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COVID-19: Ansiedade e Depressão | Colunistas

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Introdução

O aumento dos níveis de ansiedade e de depressão, apontado por vários estudos, parece ser mais uma consequência do surto de COVID-19 em diversos países, incluindo o Brasil. Considerando que, em 2017, o Brasil ocupava o primeiro lugar no ranking de países “mais ansiosos” e o quinto lugar no de “mais depressivos”, fica clara a urgência da situação.

Diante desse cenário, é bastante oportuno que você esteja bem atento e atualizado acerca dos sintomas da ansiedade e da depressão, bem como de seus aspectos epidemiológicos e das oportunidades de ação enquanto profissional da saúde.

Quais os sintomas da ansiedade e da depressão?

Os sintomas da ansiedade:

Os transtornos ansiosos são qualificados por sensações frequentes de medo e de ansiedade com o futuro, bem como tensão muscular e atitude demasiadamente desconfiada em relação a situações ambíguas.

Cabe ressaltar o fato de que o problema é a ansiedade exagerada, sendo a percepção da desproporcionalidade entre a sensação relatada pelo paciente e o seu contexto dependente da avaliação clínica. Portanto, ao suspeitar de um transtorno ansioso, você deve ponderar sobre as razões do paciente, duração, contexto, comorbidades e prejuízo funcional.

Aprofundar nos detalhes da queixa ajuda a diferenciar um quadro considerado normal de um transtorno ansioso (síndrome do pânico, fobias específicas, agorafobia, fobia social ou transtorno de ansiedade generalizada) – o que é necessário para elaboração da conduta.

Os sintomas da depressão:

O DSM-V indica que as queixas de humor deprimido e anedonia são os principais sintomas do Transtorno Depressivo. Assim, diante de um quadro como esse, você deve avaliar se há humor deprimido na maior parte do tempo e/ou perda acentuada do interesse/prazer por mais de 2 semanas, além de alterações no sono e no peso. Da mesma forma, devem ser valorizadas queixas de agitação ou retardo motor, perda da energia, sentimentos de inutilidade e culpa, redução na concentração e pensamentos de morte. Os sintomas da depressão causam prejuízo e não são mais bem explicados por outros transtornos ou uso de substâncias.

Um importante diagnóstico diferencial é feito entre episódios depressivos maiores e luto. Um fator que merece atenção, nesse sentido, é que há uma característica de pensamentos mais autocríticos na depressão, como de desvalia e de incapacidade, enquanto, no luto, as sensações de vazio e perda são mais marcantes.

Aspectos epidemiológicos

Antes da COVID-19:

A prevalência de depressão, segundo o UpToDate, era 12% mundialmente e aproximadamente 15,5% e 18% nos EUA antes da pandemia. Já a prevalência de ansiedade era de 9,3% da população brasileira em 2019 e atualmente é avaliada entre 1,7 e 3,4% na Europa. Não é segredo que a COVID-19 alterou muitos aspectos da nossa vida enquanto sociedade e não parece exagerado indagar que, nos próximos anos, poderemos ver alterações nas prevalências desses transtornos.

Como a pandemia de COVID-19 afetou os trabalhadores da área da saúde?

Segundo o UpToDate, os profissionais da saúde foram muito prejudicados durante a pandemia de COVID-19, com prevalência variando entre 12 e 20% para ansiedade, 15 e 25% para depressão e 35 a 49% para transtorno de estresse pós-traumático, na Itália e na China. Em Portugal, o estudo “Burnout and Depression in Portuguese Health care Workers during the COVID-19 Pandemic — The Mediating Role of Psychological Resilience” apontou prevalência de sintomas importantes relacionados à depressão em 29,4% dos participantes que trabalhavam na saúde.

Esses são números alarmantes, embora talvez não surpreendam tanto por ser evidente o desgaste sofrido pelos profissionais da saúde durante esse período. Fato é que a atenção deve estar voltada para manifestações e nuances desses problemas. Devido ao tabu, ao estigma e às próprias implicações clínicas das doenças, as pessoas acometidas pelos problemas de saúde mental podem ter grande dificuldade para procurar ajuda, embora o auxílio profissional possa ser imprescindível. 

