Coordenação motora fina: por que é tão importante conhecer sobre ela? | Colunistas

  • setembro 9, 2020
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Coordenação motora fina: por que é tão importante conhecer sobre ela? | Colunistas

O que é o desenvolvimento motor?

É a mudança no comportamento, na postura e no movimento, relacionada com a idade, composta por alterações complexas e interligadas das quais participam todos os aspectos de crescimento e maturação dos aparelhos e sistemas do organismo.

acordo com Barreiros e Neto (2005), há dois conjuntos de fatores que podem influenciar no desenvolvimento motor: os biológicos, que determinam aptidões específicas; e os socioculturais, que orientam as opções de desenvolvimento individual e a acumulação de experiência motora, quer seja de forma organizada, quer seja de forma não estruturada ou informal. Um bom desenvolvimento motor repercute na vida da criança futuramente, nos aspectos sociais, intelectuais e culturais.

O desenvolvimento infantil se inicia ainda na vida uterina e se torna mais perceptível na primeira infância, que abrange a idade entre zero a cinco anos. Essa é a fase em que a criança recepciona com mais intensidade os estímulos vindos do ambiente e o desenvolvimento das habilidades motoras ocorre com mais rapidez.

Neste período, principalmente no primeiro ano de vida, os primeiros marcos motores aparecem com o controle de cabeça, o rolar, o arrastar e mais tarde o sentar, o engatinhar e a marcha no final do primeiro ano.

Outrossim, todo esse processo de aprendizado motor e a seleção do repertório é especialmente eficaz quando a criança brinca com outras pessoas, por exemplo, cuidadores ou irmãos.

Ela não só aprende com suas próprias experiências de tentativa e erro, mas também se beneficia das ações realizadas por outros devido aos mecanismos de espelhamento neural, os quais já estão presentes em recém-nascidos, mesmo que de forma limitada.

Dessa forma, durante o primeiro ano pós-natal, as capacidades de espelhamento são cada vez mais sintonizadas com as ações de outros e a sintonia é esculpida pela experiência (HADDERS-ALGRA, 2018).

Desenvolvendo habilidades motoras

E
a coordenação motora?

A coordenação motora é a capacidade de sincronizar os movimentos usando toda uma maquinaria de órgãos, como o cérebro, os músculos e as articulações. A coordenação motora grossa permite que a criança rasteje, ande, corra, salte, pule, suba e desça escadas, ou seja, ações mais grosseiras e fundamentais para o deslocamento.

Já a fina, que será abordada com mais profundidade nesse texto, dá a capacidade de usar os pequenos músculos em movimentos delicados, como escrever, pintar, desenhar, recortar, encaixar, montar e desmontar, abotoar e desabotoar (COSTA, 2013).

Sendo assim,
para cada fase há “marcos” que definem os avanços na aprendizagem da
coordenação motora da criança. Por exemplo, é comum que a criança:

  • Aos 2 meses, aproxime as mãos e vire a cabeça para o lado em que o som está vindo;
  • Aos 4 meses, agarre objetos, fique em decúbito ventral e mantenha a cabeça firme quando sentada;
  • Aos 6 meses, transfira brinquedos de uma mão para a outra, toque os pés, leve a comida até a boca, comece a sentar sem apoio e eleve o tronco apoiada nas mãos;
  • Aos 9 meses, prefira objetos que possa pegar usando as duas mãos, sente-se sozinha e sem apoio e já engatinhe, ficando de pé com apoio;
  • De 1-2 anos, rabisque papel, segurando o lápis com a mão toda. Pegue pequenos objetos e os coloque dentro de um recipiente, que empilhe blocos, vire a página de um livro e segure colher, tentando comer. Também que fique de pé sem ajuda, aprendendo a andar e a correr;
  • Dos 2-3 anos, faça torres com vários blocos, recorte papel com tesoura, faça traços simples com giz de cera e até comece a traçar o nome;
  • Dos 3-6 anos, copie linhas e formas e escreva o próprio nome, pegando o lápis ou a caneta fazendo movimento de pinça com os dedos. Comece a cortar formas com a tesoura, em cima da linha do papel. Além disso, que se vista de maneira independente, abotoando e fechando zíperes.
Brincadeira de criança

Logo, é essencial proporcionar à criança experiências em que ela possa lidar com o domínio do seu corpo, a tomada de consciência da sua aptidão física e as relações sociais que estão implícitas no trabalho de equipe. Se não houver essa estimulação, o resultado esperado será o “fracasso” nos jogos e atividades recreativas, como também uma incapacidade de evoluir nos movimentos de lançar, agarrar e rebater a objetos (NETO, 2010).

