Comunicação interatrial isolada em crianças é uma das cardiopatias congênitas mais comuns, caracterizada por uma abertura no septo interatrial que permite o fluxo anômalo de sangue entre os átrios direito e esquerdo.
Embora muitas crianças permaneçam assintomáticas, essa condição pode gerar alterações hemodinâmicas, sobrecarga de volume do átrio e do ventrículo direitos e, a longo prazo, complicações como hipertensão pulmonar, insuficiência cardíaca e arritmias. Portanto, o diagnóstico precoce e o acompanhamento clínico adequado são fundamentais para prevenir sequelas cardiovasculares e orientar decisões terapêuticas, seja conservadoras ou intervencionistas.
Assim, este texto aborda a epidemiologia, classificação, manifestações clínicas, métodos diagnósticos, estratégias de manejo e desfechos da comunicação interatrial isolada em crianças, destacando a importância de condutas individualizadas para cada paciente.
Epidemiologia da comunicação interatrial isolada em crianças
As comunicações interatriais isoladas (CIAs) correspondem a cerca de 10 a 15% das cardiopatias congênitas, com prevalência estimada entre 1 e 2 casos a cada 1.000 crianças.
Estudos populacionais indicam que aproximadamente 79% dos recém-nascidos apresentam algum tipo de comunicação intra-atrial detectável, mas a grande maioria corresponde a FOPs, enquanto apenas uma pequena fração é constituída por CIAs propriamente ditas, com prevalência geral estimada em torno de 6% nos primeiros dias de vida.
Entre os defeitos identificados, a maioria é de pequeno tamanho (<6 mm), e muitos se fecham espontaneamente ao longo da infância, principalmente nos primeiros anos de vida.
Classificação da comunicação interatrial isolada em crianças
As comunicações interatriais isoladas (CIAs) em crianças classificam-se com base na localização anatômica, refletindo geralmente a anormalidade embriológica subjacente. Os principais tipos incluem:
- Primum: localizada na base do septo interatrial, frequentemente associada a defeitos do canal atrioventricular;
- Secundum: situada na região da fossa ovalis, é a forma mais comum, ocorrendo mais frequentemente em meninas;
- Seio venoso: resultado de inserção anômala das veias cavas, representando cerca de 5 a 10% dos casos;
- Seio coronário: a forma mais rara, caracterizada pela ausência parcial ou total da parede entre o seio coronário e o átrio esquerdo;

Fisiopatologia da comunicação interatrial isolada em crianças
A fisiopatologia da comunicação interatrial isolada (CIA) em crianças está diretamente relacionada à abertura anormal no septo interatrial, que permite a passagem de sangue entre os átrios direito e esquerdo.
Durante a vida fetal, o forame oval possibilita o desvio do sangue do átrio direito para o esquerdo, contornando os pulmões, devido ao gradiente de pressão atrial. Após o nascimento, a queda da resistência vascular pulmonar e a elevação da pressão sistêmica promovem o fechamento funcional do forame, separando completamente os átrios na maioria dos indivíduos.
Nos casos em que há persistência de uma CIA, o shunt é geralmente da esquerda para a direita, resultando em sobrecarga de volume do átrio e ventrículo direitos e aumento do fluxo pulmonar. Essa sobrecarga crônica pode levar à remodelação da vasculatura pulmonar, hipertrofia da musculatura vascular e aumento da resistência pulmonar, com risco de desenvolvimento de hipertensão pulmonar.
Ademais, em defeitos significativos, quando a resistência pulmonar atinge níveis elevados, pode ocorrer reversão do shunt (direita-esquerda), permitindo a mistura de sangue desoxigenado na circulação sistêmica, caracterizando a síndrome de Eisenmenger.
O impacto hemodinâmico do shunt depende do tamanho e da localização do defeito, assim como da presença de alterações associadas na anatomia cardíaca.
Manifestações clínicas da comunicação interatrial isolada em crianças
A comunicação interatrial isolada em crianças é frequentemente assintomática, e muitos casos permanecem não diagnosticados até a idade adulta. Todavia, quando presentes, os sinais clínicos podem incluir um sopro sistólico ejetivo suave na região pulmonar, associado a uma divisão ampla e fixa do segundo ruído cardíaco.
Além disso, defeitos maiores ou extensos podem levar precocemente a sintomas como dispneia, fadiga, intolerância ao exercício, palpitações e sinais de sobrecarga de volume do ventrículo direito.
O surgimento e a intensidade dos sintomas dependem principalmente do tamanho do defeito:
- Defeitos menores que 5 mm tendem a ser assintomáticos.
- Defeitos entre 5 e 10 mm e maiores geralmente apresentam sintomas em idades mais precoces, com os maiores sendo sintomáticos já na terceira década de vida.
Por fim, em casos raros e graves, a sobrecarga crônica do shunt pode evoluir para a síndrome de Eisenmenger, caracterizada por reversão do fluxo, cianose crônica, aumento da resistência vascular pulmonar, dispneia e maior suscetibilidade a infecções.