É preciso perceber a delicadeza da situação e buscar um ambiente mais protetor tanto para si, quanto para os colegas de profissão ou pacientes.

Como a pandemia de COVID-19 afetou os estudantes?

O estudo transversal português, “Anxiety, depression and stress in university students: the impact of COVID-19”, comparou as respostas feitas por estudantes universitários portugueses em um questionário realizado de 2018 a 2019 com respostas realizadas na segunda semana de março de 2020. Como resultados, houve um aumento importante dos sintomas de ansiedade e de depressão. Uma hipótese considerada na explicação desse achado foi de que, em 2020, além do confinamento devido aos surtos de COVID-19, havia muita propagação de notícias tensas, tanto internacionais quanto nacionais.

No Brasil, a pesquisa “Social Distancing: Prevalence of Depressive, Anxiety, and Stress Symptoms Among Brazilian Students During the COVID-19 Pandemic” buscou avaliar a prevalência de ansiedade, estresse e depressão nos alunos do Rio Grande do Sul, por meio de questionário online. Como resultados, houve aumento dos níveis de ansiedade, depressão e estresse após a primeira morte, com o crescimento do número de casos e consumo exagerado da mídia. Além disso, o medo de ser infectado e a incerteza sobre o prognóstico da doença pareceu afetar negativamente os estudantes. Ainda, a prevalência de estresse relatada pelos alunos foi de 49%, 39% de sintomas depressivos e 33% de ansiedade. Nesse trabalho, foi suposta uma relação de proteção promovida pela prática de atividades físicas, com mais bem-estar e felicidade, em detrimento dos sintomas depressivos. Um ponto importante foi que todos os estudantes envolvidos na pesquisa relataram piora dos seus marcadores de ansiedade, estresse e depressão.

Diante de um contexto no qual o suicídio estudantil é realidade frequente, emerge uma necessidade ímpar de aprofundamento e atenção a essa população.

Como a pandemia de COVID-19 afetou a população brasileira?

O estudo “Exploratory study on the psychological impact of COVID-19 on the general Brazilian population” buscou aferir, via questionário online, a prevalência de sintomas relacionados à ansiedade, depressão e estresse de maio a junho de 2020. Foram obtidas respostas válidas de 3000 participantes, dos 26 estados brasileiros e do Distrito Federal. Os dados obtidos revelaram sintomas depressivos em 46,4%, ansiedade em 39,7% e estresse em 42,2%.

No estudo, as pessoas com piores níveis de ansiedade, estresse e sintomas depressivos foram as do sexo feminino, os estudantes, aqueles sem crianças em casa, pessoas com doenças crônicas e os que tiveram contato com COVID-19. Em relação à idade, os piores níveis foram encontrados na população entre 18 e 30 anos. Um aspecto muito importante abordado pelo trabalho é a maior prevalência dos sintomas depressivos em mulheres, cerca de duas vezes mais que em homens, consonante com a literatura até então. São possíveis causas elencadas, no contexto atual, o alto nível de violência doméstica e o grande esforço da “jornada dupla”.   

Os índices aferidos no Brasil encontram semelhança com estudo feito na China (n>200, sintomas depressivos 30,3%, ansiedade 36,4% e estresse 32,1%), na Espanha (n>2500, sintomas depressivos 34,19%, ansiedade 21,34% e estresse 28,14%). Além do mais, confirma a expectativa de piores quadros em pessoas que tiveram contato com a doença. Um outro fator notável foi a relação entre o desemprego e piora da saúde mental, a qual também foi condizente com os dados obtidos em literatura prévia. 

No Brasil, ainda, foram observadas estratégias disfuncionais de enfrentamento da pandemia de COVID-19, como aumento no consumo de álcool, tabaco e outras drogas. Tal fato remonta a uma abordagem negacionista e fugaz da situação que agride a saúde mental.

