A constipação intestinal se caracteriza como um dos principais distúrbios da defecção. Na sua apresentação clínica, caracteriza-se pela eliminação de fezes com aspecto endurecido, acompanhado de dor. Além disso, os pacientes acometidos por tal quadro necessitam de elevado esforço durante o ato de defecar, podendo ocorrer até menos que três evacuações por semana, dado a dificuldade para eliminar os resíduos. A retenção de fezes (fecaloma) pode levar a incontinência fecal, além de gera dor e sofrimento à criança, podendo até mesmo cursar com pequenos sangramentos e fissura anal, tendo em vista a pressão realizada durante o ato de defecação.
Assim como outros distúrbios funcionais gastrointestinais, acredita-se que a constipação intestinal seja fruto de uma interação entre fatores biopsicossociais. A dor diante do ato de defecar pode levar o indivíduo a um comportamento de retenção, o que, progressivamente, pode levar a um quadro de incontinência. Ademais, diante da dor gerada durante a defecação, muitas crianças podem passar a assumir um comportamento com baixa alimentação, diante do medo que pode ser gerado pelo quadro de constipação.
A fim de uniformizar o diagnóstico dos distúrbios funcionais gastrointestinais, foi criado o critério de Roma, o qual por meio das manifestações clínicas do paciente e a faixa etária na qual ele se encaixa, se apresenta como uma ótima ferramenta diagnóstica.
Critério de Roma III (2006) para a caracterização de constipação intestinal na faixa etária pediátrica:
Recém-nascido, lactente e pré-escolar
Pelo menos dois dos seguintes critérios em menores de 4 anos, por pelo menos 1 mês:
• Duas ou menos evacuações por semana
• Pelo menos um episódio de incontinência fecal por semana após aquisição do controle do esfíncter anal
• Comemorativo de comportamento de retenção
• Evacuações com dor ou dificuldade
• Presença de grande quantidade de fezes no reto
• Eliminação de fezes de grande diâmetro, o que pode causar entupimento do vaso sanitário
Podem ocorrer: irritabilidade, diminuição do apetite e/ou saciedade precoce. Esses sintomas desaparecem quando ocorre uma evacuação.
Pré-escolar, escolar e adolescentes
Pelo menos dois dos seguintes critérios em criança com desenvolvimento igual ou maior ao esperado para os 4 anos de idade:
• Duas ou menos evacuações por semana no vaso sanitário
• Pelo menos um episódio de incontinência fecal por semana
• Comportamento de retenção ou retenção voluntária das fezes
• Evacuações com dor ou dificuldade
• Presença de grande quantidade de fezes no reto
• Eliminação de fezes de grande diâmetro, o que pode causar entupimento do vaso sanitário
Pelo menos uma vez por semana por 2 meses
Durante o exame físico o profissional médico pode identificar, por meio da palpação do abdômen, a presença de massa fecal retida. Geralmente, a massa se encontra na região de hipogástrio, mas dependendo da quantidade de fezes acumuladas a massa palpada pode ocupar todo o abdômen. Além disso, o toque retal pode apontar para a presença de fezes endurecidas, as quais também podem ser identificadas por meio de radiografia da região do abdômen.
O tratamento deve levar em conta o quadro do paciente e as suas necessidades. Na presença de fecaloma ou impactação fecal, deve ser realizado o esvaziamento do canal retal e do colón, fazendo com que todas as fezes ressecadas que se encontram aprisionadas nessa região sejam retiradas.
A desimpactação deve ser realizada com o Polietilenoglicol 3350 ou de 4000, com dose de 1,0 a 1,5 g/Kg/dia, por via oral e em até no máximo por seis dias. Além disso, pode-se fazer o Enema fosfatado com uma dose de 2,5 ml/Kg/dia, com dose máxima de 133 ml/dose, aplicada via retal. A duração máxima de uso deve ser por 6 dias e não deve ser feito em crianças menores de dois anos de idade.
Além disso, crianças que possuem constipação intestinal devem evacuar quando sentirem vontade, não devendo postergar esse desejo. Ademais, devem tentar evacuar pelo menos uma vez ao dia, principalmente, após uma das refeições diárias.
Deve-se aconselhar que a criança faça a ingestão de alimentos ricos em fibras e beba bastante água, tendo em vista que as ações anteriores irão contribuir para a formação do bolo fecal. Além disso, deve-se estimular que a criança pratique atividades físicas, o que também é de extrema importância para a melhora no quadro de constipação.
Naqueles pacientes em que não se encontra fecaloma, deve-se fazer um tratamento de manutenção, com o intuito de evitar a retenção de fezes.
Deve ser utilizado:
– Lactulose (laxante) na dose de 1 a 3 ml/Kg/dia, por via oral.
– Óleo mineral na dose de 1 a 3 ml/Kg/dia, por via oral. A dose máxima diária deve ser entre 60 e 90 ml. Não se deve prescrever para lactentes e crianças portadoras de neuropatias.
– Polietilenoglicol 3350 ou 4000
Para prevenir quadros de constipação intestinal é de extrema importância o estabelecimento de uma dieta rica em fibras, consumo satisfatório de líquidos, associados a atividade física.
Autoria: Cristovão Pereira dos Santos Júnior
Instagram pessoal: @cristovao.junior1
O texto é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto.
Observação: material produzido durante vigência do Programa de colunistas Sanar junto com estudantes de medicina e ligas acadêmicas de todo Brasil. A iniciativa foi descontinuada em junho de 2022, mas a Sanar decidiu preservar todo o histórico e trabalho realizado por reconhecer o esforço empenhado pelos participantes e o valor do conteúdo produzido. Eventualmente, esses materiais podem passar por atualização.
Novidade: temos colunas sendo produzidas por Experts da Sanar, médicos conceituados em suas áreas de atuação e coordenadores da Sanar Pós.
REFERÊNCIA
BURNS, Dennis A. et al. Tratado de Pediatria: Volume1 e 2. 4 ed. Barueri: Manole, 2017.