Diagnóstico da comunicação interatrial isolada em crianças
A CIA em crianças pode ser realizado tanto no período pré-natal quanto pós-natal, embora a detecção fetal dependa do tipo de defeito e da experiência do ecocardiografista.
A CIA primum pode ser identificado por ecocardiografia fetal especializada entre 18 e 22 semanas de gestação, enquanto a CIA secundum, mais comum, raramente é diagnosticada antes do nascimento devido à presença fisiológica do forame oval. Os defeitos do seio venoso e do seio coronário, por sua vez, também podem ser detectados precocemente, embora a sensibilidade e especificidade nesses casos sejam limitadas.
Após o nascimento, a suspeita clínica baseia-se em achados do exame físico, como sopro sistólico e desdobramento fixo do segundo ruído cardíaco, e alterações eletrocardiográficas, como bloqueio incompleto do ramo direito. Nesses casos, a ecocardiografia transtorácica (ETT) é o exame de escolha para confirmar a presença, o tamanho e a localização do defeito, enquanto a ecocardiografia transesofágica (ETE) oferece avaliação mais precisa das margens do septo, sendo especialmente útil no planejamento de fechamento percutâneo ou cirúrgico.
Além disso, em situações selecionadas, a ressonância magnética (RM) cardíaca pode complementar a avaliação, permitindo quantificação precisa do fluxo sistêmico e pulmonar e identificando defeitos associados, como conexões venosas anômalas.
Tratamento da comunicação interatrial isolada em crianças
O manejo de crianças com comunicação interatrial (CIA) depende do tamanho do defeito, do tipo de CIA e da possibilidade de fechamento espontâneo.
Por exemplo, CIAs secundum pequenas ou forames ovais patente geralmente fecham-se espontaneamente durante a infância e não necessitam de acompanhamento regular. Em contraste, CIAs clinicamente significativas, incluindo defeitos secundum maiores que 3 mm ou outros tipos como primum, seio venoso ou seio coronário, devem ser monitoradas periodicamente por um cardiologista pediátrico.
Indicações para fechamento do defeito
O fechamento do defeito é indicado em casos de desvio significativo da esquerda para a direita, evidenciado por:
- Dilatação atrial ou ventricular direita.
- Sinais de hipercirculação pulmonar.
- Proporção Qp/Qs elevada.
Também considera-se o fechamento em situações raras, como AVC embólico sem outra causa em crianças.
Por fim, em pacientes assintomáticos com defeitos pequenos ou sem desvio relevante, o acompanhamento clínico é suficiente.
Momento da intervenção
O momento da intervenção geralmente é após os dois anos de idade, permitindo possível fechamento espontâneo nos primeiros anos.
Fechamento transcateter versus cirúrgico
A escolha entre fechamento transcateter e cirúrgico depende da anatomia do defeito. Assim, o fechamento transcateter é preferido para CIAs secundum isoladas com bordas adequadas, evitando cirurgia aberta, circulação extracorpórea e internação prolongada.
Já defeitos complexos ou grandes, incluindo primum, seio venoso ou secundum com insuficiência cardíaca em lactentes, requerem correção cirúrgica, geralmente com patch de pericárdio ou Dacron.
Acompanhamento pós-intervenção
O acompanhamento pós-intervenção inclui:
- Monitoramento cardiológico periódico.
- Retomada gradual das atividades físicas.
- Profilaxia antibiótica apenas nos primeiros seis meses ou se houver desvio residual.
Desfechos da comunicação interatrial isolada em criança
Os resultados a longo prazo do fechamento de CIAs em crianças são excelentes, tanto para procedimentos transcateter quanto cirúrgicos.
A sobrevida e a qualidade de vida aproximam-se das de crianças saudáveis, com baixa incidência de arritmias, insuficiência cardíaca, hipertensão pulmonar ou acidente vascular cerebral.
Assim, a intervenção precoce adequada permite um prognóstico favorável e participação normal em atividades físicas após o período de recuperação.
Conheça a Pós-Graduação em Pediatria da Sanar
Se você deseja oferecer cuidado especializado e atualizado para crianças e adolescentes, a Pós-Graduação em Pediatria da Sanar é o caminho ideal. Com conteúdo clínico completo e baseado em evidências, você vai dominar desde o atendimento de rotina até casos complexos, com segurança e confiança.

Referências
- Menillo, A. M., Alahmadi M. H., Pearson-Shaver A.L. Defeito do Septo Atrial. [Atualizado em 21 de janeiro de 2025]. Em: StatPearls [Internet]. Treasure Island (FL): StatPearls Publishing; jan. de 2025. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK535440/
- Vick, G. W.; Bezold, L. I. Isolated atrial septal defects (ASDs) in children: Classification, clinical features, and diagnosis. UpToDate, 2024.
- Vick, G. W.; Bezold, L. I. Isolated atrial septal defects (ASDs) in children: Management and outcome. UpToDate, 2024.