Desde os primeiros casos de Sars-Cov em Wuhan novas descobertas são realizadas, no início a infecção era vista apenas como uma síndrome gripal que em alguns casos podia se tornar síndrome do desconforto respiratório agudo (SDRA). Conforme o número de casos foi aumentando e disseminando pelos continentes novas apresentações da doença começaram ganhar destaque, distúrbios de coagulação, sintomas neurológicos, sintomas psiquiátricos, a variedade e gravidade dos sintomas depende da interação SARS-CoV-2 e hospedeiro, portanto a resposta imune do paciente é decisiva para o fenótipo da doença, além de predispor a casos mais graves da doença.
O período de incubação da Covid-19 dura de 3 a 7 dias, mas pode chegar a 14, as manifestações clínicas mais comuns são febre (44% a 89% dos casos), tosse (68%) e fadiga (38%). Pode cursar com dispneia, sibilância, síndrome do desconforto respiratório agudo (SDRA) e em casos mais graves falência múltipla de órgãos e óbito.
Transmissão do SARS-CoV-2
Pacientes sintomáticos para a Covid-19 eliminam, por meio da fala, tosse e/ou espirro, gotículas respiratórias que contém o SARS-CoV-2, que pode se depositar em superfícies como aço e plástico e sobreviver por até 72horas. Ambientes fechados e aglomerados facilitam a disseminação do vírus.
A transmissão também pode ocorrer através de pacientes assintomáticos, o que dificulta o processo de isolamento, que é recomendado a pacientes com sintomas e dessa forma quebrar a cadeia de transmissão.
Patogênese da Covid-19
Após entrar pelas vias aéreas, o vírus adere à mucosa do epitélio respiratório superior, a partir do reconhecimento e da ligação da proteína viral de superfície, chamada proteína S, ao receptor tecidual, denominado Enzima conversora de angiotensina 2 (ECA-2), essa proteína vai mediar a entrada do vírus na célula-alvo. O tropismo por essas células reflete na manifestação de sintomas, majoritariamente, respiratórios. Porém, esse receptor é encontrado também em outros tecidos, o que contribui para outras manifestações clínicas.
No caso das repercussões no Sistema nervoso central as hipóteses incluem a passagem do vírus através da barreira hematoencefálica, além de invasão viral a células do endotélio vascular mediante a ligação com a enzima conversora de angiotensina 2 (ECA-2). Uma outra hipótese é de que a tempestade de citocinas, que ocorre em alguns pacientes com a infecção, geraria toxicidade neurológica.
Manifestações neurológicas
Sintomas neurológicos como cefaleia, alteração de estado mental, tontura, depressão do nível de consciência, ageusia, anosmia, mialgia e fadiga. Repercussões psiquiátricas também foram correlacionadas, depressão, ansiedade, insônia, transtorno de estresse pós-traumático, delirium e psicose.
Devido a essas manifestações exames de imagem foram performados nesses pacientes, demonstrando anormalidades cerebrais, em sua maioria alterações de massa branca e hiperintensidade em Ressonâncias magnéticas e hipointensidade em tomografia, seguida de microhemorragias, hemorragias e infartos. As alterações de massa branca foram notadas bilateralmente na porção anterior e posterior. Todas essas manifestações corroboram com a hipótese de que que a infecção pode alterar o padrão de funcionamento cerebral.
Os sintomas neurológicos não ocorrem apenas em pacientes críticos ou com fatores de risco. Paciente jovens e sem fatores de risco estabelecidos podem ter Acidentes Vasculares cerebrais (AVC) e mudanças no status mental, que não possuem outra explicação.
Duração das manifestações
Um ponto que ainda precisa ser melhor elucidado é o fato de que alguns pacientes não recuperam ou recuperam parcialmente de manifestações neurológicas, entre elas, as mais comuns são anosmia, parosmia, ageneusia. Entre as manifestações psiquiátricas os casos que se iniciam após a infecção ou durante e se prolonga após a cura da doença. A duração das manifestações é imprevisível, não há fatores de risco conhecidos para que elas se prolonguem ou não. Mas uma vez que se estabeleçam sequelas é importante procurar reabilitação para otimizar os sintomas e possivelmente reverte-los.
Infecção ou Inflamação?
Os mecanismos dessas manifestações ainda não são claros, mas encontrá-los certamente ajudaria a estabelecer um tratamento para essas consequências da doença. Por enquanto há evidências que o SARS-Cov-2 pode infectar neurônios e dessa forma causar danos a esses neurônios e suas conexões.
Uma pesquisa brasileira encontrou sinais histopatológicos de danos cerebrais em 19% dos pacientes que morreram de Covid-19. Todo esse tecido cerebral afetado exibia foco de SARS-CoV-2 infecção, particularmente em astrócitos. Infecção de astrócitos derivados de células tronco neurais mudou o metabolismo energético, alterou proteínas chave e metabólitos usados como abastecimento para neurônios e para biogênese de neurotransmissores além de provocar um fenótipo secretor que reduz a viabilidade neuronal. Os dados dessa pesquisa apoiam o modelo em que o SARS-Cov-2 atinge o cérebro, afeta astrócitos e desencadeia mudanças neuropatológicas que contribuem para alterações estruturais e funcionais no cérebro de pacientes.
Conclusão
Existem evidências de que a covid-19 não trata se apenas de uma doença respiratória, pois possui capacidade de causar danos em outros sistemas, mas existem algumas questões a serem esclarecidas, como ocorre a infecção no sistema nervoso, quais os mecanismos pelo qual os danos neurológicos são gerados, conseguir mensurar a extensão dos danos e determinar a capacidade de recuperação desses. Uma triagem para pacientes com maior risco de desenvolver sintomas neurológicos, além de marcadores bioquímicos desses danos ou de que há presença do vírus no Sistema Nervoso Central seriam interessantes para prevenção e tratamento.
Brenda de Castro Igino
Referências
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