Introdução
O coronavírus
representa um grupo de vírus conhecidamente responsável por uma porcentagem
significativa de casos de infecções respiratórias, anteriormente pouco
relacionados a casos graves. Em Dezembro de 2019, um surto de casos de
pneumonia na cidade de Wuhan, província de Hubei, na China, chamou a atenção da
OMS e do mundo para uma nova cepa de coronavírus, nomeada SARS-CoV-2, sendo
esta responsável pela doença COVID-19.
Em Janeiro de 2020, a Organização Mundial de Saúde (OMS) declarou Emergência em Saúde Pública de Importância Internacional, destacando a necessidade de envolvimento dos diferentes países no controle da propagação do vírus e em Março de 2020 a COVID-19 configurou-se como uma Pandemia.
Segundo estudos, aproximadamente 80% dos pacientes desenvolvem formas leves da doença, enquanto os outros 20% desenvolvem formas graves que podem necessitar de internação em Unidade de Terapia Intensiva e uso de Ventilação Mecânica. Como sua transmissibilidade é elevada, consequentemente, essa porcentagem de casos graves corresponde a um vasto número de pacientes, capaz de superlotar sistemas de saúde.
Pacientes oncológicos e grupo de risco
Nesse
contexto, foram destacados grupos de risco como indivíduos imunossuprimidos o
que, inevitavelmente, salienta a preocupação com pacientes oncológicos. Indivíduos
com imunidade comprometida apresentam maior susceptibilidade a infecções e
maior risco de evoluir com maiores complicações, desenvolvendo formas mais
graves da doença. Vale ressaltar que nem todos os pacientes oncológicos
enquadram-se nesse critério.
O estado
imunossuprimido pode ser consequência do tratamento oncológico e do grau de
malignidade do câncer. Essa condição está presente em pacientes que estejam em
tratamento quimioterápico ou radioterápico, que façam uso de outras drogas imunossupressoras
e que tenham passado por cirurgia há menos de 30 dias. Pacientes com neoplasias
hematológicas como leucemias, mielomas e linfomas ou que tenham realizado
transplante de medula óssea também apresentam maior risco de contrair a doença
e ter desfechos mais graves.
Pacientes
com histórico de tratamento oncológico (curados) e mulheres em hormonioterapia
apresentam risco similar ao de uma pessoa de mesma idade que não tenha
histórico de câncer.
Estudos
Segundo artigo publicado pelo “The Lancet Oncology”, estudos e dados já existentes referentes à infecção de pacientes com câncer por Influenza demonstraram risco de hospitalização por angústia respiratória 4 vezes maior que pacientes sem câncer, enquanto o risco de morte foi 10 vezes superior.
Os estudos mostraram que a exacerbação dos sintomas pode estar relacionada com a linfopenia e a neutropenia, que tendem a estarem presentes em pacientes em tratamento para câncer. Esse comparativo ajuda a reafirmar a consideração desses indivíduos como grupo de risco.
Casos de
Covid-19 publicados pelo Centro de Controle e Prevenção de Doenças da China
serviram de fonte para diversos estudos que sugerem que pacientes oncológicos
tem risco aumentado para complicações respiratórias relacionadas à doença e
demonstraram que estes pacientes tiveram menor tempo médio de evolução para
condições severas quando comparados à população geral. O risco de complicações
respiratórias graves que necessitaram de internação em unidade de terapia
intensiva foi de 39% entre os pacientes com câncer, contra 8% nos pacientes sem
câncer.
Observou-se
também que a média de idade de pacientes oncológicos acometidos pelo COVID-19
era maior que a média de idade de pacientes não oncológicos, o que reafirma o
maior risco para pacientes com câncer em idade avançada.
Vale
destacar que, apesar dos estudos incluírem os casos de pacientes oncológicos,
alguns registros não apresentavam a história do câncer do paciente muito
descritas (justificados até mesmo pelo contexto emergencial dos atendimentos
relacionados à COVID-19).
Orientações
O Ministério da Saúde divulgou orientações para prevenção que devem ser seguidas pela população geral e, principalmente, por quem mora com pacientes com câncer e por seus cuidadores.
As orientações incluem desde a higiene domiciliar (aumentar a frequência de limpeza e desinfecção de chão, objetos e superfícies), desinfecção de compras antes de guardá-las, cuidado com roupas e sapatos usados fora de casa, higiene adequada das mãos, até a etiqueta da tosse (cobrir boca e nariz com lenço descartável sempre que tossir ou espirrar para evitar a propagação de gotículas e aerossóis). Lembrando que familiares e cuidadores que apresentarem sintomas respiratórios devem respeitar as medidas de isolamento e evitar ao máximo contato com o paciente oncológico.
Diretriz francesa
O Conselho
Superior de Saúde Pública da França (“Haut
Conseil de Sante Publique” – HCSP), a pedido do Ministério de Saúde
Francês, trabalhou na construção de uma diretriz com foco na proteção e
manutenção do tratamento para câncer. A diretriz foi publicada em 14 de março
de 2020 pelo HCSP, justificada pelo risco aumentado dos pacientes oncológicos
perante a crise de saúde causada pelo coronavírus e tem como foco pacientes,
profissionais e serviços oncológicos.
Deve ser
reforçado que as orientações são complementares às já conhecidas para a
população em geral e se aplicam a pacientes adultos com tumores sólidos. São
elas:
- Departamentos de oncologia e radioterapia
devem evitar a admissão de pacientes com COVID-19. Caso haja necessidade de
admissão, o paciente deve ser isolado dos demais e encaminhado para o serviço
de referência no combate ao coronavírus o mais rápido possível; - Devem ser encorajadas medidas que possibilitem
o manejo do paciente oncológico em domicílio, a fim de reduzir as visitas ao
centro médico. É válido considerar telemedicina, ajuste de dosagem e sessões de
quimioterapia e radioterapia, substituição de medicações intravenosas por orais
(quando possíveis), organização de infraestrutura e logística que possibilitem
a administração de medicações intravenosas em domicílio; - Profissionais dos centros oncológicos devem
ligar para os pacientes agendados para o dia seguinte com o intuito de
confirmar a ausência de sintomas; - Considerar, caso redução do serviço ou aumento
dos riscos, a priorização de pacientes para admissão no tratamento oncológico,
analisando idade do paciente, conduta curativa ou não curativa, expectativa de
vida, entre outros.
Informações
As novas condutas e opções devem ser
resolvidas e esclarecidas pelo médico oncologista responsável pelo tratamento e
acompanhamento, com quem o paciente deve entrar em contato caso surjam dúvidas
e, principalmente, sintomas respiratórios. A orientação é que não sejam
suspensos os tratamentos oncológicos, mas sim adequados à nova realidade
vivenciada.
O site da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) disponibiliza informações esclarecendo as principais dúvidas sobre o coronavírus (www.paho.org/bra), bem como os sites do Instituto Oncoguia (www.oncoguia.org.br) e do Instituto Nacional de Câncer INCA (www.ince.gov.br) apresentam materiais esclarecendo dúvidas voltadas para pacientes oncológicos e seus cuidadores. No artigo “The official French guidelines to protect patients with cancer against SARS-CoV-2 infection” publicado pela Lancet, pode ser lida na íntegra a diretriz francesa.
Autora: Letícia Passos, Estudante de Medicina
Instagram: @letsps