Fica subentendido, portanto, a vulnerabilidade da população brasileira em relação aos sintomas depressivos, ansiosos e ao estresse. Em função disso, é importante que haja maior atenção em geral e, principalmente, aos supostos grupos de risco, bem como capacitação do corpo médico para uma identificação e condução mais sensível dos casos.

Quais os fatores protetores e os fatores de risco durante a pandemia?

População geral:

O estudo português “Protective Elements of Mental Health Status during the COVID-19 Outbreak in the Portuguese Population” buscou possíveis fatores que interferissem nos sintomas de ansiedade, depressão e estresse. Segundo o trabalho, que contou com 1280 indivíduos, fatores como ser do sexo masculino, manter uma rotina de trabalho, ter um espaço de jardim e praticar exercícios foram fatores considerados protetores. Por outro lado, o consumo em excesso de notícias se revelou um fator associado ao maior dano da saúde mental. Uma alternativa para você ficar atualizado – sem adoecer – foi sugerida pela OMS: consumir notícias confiáveis e sem sensacionalismo por, no máximo, duas vezes ao dia!

Para os trabalhadores da área da saúde:

Segundo o UpToDate, o principal fator de risco para o desenvolvimento de ansiedade e depressão nessa parcela é o contato prolongado com pacientes de COVID-19. Outros fatores importantes são a história de doença psiquiátrica prévia, a permanência prolongada em quarentena, falta de suporte organizacional e EPI’s, estigma por serem trabalhadores expostos ao vírus e cargas horárias extenuantes.

Consonantemente, foram considerados fatores importantes na preservação da sua saúde mental a segurança do local, fornecimento de EPI ‘s, amparo entre os colegas, confiança no controle de infecções da instituição e acesso a serviços de saúde mental.

O que fazer enquanto profissional da área da saúde?

Cabe a você, profissional da saúde, olhar primeiramente a si mesmo e, de forma sincera, avaliar como está lidando com a situação. Se for o caso, permita-se o autocuidado, procure ajuda profissional. Estando bem, é necessário buscar ativamente por sinais e sintomas dos acometimentos de saúde mental nos pacientes, tanto em nível primário quanto em eventuais contatos dentro das especialidades.

Tenha em mente que atualmente há uma maior dificuldade para a população em buscar os serviços de saúde, o que torna cada contato com o paciente uma possível janela para abordar a saúde mental. Ainda, abuse da empatia e do interesse em ouvir, procure dar o seu melhor para buscar preservação e restauração da saúde mental dos seus pacientes.

Ademais, o screening para sintomas depressivos é indicado pela US. Preventive Service Task Force para todos os adultos (>18 anos), bem como gestantes ou idosos. Pode ser feito clinicamente, por meio de uma conversa direcionada ou por escalas como a “Patient Health Questionnaire”, “Geriatric Depression Scale” e a “Edinburgh Postnatal Depression Scale “.

Deve-se, também, ter um olhar atento e empático ao abordar as queixas relacionadas à ansiedade, pois o diagnóstico correto dos transtornos ansiosos é de grande importância. Lembrando que, em momentos tensos, é comum a busca por estratégias disfuncionais de coping, aqui definido como conjunto de estratégias e ações utilizadas no enfrentamento de situações estressantes, que podem ser positivas ou negativas. Como relatado anteriormente, houve maior consumo de drogas, além de sedentarismo e outras práticas nocivas à saúde. Tais tópicos também podem e devem ser abordados, pois o aconselhamento médico direcionado a estratégias positivas tem potencial de interferência dentro desses contextos, o que pode melhorar o prognóstico dos pacientes.

Conclusão

É preciso observar que não há, até o presente momento, muitos estudos sólidos direcionados à área da saúde mental na epidemia de COVID-19. A maior parte dos dados coletados foram extraídos por meio de versões adaptadas da “Depression, Anxiety and Stress Scales (DASS-21)”, via formulários online em estudos transversais. Ainda, os participantes foram em maioria alcançados por “Snowball Sampling”, o que não agrega validação estatística. Fica claro, portanto, que podemos apenas gerar hipóteses a princípio, não extrapolando irresponsavelmente os resultados.