Se a criança não tiver aprendido tais competências motoras fundamentais, torna-se difícil para ela vivenciar o prazer do sucesso e da alegria que essas atividades podem proporcionar (SPODEK, 1998).

Além disso, ao iniciar o ato de escrever, as crianças precisam desenvolver habilidades executivas para a formação de letras, a partir do desenvolvimento de músculos grandes e pequenos, da percepção visual, das habilidades motoras finas e da manipulação na mão.

Se as crianças sem desenvolvimento suficiente de tais habilidades de prontidão aprendem a escrever, correm o risco de desenvolver maus hábitos de caligrafia, o que pode levar a dificuldades no desenvolvimento da legibilidade da letra.

Isso ocorre porque as habilidades motoras finas permitem a demonstração de boa legibilidade através da capacidade de controlar uma ferramenta de caligrafia com velocidade e precisão ao longo de atividades que exigem precisão motora fina, destreza e manipulação manual. Dessa maneira, habilidades motoras são essenciais para as crianças antes de desenvolver o comportamento repetido de segurar utensílios de escrita apropriados (SEO, 2018).

Neste tocante, a educação pré-escolar deverá proporcionar o exercício da motricidade global e também da motricidade fina, de modo que permita a aprendizagem e o domínio do próprio corpo (DEB, 1997). Isso, porque hoje sabemos que a competência motora é um importante fator para potenciar aprendizagens em outras áreas escolares.

Por exemplo: a criança só está melhor preparada para as aprendizagens escolares tradicionais – língua, grafismo, cálculo – a partir do momento em que domine a sua mobilidade e coordenação global. Comprova-se isso ao perceber que só a partir de um certo nível de organização motora, de uma coordenação fina de movimentos e de uma integração espaço temporal vivida, que se pode mais firmemente caminhar para outras aprendizagens escolares (MATOS, 2000).

Dessa forma, a competência da motricidade apresenta um papel relevante não só no que diz respeito a benefícios na saúde, mas também no que se refere ao desenvolvimento cognitivo, afetivo e social da criança (GALLAHUE, 2005)

Mas por que é importante sabermos sobre o
assunto?

Sabe-se que os
hábitos da vida moderna tendem a causar alterações nas experiências e vivências
motoras. Exemplifica-se isso por ter se observado uma redução drástica na
necessidade de movimentos realizados no cotidiano, pelo menos aqueles
considerados amplos, que têm sido substituídos por movimentos que envolvem
grupos musculares menores. Essas alterações no repertório motor também têm sido
observadas cada vez mais cedo com o advento de aparelhos e jogos eletrônicos, em
detrimento da realização das atividades e das brincadeiras tradicionais que
envolvem ações motoras finas (LIN, 2019).

Percebe-se isso, pois as várias atividades diárias que exigem habilidades de manipulação nas duas mãos são executadas quando as crianças lidam com brinquedos ou objetos com os dedos e as mãos, utilizando a fisiologia, a estabilidade articular, a percepção visual e háptica, requerendo um alto grau de coordenação.

Por outro lado, os dispositivos com tela sensível ao toque, a exemplo, tablets e celulares, requerem atividades básicas simples: toque, toque duplo, pressionar, arrastar e aplicar zoom.

Comparado com ações que envolvem a apreensão de objetos, desenho e caligrafia, o envolvimento de músculos, força, coordenação e destreza são relativamente menores ao usar um tablet. Com isso, o uso desses dispositivos com tela de toque pode levar a mudanças na função fisiológica do músculo e têm um efeito significativo na aquisição de habilidades motoras finas (LIN et al, 2017)

Por fim, a falta de oportunidade de práticas sistematizadas e estruturadas com objetivos de proporcionar experiências motoras diversificadas e a falta de instruções apropriadas têm sido indicadas como razões para que crianças não alcancem níveis mais elevados de desempenho motor nas habilidades motoras fundamentais, ficando aquém do nível esperado para as respectivas idades (RODRIGUES et al, 2013).

Desse modo, é necessário que conheçamos a importância da coordenação motora fina e como desenvolvê-la da melhor forma, lidando com as interferências negativas que as tecnologias modernas podem acarretar.

Uso do tablet

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