Relação entre estado hiperglicêmico e complicações
A hiperglicemia sustentada é a caracterização da Diabetes pela alteração primária de mecanismos da secreção e/ou da ação da insulina.
A condição de hiperglicemia pode ocasionar em complicações agudas e crônicas;
- Agudas: são condições emergenciais (como cetoacidose diabética).
- Crônicas: são condições insidiosas que resultam de uma lesão vascular causada pela hiperglicemia sustentada.
- podem ser micro ou macrovasculares.
Epidemiologia das complicações
- A nefropatia diabética (ND) representa, no Brasil, a segunda causa de doença renal crônica (DRC)
- A retinopatia diabética é a principal causa de cegueira em pessoas com idade entre 20 e 74 anos.
- O pé diabético é a principal causa de amputação não traumática.
Fisiopatologia da hiperglicemia sustentada
O aumento da glicose intracelular, ou seja, hiperglicemia é o principal determinante do dano tecidual causado pelo diabetes.
Dano que inicialmente pode ser reversível (em normoglicemia), ou irreversível, mesmo quando revertida a hiperglicemia, por acúmulo de alterações em macromoléculas em períodos longos.
Ao se tratar de complicações, três focos são destacados na discussão clínica de lesões associadas ao diabetes:
- Rins
- Retina
- Fibras Nervosas
Isso se dá pela incapacidade do endotélio desses locais de regular a glicose intracelular, o que gera: ativação de vias inflamatórias (aumento do estado inflamatório), produtos finais de glicação avançada (AGEs) — que modificam a célula e suas funções — e estresse oxidativo.
Além dos efeitos intracelulares, a resistência insulínica gera disfunção endoelial, uma vez que em condições fisiológicas insulina atua no endotélio vascular regulando o crescimento celular, a expressão de genes, a síntese proteica, a redução do influxo de cálcio e possui ação vasodilatadora, relacionada com a estimulação da produção de óxido nítrico (NO) pelo endotélio. Contudo, em condições de resistência, há uma hiperproduçao de insulina, o que contribui para aterosclerose, já que passa a estimular a produção de lipídios, a proliferação da célula muscular lisa, a síntese de colágeno e a produção de fatores de crescimento. Concomitantemente, a produção de NO mediada pela insulina se torna comprometida.

Quadro clínico, Diagnóstico e Tratamento
Para melhor compreensão, o artigo será dividido, a partir daqui, nas três principais complicações:
- Nefropatia Diabética (ou Doença Renal Diabética – DRD)
- Retinopatia Diabética
- Neuropatia Diabética
NEFROPATIA DIABÉTICA
Aqui, entendemos que conforme a glicose passa pelo néfron em cargas aumentadas, há a glicosúria, até que o rim aumenta sua atividade para compensar a sobrecarga, contudo, ao chegar ao seu limite, instauram-se lesões renais. Se não houver intervenção efetiva, a insuficiência renal pode se estabelecer.
O rastreamento deve ser feito em todos os pacientes diagnosticados com DM2. Em diabéticos do tipo DM1, deve-se rastrear após 5 anos do diagnóstico (deve-se antecipar quando o paciente é hipertenso ou está na puberdade).
O Diagnóstico é feito com: creatinina sérica (para cálculo de clearance), albuminúria e creatinúria em amostra de urina isolada (2 – 3 amostras alteradas em um período de 3-6 meses)
| Classificação | Valor |
| Albuminúria A1/ Normoalbuminúria | <30 mg/gCr |
| Albuminúria A2/ Microalbuminúria | 30-300 mg/gCr |
| Albuminúria A3/ Macroalbuminúria | >300 mg/gCr |
Obs. Se encontrar macroalbuminúria é preciso pedir urina de 24h (porque neste caso a amostra isolada deixa de ser fidedigna). Além disso, é necessário uma boa avaliação clínica, já que há pacientes que evoluem para insuficiência renal sem passar por estágios de perda proteica, ou possuem uma perda discreta.
O tratamento consiste no:
- Controle glicêmico: preferencialmente, deve ser feio com Inibidores de SGLT2 (são glicosúricos e diminuem a pressão intraglomerular) e agonista de GLP1 (diminuição da progressão de DRD)
- Controle pressórico (se necessário): é preciso manter PA < 140x80mmHg em qualquer paciente diabético e PA < 130x80mmHg em pacientes com risco cardiovascular. Se paciente com Albuminúria A2 ou A3, recomenda-se o uso de IECA ou BRA (inibem O sistema renina-angiotensina-aldosterona -SRAA). Se paciente com Albuminúria A1, anti-hipertensivo de escolha.
O principal objetivo, na verdade, se concentra na prevenção dessas complicações. Há uma forte associação entre os altos índices glicêmicos e as complicações micro e macrovasculares, nesse sentido, a recomendação é a manutenção da HbA1c <7%.
OFTALMOPATÍA DIABÉTICA
Pode ser: Retinopatia Diabética (alteração da microvasculatura da retina) e edema macular (lesão na mácula). Nesses pacientes, a principal causa de baixa da acuidade visual é o edema macular, podendo estar presente desde as fases iniciais da retinopatia até em casos nos quais há doença proliferativa grave, acometendo 30% dos pacientes com mais de 20 anos de diabetes.
