam o
REGN-COV2 se ligam de forma não competitiva ao domínio crítico de ligação ao
receptor da proteína spike do vírus, o que diminui a capacidade dos vírus mutantes
de escapar do tratamento e protege contra variantes de spike que surgiram no
ser humano.
Conclusão
Os dois estudos publicados pelas
companhias farmacêuticas obtiveram resultados promissores com o uso de
anticorpos monoclonais para o tratamento contra o Sars-CoV-2, em pacientes com
casos leves e moderados. Demonstrando também que houve uma redução nas visitas médicas relacionadas à COVID-19.
Se esses resultados
forem confirmados em análises adicionais neste estudo, o LY-CoV555 e o
REGN-COV2 podem se tornar um tratamento útil para uso de emergência em
pacientes com sintomas leves ou moderados de COVID-19.
Conclui-se, então, que o
processo de desenvolvimento científico é desafiador e imprevisível. É
preciso colaboração e compromisso de cientistas, pesquisadores, pacientes e
empresas de toda a indústria biofarmacêutica para descobrir e desenvolver
tratamentos para doenças emergenciais.
Autora: Mirian Guimarães de Freitas, estudante de Medicina
Instagram: @mirianng_
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