A discussão até aqui demonstra indicativos sugestivos de uma degradação da saúde mental em geral. Veja: em nenhum dos estudos citados houve valores de prevalência dos sintomas mais baixos do que os conhecidos antes da pandemia.

Algumas pessoas passarão por esse momento angustiante com preservação da sua saúde mental, às custas de práticas positivas, como alimentação saudável, sono de qualidade, prática de atividades físicas regulares e manutenção de sua rede de contatos. Outras se manterão de pé às custas do consumo de drogas, sedentarismo, afastamento da sociedade ou negação da COVID-19. Várias outras estão sofrendo com problemas relacionados à saúde mental, como a ansiedade e a depressão.

Existe um caminho, entre a medicalização da tristeza e o abandono psicológico, que deve ser motivo robusto de cuidado e de atenção sempre. Não há fórmula mágica para solucionar esse problema, mas atenuá-lo, certamente, perpassa por interesse, empatia e evidência.

Autor: Vinícius Nunes Soares

Instagram: vinicius_n.s


O texto é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto.

Observação: material produzido durante vigência do Programa de colunistas Sanar junto com estudantes de medicina e ligas acadêmicas de todo Brasil. A iniciativa foi descontinuada em junho de 2022, mas a Sanar decidiu preservar todo o histórico e trabalho realizado por reconhecer o esforço empenhado pelos participantes e o valor do conteúdo produzido. Eventualmente, esses materiais podem passar por atualização.

Novidade: temos colunas sendo produzidas por Experts da Sanar, médicos conceituados em suas áreas de atuação e coordenadores da Sanar Pós.


Referências bibliográficas

Mental health and psychosocial considerations during the COVID-19 outbreak – https://www.who.int/docs/default-source/coronaviruse/mental-health-considerations.pdf

Brazil: world leader in anxiety and depression rates – https://www.scielo.br/j/rbp/a/jjM7cWBqDBZQpwwcyyGG8tJ/?lang=en&format=pdf

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Generalized anxiety disorder in adults: Epidemiology, pathogenesis, clinical manifestations, course, assessment, and diagnosis – https://www.uptodate.com/contents/generalized-anxiety-disorder-in-adults-epidemiology-pathogenesis-clinical-manifestations-course-assessment-and-diagnosis?search=preval%C3%AAncia%20ansiedade&source=search_result&selectedTitle=1~150&usage_type=default&display_rank=1#H2289696928

Unipolar depression in adults: Epidemiology – https://www.uptodate.com/contents/unipolar-depression-in-adults-epidemiology?search=depress%C3%A3o%20prevalencia&source=search_result&selectedTitle=1~150&usage_type=default&display_rank=1

Esteves CS, de Oliveira CR, Argimon IIL. Social Distancing: Prevalence of Depressive, Anxiety, and Stress Symptoms Among Brazilian Students During the COVID-19 Pandemic. Front Public Health. 2021;8:589966. Published 2021 Jan 27. doi:10.3389/fpubh.2020.589966

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Protective elements of mental health status during the COVID-19 outbreak in the Portuguese population PS Moreira, S Ferreira, B Couto, M Machado-Sousa, M Fernández, C Raposo-Lima, N Sousa, M PicóPérez, P MorgadomedRxiv 2020.04.28.20080671;  –  https://doi.org/10.1101/2020.04.28.20080671

Exploratory study on the psychological impact of COVID-19 on the general Brazilian population Serafim AP, Durães RSS, Rocca CCA, Gonçalves PD, Saffi F, et al. (2021) Exploratory study on the psychological impact of COVID-19 on the general Brazilian population. PLOS ONE 16(2): e0245868. – https://doi.org/10.1371/journal.pone.0245868

Serrão C, Duarte I, Castro L, Teixeira A. Burnout and Depression in Portuguese Healthcare Workers during the COVID-19 Pandemic—The Mediating Role of Psychological Resilience. International Journal of Environmental Research and Public Health. 2021; 18(2):636. – https://doi.org/10.3390/ijerph18020636

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