Toda criança tem muito a aprender
sobre si e sobre o mundo. No entanto, algumas coisas os bebês já nascem
sabendo: por exemplo, regular o próprio apetite.
“Do ponto de vista comportamental, desde o
nascimento os recém-nascidos saudáveis possuem a capacidade de autorregular sua
alimentação, determinando o início da mamada, qual a velocidade que sugam e
quando querem parar de mamar.”
(Sociedade Brasileira de Pediatria).
A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda o aleitamento materno exclusivo até os seis meses de vida, não sendo necessária a oferta de água, chá nem de outros alimentos. Após esse período, devem ser oferecidos à criança alimentos nutritivos além do leite materno (alimentação complementar).
A introdução alimentar tradicional
baseia-se em oferecer ao bebê alimentos líquidos e pastosos; os pais/cuidadores
definem o início e o término das refeições, além da quantidade e da velocidade
da alimentação. Então, confrontando essa técnica clássica, está o BLW.
O método de alimentação baby-led weaning (BLW), criado pela
enfermeira e mestre em nutrição infantil, a britânica Gill Rapley, consiste no
desmame conduzido pelo próprio bebê. “Weaning” refere-se à transição gradual da
alimentação do bebê.
“Não se trata de um método específico, mas de
uma abordagem que encoraja os pais a confiarem na capacidade nata que o
lactente possui de se autoalimentar.”
(Guia prático de atualização – Departamento de Nutrologia da Sociedade
Brasileira de Pediatria).
Essa abordagem inclui oferecer ao bebê
alimentos nutritivos durante as refeições da família, mas o bebê deve ser o
único responsável por colocar os alimentos na própria boca. Para que o método
seja efetivo, os pais/cuidadores devem confiar na capacidade inata de
autorregulação alimentar; ou seja, devem acreditar que o bebê tem a capacidade
de decidir o que deve comer, quando, quanto e em qual velocidade.
O principal objetivo do método é
incentivar a liberdade do bebê durante as refeições, estimulando seu
desenvolvimento e sua autonomia. Como o consumo de alimentos sólidos deve ser
compatível com as necessidades da criança, ela pode ter o total controle de sua
alimentação.
Acredita-se que bebês com crescimento
e desenvolvimento adequados para a idade, após o sexto mês de vida, adquirem a
capacidade motora de guiarem os alimentos até a boca e, por isso, são aptos a
consumirem alimentos em pedaços.
Esse método usado, principalmente, na
Europa e nos Estados Unidos ainda apresenta muitas questões a serem
respondidas. Vamos a alguns esclarecimentos importantes.
“Os pais/cuidadores precisam passar muito tempo esperando que a criança
alimente-se sozinha.”
Não necessariamente. O método
preconiza que o bebê faça as refeições junto da família, sentado à mesa em sua
cadeirinha; assim, escolhe o que quer comer entre os alimentos que lhe são
oferecidos e o faz em seu próprio ritmo. As crianças são curiosas por natureza
e essa é a maior motivação para que o bebê coma um alimento oferecido a ele;
dessa forma, a introdução alimentar torna-se mais livre e descontraída.
“O método BLW preconiza que os alimentos sejam ingeridos em pedaços.”
Sim, isso é verdade. Os alimentos devem
ser cortados de forma que o bebê consiga segurá-los facilmente (por exemplo,
palitinhos de cenoura, cubinhos de abóbora) para que ele seja o protagonista de
sua alimentação. Nesse ponto, é importante observar que o bebê pode não
conseguir segurar o alimento, mesmo quando oferecido em cortes adequados; se
isso ocorrer, é importante que os pais sejam orientados quanto ao
desenvolvimento motor e às necessidades nutricionais do bebê. Pode ser que o
bebê ainda não esteja pronto para iniciar o método BLW ou que ele precise de alguma
assistência durante a alimentação (cada caso é um caso e requer avaliação
nutricional e pediátrica).
“Bebês não conseguem comer sozinhos.”
Após os seis meses de vida, os bebês
conseguem sim comer sozinhos; inclusive, alguns bebês só aceitam comer se for
dessa forma. Mais uma vez, de modo geral, consideram-se bebês nascidos a termo
e em desenvolvimento neuropsicomotor típico. Nessa idade, o desenvolvimento do
bebê caracteriza-se por sua curiosidade e sua capacidade de sentar sem apoio e
de segurar objetos com as mãos, levando-os facilmente à boca.
“Alimentos sólidos podem fazer o bebê engasgar.”
Durante o desenvolvimento do bebê,
primeiro ele adquire a capacidade de engolir, depois de mastigar e,
posteriormente, a de levar alimentos (ou objetos) à boca. Isso significa que o
fato de o bebê conseguir colocar um alimento na boca indica sua capacidade de
mastigar e de engolir. Quando um alimento é introduzido passivamente na boca do
bebê com uma colher, não se garante que ele já tenha esse desenvolvimento
completo e, então, o risco de engasgo é maior.
“O bebê pode ter alguma deficiência nutricional por rejeitar muitos
alimentos oferecidos.”
Isso depende da situação. Pressupõe-se
que um bebê livre para experimentar sabores e texturas de diferentes alimentos tende
a aceitar uma variedade maior de alimentos e fica mais disposto a novas
experiências. Para uma alimentação completa e nutritiva, o bebê deve receber
várias opções de vegetais e carnes cozidos, passíveis de serem explorados e
mastigados. O bebê pode rejeitar algum alimento, mas não significa que ele não
possa experimentá-lo novamente em uma nova oportunidade. Crianças que rejeitam
muitos alimentos requerem acompanhamento clínico, pois, nesses casos, pode
haver uma possível deficiência nutricional.
No início da introdução alimentar no
método BLW, espera-se que o bebê brinque bastante com os alimentos. E está tudo
bem. Os pais/cuidadores devem ser encorajados a terem paciência e desencorajados
quanto a preocupações. O método pode falhar se o bebê não se sentir seguro;
isso pode ocorrer quando ele é obrigado a comer ou quando recebe castigos ou
ameaças. É comum que os bebês alimentem-se bem sozinhos a partir dos 8-9 meses
de idade.
Portanto, o bebê não deve ser
apressado. Ele pode sujar a mesa, a cadeira e suas mãozinhas, enquanto adquire
a capacidade de regular o próprio apetite, desenvolve a coordenação motora e
inicia suas habilidades sociais ao participar das refeições em família.
Autor: Viviane Ventura
Instagram: @viviane.crv