O rastreamento deve ser feito em todos os pacientes diagnosticados com DM2. Em diabéticos do tipo DM1, deve-se rastrear após 5 anos do diagnóstico (deve-se antecipar quando o paciente está grávida ou na puberdade). Este rastreamento deve ser feito, preferencialmente, por especialista oftalmologista por meio de oftalmoscopia indireta e microscopia da retina.
O tratamento, realizado pelo oftalmologista, varia sua abordagem se caráter da lesão for proliferativa (formação de neovasos) ou não proliferativa. Aliado, a orientação ao paciente é importante, deve-se enfatizar a necessidade de evitar exercícios de alta intensidade (devido ao risco de rompimento de neovasos).
NEUROPATIA DIABÉTICA
Possui características essencialmente sensitivas e podem estar associadas a sintomas como dor, disestesias, sensação de queimação, ardência ou choques. Ainda pode estar associada a ausências sensitivas como diminuição ou abolição da percepção da dor e temperatura. Divide-se em dois tipos:
- Simétricas e generalizadas (+ comuns)
- Sensoriais motoras- crônicas (Lesões em “bota” ou “luva”)
- Sensoriais agudas
- Autonômicas: nestas, costuma haver redução na variabilidade da Frequência Cardíaca (se em repouso ou em atividade, a FC é similar), taquicardia em repouso, hipotensão postural e isquemia miocárdica silenciosa. Ainda, é possível a gastroparesia diabética, constipação ou diarreia.
- Focais, multifocais e assimétricas
- Paralisia do 3º par craniano (sem midríase)
- Paralisia do nervo ulnar
O rastreamento deve ser feito em todos os pacientes diagnosticados com DM2. Em diabéticos do tipo DM1, deve-se rastrear após 5 anos do diagnóstico (deve-se antecipar quando o paciente está na puberdade). Este rastreamento é realizado por exame físico.
Rastreamento de Lesão Sensitivo-motora
- Inspeção (incluindo interdigitos) – pesquise micoses
- Palpação de pulsos (avaliar vascularização)
- Monofilamento 10g (avaliação de sensibilidade à pressão)
- Diapasão na base do hálux (avaliar sensibilidade vibratória)
- Temperatura no dorso do pé
- Reflexo do aquileu
- Sensibilidade dolorosa na base do Halux
Rastreamento de Lesão autonômica:
- Ausculta cardíaca (taquicardia em repouso)
- Hipotensão postural
- Índice tornozelo-braquial em pacientes >50 anos (suspeita de doença arterial obstrutiva periférica)
O tratamento possui um caráter sintomatológico (nos casos de dor, recomenda-se antidepressivo tricíclico, anticonvulsivantes, IRSN ou ISRS) e no manejo de condições adjacentes, como controle pressórico, manejo de dislipidemias e cessação de tabagismo.
PÉ DIABÉTICO
É uma entidade clínica que combina uma neuropatia diabética com uma complicação macrovascular na região dos pés (podendo acometer desde um pododáctilo até o pé por completo). Consiste em uma situação de infecção, ulceração e/ou destruição dos tecidos profundos do pé.
A úlcera pode ser de dois tipos:
- Neuropáticas — Gangrena úmida (+ COMUM):
- Indolor
- pulsos presentes
- calosidades e pele seca
- tecido granuloso
- secretiva
- Vasculares — gangrena seca :
- Dor presente
- pulsos ausentes
- unhas atrofiadas
- Palidez
- margens irregulares
- não exsudativa
O tratamento depende do nível de acometimento da ulceração, mas é realizado com o tripe:
- Antibioticoterapia
- Cuidados gerais com a ferida ulcerativa
- Repouso
No quadro avançado, possivelmente, a indicação é tratamento cirúrgico, com possibilidade de amputação.
No pé diabético, é muito importante a orientação do paciente:
- Higienização dos pés
- Enxugar bem entre os dedos
- Hidratação dos pés
- Uso de sapatos confortáveis (evitar lesões)
- Cortar unhas adequadamente
Resumo dos principais pontos
- Conhecer quais as principais complicações crônicas do diabetes: Nefropatia, retinopatia e neuropatia diabética
- Reconhecer os quadros de pé diabético, além de fornecer orientações para prevenção do quadro.
- Quando rastrear cada complicação — imediatamente, todos os pacientes diagnosticados com DM2 e rastreio após 5 anos de diagnóstico de DM1, com antecipação específica, se:
- Nefropatia: paciente hipertenso ou está na puberdade
- Retinopatia: paciente grávida ou na puberdade
- Neuropatia:paciente está na puberdade

Perguntas frequentes:
1 – Quais as principais complicações crônicas da hiperglicemia sustentada?
Nefropatia, retinopatia e neuropatia diabética.
2 – Qual complicação de caráter prevenível precisa ser alvo de atenção na hiperglicemia?
Neuropatia relacionada ao pé diabético.
3 – Quais os componentes do tratamento para pé diabético?
Antibioticoterapia, cuidados gerais com a ferida ulcerativa e repouso.
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Referências:
- Diretrizes da Sociedade Brasileira de Diabetes para Retinopatia Diabética. 2014. Disponível em: https://www.diabetes.org.br/profissionais/images/pdf/diabetes-tipo-1/012- Diretrizes-SBD-Retinopatia-Diabetica-pg149.pdf
- Sales P, Halpern A, Cercato C. O essencial em endocrinologia. 1. ed. Rio de Janeiro: Roca; 2016.
- Sociedade Brasileira de Diabetes. Diretrizes 2017-2018.