Desde o surgimento
dos primeiros relatos do COVID-19 em dezembro de 2019, em Wuhan, China,
diversas pessoas ao redor do mundo modificaram seus hábitos de autocuidado e
interação social. Costumes frequentes nos países do Oriente, anteriormente
vistos com estranhamento por grande parcela, parecem ditar o que hoje chamamos
de “novo normal”.
No Brasil, as
transformações provocadas pela pandemia tornaram-se mais enérgicas em março de
2020, quando o número de casos se fez ainda mais expressivo e crescente. Até o
momento em que escrevo esse texto, são 584,016 casos e 32.548 óbitos de
brasileiros por COVID-19, segundo o Governo Federal. No momento em que você
estiver lendo isso, muito provavelmente, os números já terão obtido um aumento
considerável.
Apesar dos dados
alarmantes, não existe ainda uma compreensão absoluta sobre o comportamento
viral e a doença causada. Muito se fala sobre manifestações clínicas (febre,
tosse seca, dispneia, hiposmia e disgeusia), sinais vitais (dessaturação e
elevação de temperatura), alterações em exames de imagem e exames
laboratoriais. Contudo, ainda são escassas as informações sobre as possíveis
manifestações dermatológicas causadas pela doença.
Recentemente foi
divulgado em redes sociais os principais achados dermatológicos ocorridos em
20% de pacientes infectados por coronavírus em um hospital da Itália, que
auxiliam no raciocínio clínico e ectoscopia de casos suspeitos. São eles:
- Lesões tipo urticária: placas avermelhadas, em relevo e evanescentes, que aparecem e somem espontaneamente em diferentes regiões do corpo;
- Isquemia de extremidades: evidenciada por alterações na coloração da região afetada – hipocromia ou cianose;
- Lesões morbiliformes: também conhecida como “pele em lixa”, caracteriza-se pelo surgimento de pápulas eritematosas pelo corpo, comumente encontradas em arboviroses;
- Livedo reticular: denotada pelo aspecto rendilhado da pele, na presença de manchas avermelhadas em contraste com regiões de hipocromia, característico de isquemia de pequenos vasos;
- Vesículas: apresentam-se como pequenas bolhas de pus ou sangue;
- Petequias: pequenas manchas arroxeadas na pele que não desaparecem com vitropressão.

É valido ressaltar que nenhuma das
apresentações citadas acima são específicas do COVID-19, mas figuram como
achados auxiliares ao raciocínio diagnóstico quando associadas a outros
sintomas relatados.
Além das manifestações dermatológicas que
podem ser apresentadas por pacientes que testaram positivo para COVID-19, vale
lembrar de outro cenário de interesse da dermatologia que também tem se
apresentado com maior frequência ultimamente: as psicodermatoses e as
alterações dermatológicas em profissionais da saúde causadas pela antissepsia
intensificada e uso de EPIs.
Em maio de 2020, o Jornal da
Academia Americana de Dermatologia (JAAD),-
volume 82, número 5 – publicou um artigo sobre lesões na pele entre os
profissionais de saúde que atuam no front de combate da COVID-19. Segundo o
autor, danos cutâneos causados por medidas intensificadas de prevenção de
infecções tem-se tornando frequentes entre profissionais de saúde, o que
poderia reduzir o entusiasmo pelo trabalho sobrecarregado e torná-lo ainda mais
ansioso.
Para analisar a frequência
com que os profissionais mencionados apresentaram a lesões dermatológicas
ocupacionais, de janeiro a fevereiro de 2020, questionários on-line
autoaplicáveis foram distribuídos para 700 indivíduos, constituídos por
médicos e enfermeiros que trabalhavam nos departamentos designados dos
hospitais terciários de Hubei, China. O questionário incluía perguntas sobre o
aspecto da lesão na pele e a frequência e/ou duração de várias medidas de
prevenção de infecções.
Finalmente, 542 indivíduos
completaram o estudo (taxa de resposta, 77,4%), com 71,4% (387 de 542) destes,
trabalhando em enfermarias isoladas e 28,6% (155 de 542) trabalhando em
clínicas de febre.
A taxa geral de prevalência de danos à pele causados por medidas aprimoradas de prevenção de infecções foram de 97,0% (526 de 542) entre os profissionais de saúde que estão no front de trabalho.
As principais áreas afetados incluíram a ponte nasal, mãos, região malar e testa, sendo a ponte nasal a mais acometida (83,1%). Entre os sintomas e sinais descritos, ressecamento / aperto e descamação foram os sintomas mais comuns (70,3%) e sinais (62,2%), respectivamente, como mostra a tabela abaixo.

Além dos dados mostrados na tabela anterior, foi observado que os profissionais de saúde que usaram algum Equipamento de Proteção Individual (EPI: máscaras N95, óculos de proteção) por mais de 06 horas apresentaram maiores riscos de danos à pele nos locais correspondentes do que aqueles que fizeram por menos tempo, enquanto um tempo maior de uso de máscara facial não era fator de risco significativo para causar danos na pele da testa.
A higiene das mãos mais frequente (10 vezes ao dia) sugeriu um incremento no risco de lesões na pele das mãos, em vez de um tempo mais longo de uso de luvas

Os números descritos
alertam para os riscos de lesões dermatológicas advindas do aumento dos hábitos
de proteção/prevenção de infecções no campo da saúde.
O objetivo desse texto é contribuir para o
autocuidado e a capacidade diagnóstica dos profissionais de saúde que estão
atuando no combate ao COVID-19, apresentando manifestações dermatológicas que,
mesmo que inespecíficas à doença, podem orientar o pensamento clínico. O
desenvolvimento de um raciocínio clínico atento e a avaliação global de um
paciente, serão sempre as maiores ferramentas de trabalho de um profissional da
saúde.
DADOS DO AUTOR:
Artur Menezes Oliveira
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